Skip to main content

Full text of "Revista de sciencias naturaes e sociaes"

See other formats


REVISTA 



Sciencias Naturaes e Sociaes 

órgão da sociedade Carlos ribeiro ^ 

Publicação trimestral 

"Directores — RICARDO SEVERO e 'ROCHA PEIXOTO 



Yolume Segundo — N.° 5 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
66, Rua da Fabrica, 66 

1891 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

O mylho chaldeo-babylonico dos amores de Jsiar na tradi- 
ção occidental, por Theophilo Braga . • . . pag. i 

Notas sobre a linguagem vulgar do Porto, por J. Leite de 

Vasconcellos • . . . pag. 19 

Liste des odonates du Portugal et note critique sur les Ony- 
chogomphus Genei, Selys et Hagenii, Selys, par Al- 

BERT GlRARD . . . pag. 26 

VARIA 

Effects de la semi-domestication sur le daim (Dama vulga- 

ris) d' après M. Kei lhack, par P. C. • . . . ... pag. 46 

OS MORTOS 

António Roberto Pereira Guimarães, por R. P. . . . . pag. 48 




REVISTA 



DK 



SCÍENCÍAS NATURAIS E SOCIAES 



ORGAO DOS TRABALHOS DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



O MYTHO 

CHALDEO-BABYLQNICO DOS AMORES DE ISTAR 
NA TRADIÇÃO OCCIDENTAL 

(estudo sobre o cyclo romanesco de juliana e jorge) 








epois de termos determinado nos romances da 
Gayarra das Astúrias, e da Serrana de la Vera, 
da Extremadura, que matam todos os seus 
amantes, os vestígios do antigo mytho da deusa 
Istar, da civilisação accádica, o Diabo-Venus da Edade 
média, outros desenvolvimentos do mesmo mytho appa- 
recem no romance popular de Juliana e Jorge, commum a 
quasi todos os povos da Europa. Este romance, reduzido 
á simplicidade do seu thema, resume-se no castigo que 
uma amante dá ao namorado, no momento^em que lhe 
annuncia que vae casar com outra mulher. A mesma sim- 
plicidade ou vulgaridade do assumpto faria com que o ro- 
mance se decompozesse em prosa anedoctica, se é que 
elle tivesse origem numa idealisação da realidade; a sua 
conservação em povos diversíssimos, ^e sempre na forma 
poética, explicam-nos que essa persistência é devida á uni- 
versalidade de um mytho, que se transformou em lenda 

VOL. II x 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



popular, e se adaptou entre aquelles povos em que exis- 
tiam concepções análogas, apesar da diversidade das raças 
em que elle se encontra. 

As duas mulheres rivaes, são Istar q Allat, as duas 
manifestações divinas do principio feminino Belit ; Istar, 
era adorada no planeta Vénus, com as suas apparições ao 
anoitecer e de madrugada, (i) ou a luz dos dois crepús- 
culos matutino e vespertino. Allat, é a noite, ou o Paiz 
im mutável da região escura do Inferno. Comprehende-se 
a antinomia entre as duas deusas, a que é a manifesta- 
ção do mundo das estrellas, e a que é a Grande Senhora 
da Terra, a deusa chtoniana e infernal. Douzi, Douwasi 
(Thammuz) o esposo mysterioso de Istar, apresenta um 
caracter solar indiscutivel ; a sua entrada na região das 
sombras, no Paiz immutavel cahindo sob o poder de Allat, 
mostra como o mytho nasceu da personificação do phe- 
nomeno da natureza. Lenormant, caracterisando o aspecto 
planetário nas religiões chaldeo-babylonicas como conse- 
quência de uma systematisação dos antigos elementos, 
çõiiclue •; «A única divindade, que desde os tempos mais 
antigos apresenta uma physionomia planetária bem deter- 
minada é Istar. Em contraposição, nada mais claro e mais 
bem estabelecido do que o caracter solar de seu esposo 
Douzi ou Thammuz; reconheceu-se desde longo tempo na 
religião da Phenicia, onde, demais, desempenhava uma 
acção muito mais considerável na mythologia babylonica. 
Estes deuses, que morrem e resuscitam periodicamente, 
próprios do culto da Ásia anterior, são personificação do 
Sol nas phases suecessivas do seu curso diurno e da sua 
carreira annual. » (2) 

A idealisação deste phenomeno, o Sol descendo ao 
occaso, ou para as trevas da Noite, e para o solsticio cio 



(1) Lenormant, Magie, p: 108. 

(2) Id. ih., p. 120. 



REVISTA DA SOCIK.DADK CARLOS RIBEIRO 



Inverno, deu-sc também nos povos áricos, e é a base ge-> 
ral da sua mythologia. O aspecto planetário é exclusiva- 
mente chaldeo-babylonico, mas os mythos baseados sobre 
elle, podem facilmente adaptar-se ao aspecto crepuscular 
e solar das mythologias indo-europêas. 

Como Istar, a deusa com as duas apparições da es- 
trella da tarde e da manhã, e esposa de Thammuz, Allat 
é também a esposa do Sol. Diz Tiele, na Historia compa- 
rada das antigas Religiões : « Os Babylonios tinham tam- 
bém a sua Allat, a rainha do império dos mortos, a es- 
posa do Sol, residindo no mundo infernal, a sombria 
densa que lança veneno nas vêas d ' aquelles que violam os 
seus juramentos, de sorte que resultam as mais terríveis 
doenças. » (i) No romance de Juliana e Jorge, é com ve- 
neno que ella castiga o perjúrio do amante que lhe an- 
nuncia que se vae desposar com outra mulher ; e elle, 
montado no seu cavallo, sente que lhe vae faltando a luz. 
Esta tradição apparece em uma duma da Ukrania (Gre- 
gório), em um canto da Suécia (a. Historia de Olaf), em 
um canto da Escossia (Lord Randal e Sir William), na 
Bretanha franceza (Jai fait un rève), nas Astúrias (El 
Convite), na Catalunha (La inoble venganza), e em Por- 
tugal, em Traz-os-Montes (D. Ausenia), ilhas dos Açores 
(O caso de Juliana e Jorge), no Brazil, Ceará e Pernambuco 
(Juliana e Jorge) e em um Pliego suelto castellano do sé- 
culo xvi (Moriana). A quasi universalidade d'est.a tradição 
entre povos tão diversos, como slavos, scandinavos, ger- 
mânicos, bretãos e românicos, prova-nos a profundidade 
primitiva das suas raizes ethnicas, e os vários gráos de 
transformação do thema primordial fundado sobre uma 
concepção mythica. 

A transformação dos mythos chaldeo-babylonicos 



(i) Tiele, op. cit., p. 199. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



operou-se ainda na grande civilisação da Ásia anterior; 
basta recordar a relação entre a lenda de Semiramis com 
o mytho de Samonramat, o céo elevado, do Peixe Oannes 
com o mytho de Hea ou Ea-IIan ou Dagan, o peixe Sal- 
vador, que ainda persiste nos Contos populares europeus. 

Nas dez versões do romance de Juliana e Jorge ha 
differentes gráos de elaboração do mesmo thema ; na tra- 
dição scandinava, a Historia de Olaf representa o con- 
flicto de dois amores do mancebo entre o Elf e a noiva ; 
conserva ainda o elemento mythico, quando o Sol no seu 
giro atravessando a floresta, é vencido pelo crepúsculo da 
noite ou a Aurora vespertina sobre os amores da Aurora 
matutina. Na tradição da Finlândia, onde os vestígios tu- 
ranianos são mais persistentes como se observa pelo es- 
tudo da epopêa mythica do Kalevala, a tradição desen- 
volve-se na forma de lenda, e o noivo que sacrifica a sua 
namorada é envenenado. Sabendo-se como nas povoações 
primitivas da Europa entrou um elemento mongolóide, 
da mesma raça que na Ásia anterior creou a grande civi- 
lisação accádica, e conhecendo-se como persistem vestí- 
gios de superstições e cultos chtonianos, que os monu- 
mentos da Chaldêa hoje explicam, torna-se lógico o ac- 
ceitar a proveniência d estes vestígios poéticos conservados 
no Romanceiro popular, a que já se referia Strabão ma- 
ravilhado da sua enorme antiguidade. 

Nas Notas aos Cantos populares do Brazil, (t. n, p. 
199) aproximando os paradigmas do romance de Juliana 
e Jorge, fomos levado pela versão da Catalunha á seguinte 
affirmação : « O nome de Gudriana faz-nos lembrar o da 
heroina germânica Gndriina, e o quadro descripto esse 
thema violento das cantilenas normandas da epopêa al- 
lemã. Sigurd, segundo a tradição épica do Edcla, esque- 
ce-se de Brunhilde com quem estava para casar, por 
effeito de uma bebida magica que lhe deu a mãe de Gu- 
druna, com a qual elle depois casa. Como o Jorge, do 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



romance insulano e brazileiro, Sigurd também tem um 
cavallo, o Gratii que atravessa o fogo. » Ksta primeira in- 
terpretação não contradiz a conclusão actual, porque a 
situação de Sigurd entre os dois amores deriva cia sua 
origem como heroe solar. 

A referencia mais antiga conhecida d'este romance na 
tradição peninsular, acha-se em uma Ensaiada ou folha- 
volante de Romances, da Bibliotheca de Praga, publicada 
por F. Wolf, onde apparecem dois versos de um romance 
que não chegou a ser colligido no século xvi : 

i) i Que me diestes, Mariana 
Que me diestes en el vino ? 

Menendez Pidal, nos Viejos romances asturianos, no- 
tou que estes dois versos pertenciam ao cyclo de Juliana 
e Jorge, conhecido nas Astúrias sob o titulo El Convite. 

Gil Vicente allude ao canto popular Moliana, Mo- 
liana; e nas ilhas dos Açores ainda se diz em tom de 
ameaça : « Heide-te fazer cantar a Moliana. » 

Aproximaremos todas as versões d'este romance pela 
ordem em que as fomos encontrando nas lições oraes ou 
escriptas, para se deduzir da mutua similaridade o seu 
indiscutivel caracter mvthico. 



2) A. — JULIANA (versão de Pernambuco) 

— Deus vos salve, Juliana. 
No teu estrado assentada. 

« Deus vos salve, rei Dom Jóca 
No teu cavallo montado. 
Rei Dom Jóca, me contaram 
Que tu estavas p'ra casar ? 

— Quem t'o disse, Juliana, 
Fez bem em te desenganar. 




REVISTA D.\ SOCIEDADE CARDOS RIBEIRO 



« Rei Dom Jóca, se casaes, 
Tornae ao bem querer, 
Poderás enviuvar 
E tornar ao meu poder. 

— Eu ainda que enviuve, 
E que torne enviuvar, 
Acho mais fácil morrer, 
Do que comtigo casar. 
«Espera ahi, meu Dom Jóca, 
Deixa subir meu sobrado, 
Vou ver um copo de vinho, 
Que p'ra ti tenho guardado. 

— Juliana, eu te peço 
Que não faças falsidade, 
Vejaes que somos parentes, 
Prima minha da minha alma. 



Que me deste, Juliana, 
N'este copinho de vinho, 
Que estou co'a rédea na mão, 
Não conheço o meu caminho? 
A minha mãe bem cuidava 
Que tinha o seu filho vivo ! 
« A minha também cuidava 
Que tu casavas commigo. 

— Oh meu pae, senhora mãe 
Me bote a sua benção, 
Abrace bem apertado 

O meu maninho João, 
Meu pae, senhora mãe 
Me bote a sua benção ; 
Lembranças á Dona Maria, 
Também á Dona Gellerencia. 
A minha alma entrego a Deus, 
O corpo á terra fria, 
A fazenda e o dinheiro 
Entregue a Dona Maria. 

— « Cale a bocca, meu Dom Jóca, 
Ponde o coração em Deus, 

Que este copo de veneno 
Quem te hade vingar sou eu. 



MV I SI A da SOCIEDADE CAR-LOS RIBEIRO 



Já acabou-se, já acabou-se, 
Oh Hor de Alexandria ! 
Com quem casará a^ora 
Aquclla moça Maria ? 
Já acabou-se, já acabou-se, 
Já acabou-se, já deu fim, 
Nossa Senhora da Guia 
Queira-se lembrar de mim. 



B. VERSÃO DO CEARÁ 



Dom Jorge se namorava 
D'uma mocinha mui bella ; 
Pois que apanhando servido 
Ousou logo de ausentar- se, 
Em procura de outra moça 
Para com ella cas; • . 
Juliana que isto soube 
Pegou logo a chorar ; 
A mãe lhe perguntou: 



— De que choras, minha filha ? 
« É Dom Jorge, minha mãe 
Que com outra vae casar. 

— Bem te disse, Juliana, 

Que em homens não te fiasses ; 
Não era dos primeiros 
Que as mulheres enganasse. 



— « Deus te salve, Juliana, 
No teu sobrado assentada ! 
« Deus te salve, rei Dom Jorge, 
No teu cavallo montado. 
Ouvi dizer, rei Dom Jorge 
Que estavas para casar ? 
— • « E verdade, Juliana, 
Já te vinha desenganar. 



8 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



« Esperae, rei Dom Jorge, 
Deixa eu subir a sobrado ; 
Deixa buscar um copinho 
Que tenho p'ra ti guardado. 



— >• Eu lhe peço, Juliana, 
Que não haja falsidade ; 
Olhe que somos parentes, 
Prima minha da minha alma. 
« Eu lhe juro por minha mãe, 
Pelo Deus que me creou, 
Que rei Dom Jorge não logra 
Esse seu novo amor. 

— « Que me deitas, Juliana 
N'este seu copo de vinho? 
Estou com as rédeas nas mãos 
Não enxergo meu rucinho? 
Ai, que é do meu paesinho, 
Por elle pergunto eu ? 

Eu morro, é do veneno 
Que Juliana me deu. 



— Morra, morra o meu filhinho, 
Morra contrito com Deus, 
Que a morte que te fizeram 
Ella quem vinga sou eu. 
— « Valha-me Deus do céo 
Que estou com uma grande dor; 
A maior pena que levo 
É não vêr meu novo amor. 



C. — VERSÃO DA ILHA DE S. MIGUEL 



« Deus te salve, Juliana, 
Sentada no teu estrado ! 
— Deus te salve a ti, D. Jorge, 
Em cima do teu cavallo ! 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO Q, 



<• Eu venho* te convidar 
Se queres ir ao meu noivado ? 
— Espera-me ahi, D. Jorge, 
Espera-me um poucachinho, 
Emquanto te vou buscar 
Uma taça com bom vinho. 



« Que me deste. Juliana, 
N'esta taça com bom vinho? 
Que tenho o freio na mão, 
Não enxergo o cavallínho ? 



— Ahi servirá de exemplo 
A quem o quizer tomar; 
Quem deve as honras alheias 
Comsigo ira pagar. 

« Já minha madre o sabe 
Que não tem o seu menino ! 

— Já minha madre o sabe 
Que eu não tenho meu marido. 



D. VERSÃO DE TRAZ-OS-MONTES 



— Apeia-te, oh cavalleiro, 
Vamos d'ahi merendar. 

« Tu que tens, oh Dona Ausênia 
Guardado para me dar ? 

— Tenho vinho de ha sete annos 
Guardado para te dar. 

« Eu não sei, oh Dona Ausênia 
Se será muito guardar. . 

Dona Ausênia, Dona Ausênia, 
Que botaste a este vinho ? 

— Eu botei-lhe resalgar, 
E pós de lagarto moido. 



lo REVISTA 1V\ SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



« Oh meus filhos sem ter pae, 
Minha mulher sem marido! 
— Triste de ti, Dona Ausênia 
Co'o teu credito perdido. 



3) LA INNOBLE VENGANZA (versão da Catalunha) 



Aqui esta la Gudriana 
En su jardi delicado, 
Collintne lindas floretas 
Per su lindo enamorado. 
Mientras las estay cullendo 
Don Guespo n'es arribado. 



— Deu la guart, la Gudriana ! 
« Don Guespo ben arribado. 

— Domingo eu sun de bodas ; 
Aqui vincho á convidaria. 

« Que se senti aqui, Don Guespo, 
En esta pedra. r picada, 
Tomará un bocadito 
Y en beurá una vegada. 



Quant Don Guespo ho que begut 
Ya no veya el seu caballo. 

— Que m'has dat la Gudriana, 
Que no veo mi caballo ? 

« L'hi dada una medicina 
Qu'el Doctó no l'ha ordenado. 

— Si tingués pape y tintero 
Per escriure una carta 

A la triste de mi madre 
Que no'm veurá torna á casa. 
A diez horas de la noche 
Guespo maio yá n'estaba, 
A las doce de la noche 
Guespo muriendo ya n'estaba ; 



REVISTA DA SOCIEDADE CAKI.os RIBEIRO II 



La punia de 1'alba clara 
Guespo enterrado cstaba, 
Ya portan la Gudriana 
Que 1'anavan á cremaria. 



4) EL CONVITE (versão das asturias) 

— Vengo brindado, Mariana, 
Para una boda el domingo. . 
« Esa boda, Don Alonso, 
Debiera ser comigo. 

— Non es comigo, Mariana, 
Es con un hermano mio. 

« Siéntate aqui, Don Alonso 
En este escano florido, 
Que me lo dejó mi padre 
Para el que case comigo. 



Se sentara Don Alonso, 
Presto se quedo dormido ; 
Mariana como discreta 
Se fue á un jardin florido. 
Três onzas de soliman 
Cuatro de acero molido, 
La sangre de três culebras 
La piei de un lagarto vivo, 
Y la espinilla dei sapo, 
Todo se la echó en el vino, 



«Bebe vino, Don Alonso, 
Don Alonso, bebe vino. 
— Bebe primero, Mariana, 
Que asi está puesto en estilo. 
Mariana, como discreta, 
Por el pecho lo ha vertido, 
Don Alonso, como joven 
Todo el vino se ha bebido. 
Con la fuerza dei veneno 
Los dientes se le han oaido. 



[2 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



— Que es esto. Mariana ? 
Que es esto que tiene el vino ? 
« Três onzas de soliman, 
Cuatro de acero molido, 

La sangre de três culebras, 
La piei de un lagarto vivo, 
Y la espinilla dei sapo 
Para robarte el sentido. 

— Sáname, buena Mariana, 
Que me casaré contigo. 



« No puede ser, Don Alonso., 
Que el corazon te ha partido. 
— Adios esposa dei alma, 
Presto quedas sin marido ; 
Adios padres de mi vida, 
Presto quedaron sin hijo. 
Cuando sali de mi casa 
Sali en un caballo pio, 
Y ahora voy para la iglesia 
En una cajá de pino. 



Nos Cantos populares da Ukrania, colligidos por 
Chodakowshi, e publicados em 1834 em Moscou por Ma- 
ximowicz (Piesni Ukrainskic, wydane ftzez P. Maxymo- 
wiza) encontra-se uma duma, ou narrativa épica tradicio- 
nal, cujo thema é em tudo similhante ao romance portu- 
guez de Juliana e Jorge. Transcrevemol-o, da traducção 
publicada na Revista britânica (184*5, t, 1, p. 634): 



5) Oh ! não vás á festa esta noite, 

Gregório, oh Gregório ! 
Ha bruxas entre as raparigas formosas ; 

Gregório, oh Gregório ! 
Acautella-te da de cara trigueira, 

Gregório, oh Gregório ! 
Porque ella deita- te o olhado fatal ; 

Gregório, oh Gregório ! 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l ] 



Ella desenterrou a erva do domingo, 

Ai ! foi para ti, Gregório ! 
Segunda feira de manhã lavou-a, 

Ai ! para o Gregório ! 
Na terça feira ferveu a erva venenosa, 

Ai ! para o Gregório ! 
Na quarta a peçonha estava feita, 

Ai ! para o Gregório. 
Quando na quinta, elle veiu, já não respirava, 

Gregório, oh Gregório ! 
Na sexta feira levaram-no para a cova. 

Gregório, oh Gregório ! 
A mãe bateu na filha, no sabbado 

Gregório, oh Gregório ! 
— Filha ruim, porque o mataste tu ? 

Gregório, oh Gregório ? 
« Mãe, oh mãe, a afflicção não conhece justiça ; 

Gregório, oh Gregório ! 
Porque é que elle fez promessas fingidas a duas raparigas, 

Gregório, oh Gregório ? 
Agora, elle já não pertence nem a uma nem a outra ; 

Gregório, o pérfido Gregório ! 
Elle sustenta-se de terra fria e húmida, 

Gregório, o falso Gregório ! 
Tiveste a paga que mereceste 

Gregório, falso Gregório ! 
Quatro taboas e um coval estreito e negro. 

Gregório, falso Gregório ! 
Que os moços saibam o que os espera, 

Gregório, oh Gregório ! 
Quando dão a palavra mentida a duas donzellas, 

Gregório, oh Gregório ! 
Agora a tua sorte é ser pasto dos bixos, 

Gregório, oh Gregório ! 
Emquanto eu vou logrando alegrias da vida, 

Gregório, oh Gregório ! 
Oh judia, vem cá, traze-me o copo de vinho, 

Gregório, oh Gregório ! 
Quero entoar o canto funeral do traidor 

Gregório, oh Gregório! 



l.| REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Na Historia do Lied, ou a Canção popular na Allema- 
nha, Edouard Schuré, traz uma bailada de origem sueca, 
intitulada A historia de Olaf, que pertence ao mesmo 
thema tradicional de Juliana e Jorge (p. 106 a 108): 



6) Olaf, de noite pela floresta cavalgava destemido, 
para o convite da boda • cantarolava divertido. 

Os Elfs, dancaritando, atravessam-se lhe no caminho, 
e a rainha da selva estende-lhe a sua mão branca. 

— Salve, senhor Olaf ! muito bemvindo seja ! 
Não foi para dansar commigo que viestes aqui ?• 

« Dansar ? não, eu não posso, não me apetece dansar. 
Amanhã, ao romper do dia é o meu casamento. 

— Ouve lá, bello Olaf, vem dançar commigo, 
Tenho duas esporas de ouro que guardo para ti. 

Tenho o mais bello vestido, e o mais rico manto, 
Meus dedos o teceram, e a lua os corou. 

« Dansar ? não, eu não posso, eu não quero dansar, 
Amanhã, ao romper do dia devo de estar casado. 

— Ouve lá, bello Olaf, vem dansar commigo 

No meu verde palácio tenho um montão de ouro para ti. 

« De ti um montão de ouro bem quizera acceitar, 
Mas, por amor de Deus, eu não posso dansar. 

— Pois então, tu recusas-te a dansar commigo ? 
Que sem demora a morte vá comtigo na garupa. 

Ella levanta o braço e toca-lhe sobre o coração. 
« Meu Deus, que senti eu ? Meu Deus, que dor ! 

E depois collocando-o pallido sobre o seu cavallo : 

— Vae dansar amanhã com tua amada no baile. 



REVISTA D\ SOCIEDADE CARLOS R I HEI k< ) 



E quando ellefchegou ao limiar do^seu castcllo 
Sua mãe o esperava, e lhe disse logo : 

— Meu tilho, o que c que tens? Filho, metes-me medo. 
Porque trazes os olhos tão baços? de que d essa pallidez? 

« Socegue, minha mãe ! minha mãe, não tenha medo, 
Uma Hfe das florestas me bateu sobre o coração. 

— Deita te, filho querido; seja o teu somno socegado, 
A tua noiva, ai ! o que é que lhe contaremos ? 

« Dizei-lhe que eu cavalgo por montes e por valles, 
Que experimento na caça os meus cães e cavallos. 

Elle deitou-se e dormiu. Ao romper da alvorada 
Chegou a 'noiva, já peio caminho cantando. 

— «Que é isto"? choraes, mãe? o que tendes? dizei-m'o. 
Porque é que o meu amado não está ao pé de ti? 

— Oh filha, elle cavalga por montes e por valles, 
Experimenta na caça os seus cães e os cavallos. 

A donzella levantou a coberta bordada a ouro, 
E o senhor Olaf estava ali pallido^e mono. 



Nos Cantos populares da Escossia, ha um com o ti- 
tulo Lorci Ra?idal, que é o mesmo thema da Juliana e 
Jorge: 



7) — Onde estiveste, lord Randal, meu filho? Onde é que esti- 
veste, meu lindo rapaz. 

« Andei pelo bosque, minha mãe; fazei-me a cama depressa, pois 
que venho cansado da caça, e preciso deitar-me. 

— Onde é que jantaste, lord Randal, meu filho? Onde é que jan- 
taste, meu lindo rapaz? 

« Jantei em casa da minha fiel amada, minha mãe ; arranjae-me a 
cama depressa, porque venho cansado da caca, e preciso bastante dei- 
tar-me. 



lí> REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



— O que c que tu comeste ao jantar, lordRanda], meu filho ? Que 
foi que comeste ao jantar, meu lindo rapaz. 

« Comi enguias cosidas, minha mãe; arranjae-me a cama depres- 
sa, porque venho cansado da caça e preciso bastante deitar me. 

— Que d dos teus cães, lord Randal, meu filho l Que é feito dos 
teus cães, meu lindo rapaz? 

« Elles incharam e morreram, minha mãe ; arranjae-me a cam a 
depre>sa, pois que eu venho cansado da caça. e bem preciso deitar-me. 

— Oh! desconfio que estás envenenado, lord Randal, meu íilho • 
Receio que estejas envenenado, meu lindo rapaz. 

« Oh, sim. eu estou envenenado, minha mãe. Arranjae-me a cama 
depressa, porque estou a arder por dentro, e preciso deitar-me. 

Walter Scott, Cantos populxres das fronteiras 
mcvidionaes da Escossia, t. m, p 252. Trad. 
Arlaud. 



Aproxima-se mais da versão sueca este outro canto 
da Escossia, Lord William: 



8) « William era o mais destemido cavalleiro, que a bella Escos ■ 
sia alimentava ; e, ainda que afamado em França e Hespanha, caiu sob a 
mão de uma dama. 

« Passeava sósinha uma donzella na orla d'esta floresta sombria, 
quando ella ouviu telintar umas rédeas ; e desejou que este ruido fosse 
signal de uma aventura feliz. 

<- — Vem a meus braços, meu caro William, sê o bem vindo na 
minha casa; ali terás boa meza, vasta lareira e archotes em barda. 

« — Eu não quero parar, não me atrevo a parar ; não quero ir a 
teus braços : uma donzella mais linda do que tu dez vezes espera-me em 
Castlelaw. 

« — Mais linda do que eu, Willie ! donzella mais linda dez vezes 
do que eu, isso nunca viram os teus olhos. 

o Inclinou-se sobre a sella para abraçal-a antes de partir ; e com 
um punhalsinho muito agudo, ella lhe atravessou o peito. 

« — Galopa, galopa, sir William, galopa, crava ambos os acicates; 
a tua linda menina de Castlelaw desespera de te não ver chegar. 

« Então fallou um bello pássaro no alto de uma arvore : — Para que 
mataste este senhor tão nobre? Elle vinha para te desposar. . . (*) 

(1) Ohants populaires de 1'Iicosse, 111, 234. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 17 



No resto cio canto a donxella esconde o corpo do as- 
sassinado no seu aposento e só ao íim de um anno é que 
o disse á dama que a servia, deitando ambas o cadáver a 
uma corrente larga e profunda oncle se sumiu. 



9) (versão da bretanha franceza) 



— J'ai fait un rêve cette nuit 
Que m'amie était morte, 
Sellez, bridez-moi mon cheval, 
Que )'ailie voir mamie. 

Son cheval il s ? est arrete 
Prés d'un buisson de roses. 
De trois l'amant prit le plus beau 
Pour donner à s'amie. 

— Tenez, belle, prenez mon coeur, 
Ce beau bouton de roses 

La beir, je viens vous convier 

De venir à mes noces. 

La bell', la bell', si vous m'aimez 

Ne changez pas de robes. 

La première est de satin blanc, 

L'autre est de satin rose. 

La troisième est de beau drap d'or 

Pour fair'voir qu'elle est noble. 

Du plus loin qu on la voit venir 
« Voici la mariée ! 

— La mariée point ne la suis, 
Je suis la délaissée. 

L'amant vient, la prend par la main, 
Et la mène à la danse 
Après le qualrièmc tour 
La belle est tombée morte. 

VOL. 11 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Elle est tombée du côté droit 
L/amant du côté gaúche. 
Tous les gens qui étaient présents 
S'disaient les uns aux autres: 

« Voilà le sort des amoureux 
Qui en épousent d'autres. ( l ) 



O nome de Jorge conserva a reminiscência ligada ao 
typo de S. Jorge e da Donzella, que em Portugal apresenta 
os caracteres do mytho solar; o parentesco com a don- 
zella é a relação do Sol com a Aurora; a circumstancia 
do cavallo define melhor o aspecto solar, que vae festejar 
o seu casamento no Domingo, dia consagrado ao Sol. E 
á meia noite, que Don Guespo succumbe, e enterrado ao 
despontar da alvorada, quando prevalece o crepúsculo 
matutino. Nas versões da poesia do norte define-se me- 
lhor o caracter da amante ; a cara trigueira, de olhar fa- 
tal, é o crepúsculo vespertino, e o cavalleiro, que atravessa 
a floresta escura é seduzido pelo elf e encontrado morto 
pela noiva que o vem procurar de madrugada. Uma sim- 
ples aventura romanesca de rivalidade amorosa não podia 
encontrar uma tão vasta idealisação ; essa extensão nas 
tradições das Astúrias e Catalunha, de Traz-os-Montes, 
ilha de S. Miguel. Ceará e Pernambuco, da Ukrania, da 
Suécia, da Escossia e cia Bretanha, leva-nos á inferência 
da constante elaboração de um mytho. 

Theophilo Braga. 



(■) J. J. Ampere, nas Instructions relatives au Recueil de Poesies populaires de la 
Trance traz este eanto colligido na Bretanha pelo Dr. Roulin. 



NOTAS 

SOBRE A LINGUAGEM VULGAR DO PORTO (i) 



Lá na leal cidade, donde teve 
Origem (como é fama) o nome eterno 
De Portugal. 

Camões, Lus., vi, 52. 

No nosso país, pelo que respeita á linguagem littera- 
ria, não ha só incertezas e hesitações na orthographia, 
ha-as também quando se falia; ainda assim, a lingua es- 
crita é mais uniforme que a oral. Num e noutro caso ha 
certos typos communs. Com relação á falia, tem-se, por 
exemplo, como culto pronunciar o s e o ^ á maneira do 
Porto (para a gente do Norte e de parte do centro do pais), 
ou á de Lisboa (para a gente do Sul e do restante do 
país) em vez do s e ^ reversos, não confundir o v com o 
b, dizer ai, el, etc. por áur, éur (minhotos), dizer -ã e -ão 
por -ão e -óum (id.), etc; ainda assim, se uma pessoa 
bem educada nunca em caso algum dirá v por b, áur e 
seus congéneres, por ai, etc, não raro porém á gente 
do Norte se ouve o 5 reverso e o b por v, mesmo fal- 
lando quanto ao resto com períeição litterana. Cer- 
tos sons, como ê por ei (meridional), que não devem 

( i) D'este artigo far-se-ha uma edição separada em volume, com 
o titulo de Dialectos inter amnenses, ix (Linguagem vulgar do Porto), — 
como continuação de outros artigos que com aquelle titulo tenho pu- 
blicado na Revista de Guimarães, d'onde também se fizeram edições 
em separado. Indico isto por causa das citações e referencias biblio- 
graphicas dos meus artigos ulteriores. 



20 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



occorrer na linguagem culta, e que destoam completa- 
mente do que se passa nos dialectos septentrionaes, ou- 
vem-se também uma vez ou outra no extremo Sul (Alem- 
tejo e Algarve) ás pessoas instruídas; assim, em pleno 
parlamento, ouvi uma vez um deputado alemtejano dizer 
ribêra (= ribeira). 

Em summa : postoque a lingua escrita represente um 
padrão, notam-se quasi sempre na pronúncia influencias lo- 
caes. De modo que muitas das particularidades provincia- 
nas não são apenas populares, pertencem juntamente ás 
pessoas civilizadas. A regra geral é esta : quando essas 
particularidades não destoarem muito do que se escreve 
ou do que se tem como norma, não se evitam. Todo o 
bom portuense dirá, por exemplo, embora inconsciente- 
mente, Puôrto, muôrto, etc, e substituirá com facilidade 
o b ao v, dizendo binho, etc. ; a mim mesmo, que não 
sou do Porto, e pertenço a uma região dialectal onde o 
ô se não ditonga em no, já no fim dos dez annos que vivi 
naquella cidade, e apesar da natureza dos meus estudos, 
os ouvidos da gente do Sul me notaram ás vezes tal pro- 
núncia. Vê-se d'aqui como a linguagem é em grande 
parte extremamente automática. 

O estudo dos dialectos tem pois maior significação 
do que parece á primeira vista, porque nelles não se en- 
cerra só a linguagem estrictamente popular. 

E certo que, ao lerem isto que estou escrevendo, 
muitas pessoas, daquellas próprias que dizem Puôrto e 
binho, hão-de negar a minha affirmação, porque nestas 
questões de linguagem o hábito inveterado de escrever de 
certo modo, e o cuidar- se que se diz também de tal ou 
qual maneira, não deixam reflectir nos sons que realmente 
se pronunciam : mas nem por isso o que digo é menos 
verdadeiro. Já uma occasião me aconteceu notar eu na 
pronúncia de um meu condiscípulo beirão o s especial da 
sua terra (s), e elle, que tinha mais vaidade do que prática 



REVISTA DA S0CIEDAD1 CARLOS RIBEIRO 2 i 



de observar, responder-me enfurecido: não sitt,hor, n lo i 
n/ior..., prolerindo ao mesmo tempo, inconscientemente, 
e com grande emphase, o tal s .' 

Interessa por muitos motivos o estudo dos dialectos po- 
pulares: em primeiro logar interessa á linguistica, porque 

elles, alem de serem boa e regular linguagem, íallada pela 
maioria da população do pais, e cujas relações com o la- 
tim è as outras línguas importa conhecer, dão ás vezes 
grande luz ás questões da linguagem litteraria, que não 
raro só por elles em muitos pontos se explica ; em se- 
gundo logar interessa á psychologia e á glottologia geral, 
porque, tendo elles desenvolvimento mais livre e mais 
espontâneo do. que a lingua culta, que está em parte muito 
subordinada á tradição litteraria, e sujeita, no estylo, no 
vocabulário, e ainda na syntaxe, aos caprichos dos escri- 
ptores de lama, podem então as leis vivas da linguagem 
ser mais facilmente surprehendidas na sua acção ; em ter- 
ceiro logar interessa á anthropologia, porque, do mesmo 
modo que a constituição geológica, a flora, a fauna, o 
clima caracterizam physicamente uma região, os dialectos, 
como os costumes, o typo anatómico, as aptidões estheti- 
cas, intellectuaes e moraes, as tendências mórbidas, cara- 
cterizam de certo modo as populações que se servem del- 
les ; por último, ainda o seu estudo aproveita aos tribu- 
naes para a averiguação da identidade de pessoa, aos 
criticos para a determinação da procedência de certos es- 
critos, e aos romancistas, dramaturgos e folhetinistas, que 
a cada passo põem nos lábios dos seus personagens o 
fallar do povo. 

Estas considerações, postoque summarias, e sem 
exemplificação, justificam o vir eu oceupar-me aqui da 
linguagem vulgar do Porto, — com quanto o que princi- 
palmente me mova a tal estudo seja a necessidade que te- 
nho de conhecer por meudo, e classificar, todos os nossos 
idiomas locaes, para organizar por completo um dia a 



2 2 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



c Dialectologia Portuguesa, que absorve ha alguns annos 
grande parte da minha actividade. 

Sobre a linguagem vulgar do Porto, além de uma ou 
outra observação isolada, devida a este ou áquelle inves- 
tigador, não existe, que eu saiba, nenhum trabalho espe- 
cial, a não ser um pequeno artigo publicado pelo Sr. 
Soeiro de Brito in O Elvense, n.° 151, de 9 de julho de 
1882, com o titulo de Carta da Fo% do Douro, 111. O au- 
ctor não pôs a mira em fazer um artigo philologico, e sim 
somente em apresentar ligeiras considerações a correr, como 
dilettante ; por isso não devo sujeitá-lo á critica: senão eu 
diria que quasi todas as suas observações são inexactas ou 
mal expostas. Desejo porém tocar num ponto. Diz o Sr. 
Soeiro de Brito: «Talvez pela grande affluencia de gente 
vinda do Brazil, de Inglaterra e outras partes, nestas terras 
as inflexões são diversas das do resto do país, e os sons por 
vezes emittidos com uma falta de pureza que faz lembrar 
a lingua britannica ». Uma das questões mais diffíceis da 
glottologia é determinar as causas primeiras das mutações 
phoneticas; todavia as pessoas estranhas ao assumpto 
julgam a este propósito com a maior facilidade. Evidente- 
mente o Sr. Soeiro de Brito não poderia provar a sua 
afflrmação, porque todos os sons da linguagem do Porto 
se manifestam, quer isoladamente, quer em grupos mais 
ou menos extensos, nos diversos pontos do país. Não 
pareça isto contradicção com asseverar eu adeante que o 
e do ditongo et e em (oei, dei) se aproxima do a inglês de 
bad e man ; se fallei aqui no inglês foi a titulo de compa- 
ração, e não porque eu reconhecesse ao som portuense 
origem britannica. Também se podia dizer que o som eh 
do Norte está próximo do do c italiano antes de e e i, e 
ninguém supporia que elle viesse de Itália. Ha em todas 
as línguas muitos sons iguaes ou parecidos que tem ori- 
gem diflcrente. Por tanto ás palavras do Sr. Brito oppo- 
nho eu a seguinte proposição ; nem na phonetica, nem na 



REVISTA DA SOClEDAIíE CARLOS RIBEIRO 23 



MORPIIOLOGIA, NEM NA SYNTAXK, MA NA LINGUAGEM PORTUENSE 
UM ÚNICO PHENOMENO QUE POSSA ATTR.IBUIR-SE A INFLUENCIA 

BRAZiLEíRÁ ou inglesa. Com relação mesmo ao vocabulá- 
rio, que é cousa perfeitamente externa e accidental, não 
conheço factos que demonstrem que no Porto a propor- 
ção dos vocábulos de origem estrangeira seja maior do 
que no demais Portugal. 

Eu quisera no presente escrito offerecer aos leitores 
maior número de considerações, tanto mais que tenho 
pela cidade do Porto o affecto que se tem por uma se- 
gunda pátria; mas, sendo-me preciso organizar estas no- 
tas á pressa, para satisfazer o pedido da redacção da Re- 
vista da Sociedade Carlos Ribeiro, foi-me impossível ser 
mais extenso por agora, e só noutra occasião completarei 
o estudo. Como porém vou em breve publicar um longo 
artigo sobre a linguagem de Guimarães, a qual tem inti- 
mas relações com a do Porto, fica em parte attenuada 
essa falta. 



A) PHONETICA 



OBSERVAÇÕES SOBRE A PRONUNCIA 

i . O s do Porto differe do de Lisboa, e é exacta- 
mente igual ao que eu ouvi a um natural do concelho de 
Olivença, provincia de Badajoz, em palavras taes como 
soy, santo, etc. Na minha Evolução da linguagem, Porto 
1886, pag. 28-29, descrevi este som como uma lingual 
dorso-apical, gingival superior, dental inferior, i. é, coimo 
um som que se obtém tocando com o extremo dorsal da 
língua nas gmgivas superiores, e a ponta nos dentes in- 



24 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



feríores. Ao s corresponde a sonora 2(1). Oseoz, que, 
para commodiclade representarei aqui por ç e z, só tem 
este som quando miciaes e mediaes. O s e z íinaes e an- 
tes de consoante surda, excepto eh, parece-me serem o s 
beirão attenuado, que aqui represento por s; antes de 
consoante sonora, excepto j e rr, parece-me serem o z 
beirão, também attenuado, que aqui represento por z: as- 
sim temos çá, pasta, nós, nóço (== nosso), e zanga, cáza, 
fias (=paz) (2). Antes cie ch,j e rr, o s e z finaes confun- 
dem-se com o som seguinte. Antes de s porém não posso 
dizer agora se ha assimilação geral, se não; apenas posso 
dizer que a algumas pessoas cultas do Porto tenho ou- 
vido pronunciar as çdlas (—as salas). 

2. As vogaes são gutturalizadas, ao contrário do que 
suecede no Sul; esta gutturalização, augmentada da aber- 
tura da vogal, dá a certas nasaes um tom mui esquisito 
para os ouvidos meridionaes. — Cfr. Gonçalves Vianna, 
Essai de phonétique de la langue ftort., pag. 9, nota. 

3. O ditongo ou, quer oral, quer nasal, é aberto, 
i. é, pronuncia-se òu. Cfr. § j-a. 

4. O ditongo ei, quer oral, quer nasal (representado 
neste caso na lingua litteraria por -em), parece ter um 
som especial, comprehendido entre éi e ai, onde o som 
do e se aproxima do do a na palavra inglesa man, bad, 



(1) Tanto o s como o z, em virtude do íntimo aperto dos órgãos 
factores, produzem grande sibillo, que se torna muito sensível ás pes- 
soas estranhas á pronuncia portuense. 

(2) Nos dois casos digo parece-me, porque talvez sejam x ej 
attenuados, — em todo o caso x ej diversos dos de Lisboa nas mesmas 
condições. Esses sons são difficeis de precisar, e eu não pude fazer 
ainda a observação completa. 



revista da Sociedade carlos i^ii5i:iivr(> 2<$ 



etc. Este som não ê especial ao Porto. Représentando-o 
por cu, temos assim rcui (=rei), bcei (== bem), óníiui 
(= ontem), etc. — Também Barbosa Leão, nos Elementos 
de grammat. port., Porto 1886, pag. 97, se aproxima da 
verdade quando escreve : «... o ditongo de mãi é um, e 
o de bem é outro» (pag. 97); mas elle imaginava que em 
bem era êi nasal, o que não é. Este som êi nasal só se 
manifesta no Sul. — Cfr. adeante. 

5. O p é levemente aspirado em piêna, prencípio (o 
segundo />), ópio, etc. 

íN^ota. Por commodidade typographica não noto es- 
tes diversos sons com signaes próprios, mas fique sabido 
que em final vale oei, que ei vale cui, e o ç e o z, bem 
como o 5 final e antes de consoante conforme as posições, 
tem os valores assignalados no § 1. 



(Continua). 

J. Leite de Vasconcellos, 



LISTE DES ODONATES DU PORTUGAL 

ET NOTE CRITIQUE SUR LES 

Onychogomplius Genei, Selys et Hagenii, Selys 



Depuis plusicurs années je reuni des Odonates de 
tous les points du territoire portugais, dans le but de pu- 
blier un travail étendu sur leur distribution géographi- 
que. Le résultat de ces recherchcs, que je crois pouvoir 
considérer eomme à peu prés compLet, paraitra bientôt, 
mais je crois utile de publier déjà, quand ce ne serait que 
pour prendre date, la liste des espèces qui habitent notre 
pays, et je profite de 1'occasion pour faire connaitre une 
des plus interessantes Y Onychogomphus Genei. 

Je dois la découverte de cette espèce à un des mes 
plus zélés corrcspondants mon regretté ami )A. António 
Guimarães, aide-naturaliste au Muséum, qui men a adres- 
sé un couple de Coruche en 1883. Cet envoi lut bientôt 
suivi de plusieurs autres, mais com me létude des Ony- 
chogomphus de ce groupe est três difficile et que je man- 
quais de types de comparaison j'ajournai leur étude. Ré- 
cemment M. le Prof. Achilles Costa ayant eu lextrème 
obligeance de me communiquer un des males types de 
son Gomphus excelsas de Sardaigne je suis en demeure 
de publier mes observations sur la rare Gomphme portu- 
gaise, interessante addition à la faune de la Péninsule. 

Section Zoologique du Muscum — Ce 10 Septcmbre 1890. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 17 



I. — LISTE DES ODONATES DU PORTUGAL 

Un três petit nombrc cl auteurs s'ést jusqu'à présent 
occupé des odonatcs de ia Pé,tlinsule; cn réunissant tou- 
tes leurs citations relativos au Portugal on ne trouve mcn- 
tionnées que 40 espèces dont trois doivent certainement 
être fetranchées, ce sont Lestes macrostigma, Erytromma 
najas et Platicnemis pennipes. Aux 37 espèces restantes 
que j 'ai toutes retrouvées, mes recherches me permettent 
d'en ajouter 12, ce qui porte à 49 le nombre total des es- 
pèces authentiques de notre pays. Dans la liste suivante 
j'ai marque d'un astériquc (*) les espèces que l'on a aussi 
signalées en Espagne et du signe % celles que j ai récem- 
ment découvertes. 



Fam. 1. LIBELLULIDiE 
Sub-fam. 1. LIBELLULIN/E 

X * Diplax vulgata, L. 

» striolata, Charpentier 
» meridionalis, Selys 
» Fonscolombii, Selys 
» Jlaveola, L. 
X » sanguínea, Múller 

Libellula depressa, L. 
X )} quadi imaculata, L. 

Libella ccerulescens, Fab. 

» brunnea, Fonscolombe 
X >J nitidinervis, Selys 

X » barbara, Selys 

X ;) cancellata, L. 

Crocothemis erythroea, Brull. 



28 REVISTA DA SOCIEDADE CARDOS RIBEIRO 



+ 



Sub-fam. 2 CORDULIN^E 
Oxyoaslra Curtisii, Dale. 



* 



* 



Fam. ii. ^SCHNIDiE 

Sub-fam. i. GOMPHIN^E 

Onychogomphus i inca tus, Chp. 
» forcipatus, L. 

» Genei, Selys 

Gomphus simillimus , Selys 
» pulchellus, Selys 

» Graslinii, Ramb. 

Cordulegaster annulatus, Latr. 

Sub-fam. 2. .ESCHNIN/E 

' Anax formosus , v. d. Linden 
' Aeschna cyanea, Latr. 

» juncea, L. 

» mixta, Latr. 

» affinis, v. d. L. 

» rufescens, v. d. L. 

* Fonscolombia ir ene, Fonsc. 



Fam. iii. AGRIONID.£ 

Sub-fam. i. CALOPTERYGIN^ 

Calopteryx virgo, L. 

» splendens, Harris 

» hcemorrhoidalis, v. d. L. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 2() 



SUB-FAM. 2. ACRIONIN/E 

* Lestes viridis, v. cl. L. 

» nymftha, Selys 
» virens, Chp. 
» barbara, F. 
Sympicna fusca, v. d. L. 
Platycnemis acutipennis, Selys 
ijl » diversa, Rbr. 

» latipes, Rbr. 

* Pyrrhosoma minium, Harris 

» tenellum, De Villers 

* Ischnura Graelísii, Rbr. 
Enallagma cyathigenim, Chp. 

J * Agrion ftulchellum, v. d. L. 

» fiuella, L. 
J * » ccerulescens , Fonsc. 

» Lindenii, Selys. 

Cette liste montre quá 1'exception de cinq, toutes nos 
espèces ont déjá été signalées en Espagne et quau point 
de vue des Odonates notre pays ne presente aucun fácies 
caractéristique. Par contre lensemble de la Péninsule 
forme peut-être une des faunes les mieux caractérisées de 
TEurope. 

Aux espèces déjà citées pour 1'Espagne il faut ajouter : 

Diftlax ftedemontana, Ali. 
Libella albystila, Selys 
Urothemis advena, Selys 
Brachytron praiense, Múll. 
Lestes macrostigma, Eversman 
Platycnemis ftennipes, Palias 
Ischnura ftumilio, Chap. 
» elegans, v. d. L. 



;0 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



et deux espèces douteuses, Erythromma najas et Pla- 
tycnemis pennipes, ce qui porte à 57 le chiffre total des 
espèces Péninsulaires. Quand on considere cépendant la 
situation géographique, la variété de climats et fextension 
de 1'Espagne, on a lieu de croire ce chiffre bien au dessous 
de la vérité quand 1'ítalie renferme 85 espèces, la France 
74 et la Belgique 61. 

De ces 57 espèces, une seule Urothemis advena, est 
spéciale à 1'Espagne ; deux Libella nitidinervis et Onycho- 
gomphus Genei, ne se retrouvent en Europe qu'en Sicile 
ou en Sardaigne, et deux autres Libella barbara et Ichnu- 
ra Graellsi, ne se retrouvent pas en Europe, mais sont 
communes avec TAlgérie. 



II.— NOTE SUR L'ONYCHOGOMPHUS, Genei 

\J Onychogomphus Genei forme avec les O. Ilagenii, 
Selys et pumilio, Rbr. un groupe três naturel dont les es- 
pèces sont três chffici les à distmguer, ceei tenant d' une 
part à ce que quelques caracteres disparaissent presque 
par dessícation, dune autre part au petit nombre déchan- 
tillons étudiés et en troisième lieu à ce que les deux se- 
xes ont été pris isolément. 

On a longtemps ignore quel était le vrai mâle du 
G. Genei ? décrit par De Selys en 1841. Sa découverte en 
Sardaigne en 1882 par le professeur A. Costa, un an avant 
que je lai reçu du Portugal, est venue combler un grand 
desiderata des entomologistes. 

M. de Selys na décrit que la femelle du G. Genei 
et M. Costa na publié quune diagnose du mâle, et íl me 
parait indispensable de donner la description complete des 
individus du Portugal, que j'ai précédée de la synonimie 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ^1 



de toutcs les espèces avec lesquélles on a confo,ndu le G. 
(icnei, ce qui fera sentir tout lintérêt que presente la 
(lomphine portugaise. 



BIBLIOGRAPHIE 



D ES 



Onychogomphus Hagenii, Selys, Genei, Selys et pumilio, Rbr. 



1817. — Savigny, J. C. — Description de VÉgypte; Névropt. 
pi. I, %. 13 £; fig. 14 ?. 

L'auteur figure deux individus de ce groupe sans les nommer. 

1838. — Burmeister — Handbuch der Entomologie : Zzveiter 

Band, p. 832. 

Burmeister rapporte les figures precedentes au genre Diasta- 
toma. 

1841. — Selys Longchamps, E. de. — Nouvelles Libellulidées 
d'Europe; Rev. Zoologique, p. 246. 

L'auteur donne le signalement d'une Gomphine femelle qu'il 
a examinée au Musée de Turin, lors dun voyage en Italie 
et qui a été recueillie en Sicile par Victor Ghiliani. II la 
nomme Gomfihíis Genei en supposant que le mâle doit ap- 
partenir à la Section du Gomphns unguiculatus. 

1842. — Rambur, Ilisí. Nat. des Insectes Nèvropíères. 

Le Gomfthas 'pumilio est décrit d'après un individu mâle d'Egy- 
pte de la coll. du Mus. de Paris; Rambur rapporte à cette 
espèce le couple figure par Savigny. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



1850. — Selys Longchamps, E. de et Hagen, II. — Revue 
des Odonaíes ou Libellules d Europe ; pp. 101 et 384. 

Dans ce traité classique des Odonates on trouve d'abord avec 
pcu de difíerence la caractcristique du G. Genei Q publiée 
en 1841 et à 1'appendice à cet ouvrage une description 
complete du même individu. M. Hagen, collaborateur de 
M. de Selys croit pouvoir rapporter au G. Genei une fe- 
melle recue d'Egypte qui se trouve au Mus. de Berlin. 

1854. — Selys Longchamps, E. de — Synopsis des Gomphi- 
nes, p. 17. 

Dans cet ouvrage qui est le Prodromus de la monographie Tau- 
teur mantient les O. Genei et pumilio et assigne pcur pa- 
trie au premier la Sicile (Mus. de Turin) et 1'Egypte 
d'après un couple existant au Mus. de Berlin. 

1858. — Selys Longchamps, E. de et Hagen, H. — Mono- 
graphie des Gomphines, Mém. Soe. Roy. Sc. Liège. 

M. de Selys, tout en reconnaissant que YO. pumilio diffère à 
peine de YO. Genei de Sicile, maintient ces deux espèces; 
YO. Genei étant connu par la femelle prise en Sicile et le 
couple d'Egypte; YO. pumilio par un rrmle type incomplet 
du Mus. de Paris, par deux individus pris en Egypte ícoll. 
Selys), par un mâle de Chartum (Alyssinie) recueilli par 
Muller, par plusieurs rapportés de la même contrée par le 
Dr. Ruppeli et par d'autres provenant d'Egypte et se trou- 
vant au Mus. de Berlin. 

M. Hagen figure en outre 1'extrémité abdominale et les orga- 
nes génitaux des deux espèces : pour YO. Genei d'après le 
couple d'Egypte (íide Selys, Odon. Alg., p. 9). 

1871. — Selys Longchamps, E. de. — Nouvelle Révision des 
Odonates de YAlgèrie; — Ann. Soe. Ent. de Belg., 
tom. XIV, p. 9. 

Une Gomphine recueillie à Oian par M. C Van-Volxem est 
considérée par 1'auteur comme le vrai mâle de YO. Genei . 
M. de Selys le décrit, figure les appendices et reconnait 
qu'il a reuni à tort à la femelle de Sicile le couple d'Egy- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 11 



pte examine par M. Hagen et proposc de le nommer I la~ 
g:enii, en remarquant qu'il est extrèmcment voisin du pu- 
niilio dont il se separe par de légeres difíerenecs. 



1873. — Selys Longchamps, E. cie. — y èm}s additiôns au Sy- 
nopsis des Gomphines. 

L'auteur caractérise de nouveau les O. Genei et Hagenii : le 
Genei d'après le mâle d'Oran et la femelle de Sicile; V Ha- 
genii d'après le couple du Musée de Berlin, cn remar- 
quant qu'il est tellement voisin du pumilio qu'on ne peut 
l'en séparer que par des caracteres três minutieux quifont 
croire à M. Hagen que ces deux especes sont distinctes. 
Dans l'appendice, sur la liste des Gomphines connues, 
YO. Hagenii est indique « Race de pumilio?» 

1876. — Brauer, F. — Die Nenroptercn Europa s und insbe- 
sondere Oestesreicli mit Kúcksicht auj ihre geographis- 
• che verbeitung. Wien. 

L'0. Genei est cite dltalie (Turin) et d'Oran. 

1878. — Selys Longchamps, E. cie. — í \ èmcs additions au Sy- 
nopsis des Gomphines. 

M. de Selys dit avoir reçu un mâle de YO. Hagenii de Beyrut 
(Asie mineure) Dr. Standinger, en avoir examine un autre 
de 1'Abyssinie (coll. Mc Lachlan) et que le Dr. Hagen Ta 
reçu de Syrie communique per Lederer. L'examcn de ces 
indiv. le conduit à considerer YO. Hagenii décidément 
distinct du pumilio, 



1879. — Pirotta, Romualclo. — Libelhdidi Italiani. 

Dans cet excellent mémoire 1'auteur cite YO. Genei de Turin? 
et de Sicile, et il fait remarquer que M. Brauer a certai- 
nement signalé par erreur cette espòce de Turin et non de 
Sicile, parceque Texemplaire unique trouve en Sicile est 
au Mus. de Turin. 

VOL. II 3 



IEVISTA l).\ SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



1.883. — Costa, Achille. — Notizie ed osservazioni sulla Geo- 

launa Sarda: memoria scconcla. 

En puhliant ces interessantes recherches sur la faune terrestre 
de la Sardaigne, M. Costa décrit une Gomphine nouvelle 
le G. exceisus, Costa recueillie par lai en Mai et Juin 
1S82. En Sept. de 1'année precedente 1'auteur avait dejá 
signalé une femelle de cette rare espòce. 

1885. — Selys Longchamps, E. de. — Rectification concer- 
nant VO. Genei ; Compt. R. Ent. Belg. xxix, p. 

CXLVI. 

M. de Selys ayant examino" un couple du G. exceisus, Costa 
reconnait que la femelle est identique avec le type o de 
Sicile de VO. Genei et que le mâle qui y appartient cer- 
tainement était inconnu jusque là, tout au moins comme 
exemplaire européen. 

II propose d'appeler O. Cosia', Selys 1'exemplaire d'Oran con- 
sidere à tort comme le mâle du Genei de Sicile et recon- 
nait que YO. Hagenii est três voisin des types de Sardai- 
gne dont il est peut-être une simple race locale. 

En réunissant toutes ces données la synonimie de ces 
Onychogomphus doit être établie amsi : 



ONYCHOGOMPHUS GENEI (Selys) 

1841. — Gomphus Genei, 9 Sèlys, Nóuv. Libell. Eurofte, 1. 

c, p. 246. 
1850 — Gomphus Genei, $ Selys, Rev. Odonates, pp. 101 

et 384. 
1854 — Onychogomphus Genei, ? (pars) Selys, Synopsis des 

Gomphines, p. 17. 
1858 — Onychogomphus Genei, \? (pars) Selys, Mono gr. des 

Gomphines, 1. c, p. 311, 



UEV1STA DA SOCIEDADE CARI, os RIBEIRO 3< 



iSj^— Onychogomphus Genei, (pars) J S.elys, /""' s add. 

Syn. Gomph. p. 9. 
[883 — Gomphus excclsus, $ !f. Gostei, Geo-Jaima Sarda, 

mcm. 2.", p. 8g. 
1 88 5 — Onychogomp hus Genei, Selys. Rectif, I. cit., p. 

CXLVI. 

Extens. çéoo-. — 1 ° Sicile (V. Ghiliani) Mus. cie Tunn 

$'-. .''. -2. • • Siliqua, Nuoro, Env. s Onstano 
(Sardaigne) en Mai, Juin, Scptembre 
(A. Costa). 



ONYCHOGOMPHUS HAGENII, Selys 



1850— — — ?, Selys, Rev. Odonates, p. 

384 (citation). 
1854 - Onychogomphus Genei £ ; 2 (pars) Selys, Syn. 

Gomph., p. 17. 
1 S 5 8 — Onychogomphus Genei l : £ (pars) Selys, Mon. 

Gomph. , 1. c., p. 3 1 j : 
-1871 — Onychogomphus Hagenii, Selys Noitv. Rév. Od. 

Algérie, 1. c., p. 15 (rectification). 
1873 — Onychogomphus Hagenii, c ' , £ Selys, y, dmes add. 

Syn. Gomph. p. 11. 
1878 — Onychogomphus Hagenii, Selys, z//""' s <zú?oL Svn. 

Gomph., p. 21. 

Extens. géog. — 

1 c", 1 ° — Egypte (Mus. de Berlin). 

1 S, — Abyssinie (Coll. Maclachlan) 

1 l — Beyrut (Syrie) Dr. Staudinger (Coll. Selys). 

} — Syrie, Lederer (Coll. Hagen), 



j6 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



ONYCHOGOMPHUS PUMILIO (Rbr.) 

iS i 7 — — — $. 9, Savigny, T>escript. 

Egypte, Névropt., pi. 1, fg. 13 et 14. 
1842 — Gomphns pumilio, &, Rambur, Hist. Névropt. p. 

1-54; 

18 $4— Onychogomphus pumilio, & ? Selys, Syn. Gomph,, 

p. 1.8; 

1858 — Onychogomphus pumilio, £ $ Selys, Monogr. des 
Gomph. , 1. c, p. 314. 

Extens. géog. — 1 £, Egygte (Mus. Paris). 
2 ? (id.) (coll. Selys). 
1 Í Chartum, Abyssinie (coll. Selys). 
$. . . (Abyssinie) Dr. Ruppell. 
}.-.-. Egypte (Mus. Berlin). 



ONYCHOGOMPHUS COST/E, Selys 

1871 — Onychogomphus Genei, £ Selys, Nouv. Rev. Od. 

Algérie, 1. c, p. 14. 
1873 — Onychogomphus Genei (pars) J, Selys, 3. émes add. 

Lyn. Gomph., p. 9. 
188 s — Onychogomphus Costce, Selys, Rectification Onyc. 

Genei, 1. c., p. cxlvi (Rectification). 

Extens. géog. — 1 £ Oran (Cam. V. Yolxem), Coll. Selys. 



REVISTA DA. ,90CIEDADJ CARLO! RIBEIRO \~] 



ONYCHOGOMPHÚS GENEI, SELYS dii Portugal 



DESCRIPTION 

á ADULTE (d'aPRES I I INDIVIDUS) 

Tête — Lèvre inférieure gris-perle; supérieure blanchc 
légèrement verdàtrc, à pcinc roussâtre à la base sur les 
cotes. 

Face et front vert-gai ; íront proéminent, échancré, 
un peu deprime au centre, ayant à la base devant les an- 
tennes, une bande brune, étroite, sinueuse, mterrompue 
au milieu. 

L'espace des ocelles et celles-ci, noir. 

Vertex et occiput jaunes, separes par une impression 
un peu roussâtre. Occiput plat ; lame presque droite, lé- 
gèrement garnie de poils jaunâtres, courts, présentant sur 
deux individus une petite dent noirâtre de chaque côté, 
et sur trois autres une seule d'un côté. 

Yeux gris-verdâtre; postérieurement jaune légèrement 
laves de roussâtre. 

Prothorax -Jaunâtre, brim noir au-milieu et un peu 
sur les côtés, bord postérieur un peu élevé, arrondi, non 
échancré. 

Thorax— Vert comme le front, tirant sur le jaune pos- 
térieurement, et en dessous lave de jaune un peu rous- 
sâtre et marque de plusieurs traits d'un brun clair. 

Les bandes bien visibles dun roux ferrugineux. Mé- 
dianes à peine séparées par 1'arète verdâtre, étroites pos- 
térieurement, arquées en dehors, três larges antérieure- 



?ê REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS klIiKIko 



ment ou elles sont confluentes avec les anté-humérales. 
Cel-les-ci un peu sinueuses, assez épaisses, assez rappro- 
chées cies humérales jusqu^iux deux tiers de leur hauteur, 
oú elles tendent à leur envoyer un petit prolongement, puis 
s'en écartant et samincissant pour se joindre aux média- 
nes et rentermer un espace allongé. Humérales droites, 
épaisses, touchant par en bas les anté-humérales. i/ R 'la- 
térale réduite à un vestige iníérieur, noirâtre, 2. me com- 
plete, presque aussi large que 1'humérale, 3. mc nulle. Tou- 
tes trois réunies en dessous par une bande flexueuse noi- 
râtre. 

Attaches des ailes marquées de noir. 

x\iles — Hyalines, quelques fois três légérement lavées 
de jaunàtre le long du bord costal á reticulation noire. 

Costale jaune pâle en dehors jusqu'au pterostigma 
qui est grand, un peu dilate, jaune-vert, entre deux ner- 
vures noires três épaisses, et largement borde de noirâtre 
antérieurement. 

Deux rangs de cellules postrigonales aux quatre ai- 
les, precedes presque toujours de trois cellules aux ínfé- 
rieures, três rarement aux supérieures. Bord anal três 
exeavé, denticule dans 1'excavation. Angle droit. 

Membranule blanche, presque nulle. 

Pieds courts. Fémurs jaune-vert à épines noires, for- 
tes, três courtes. Les 4 postérieurs noirs en dedans. Sur 
les quatre antérieurs extérieurement une bande rousse, 
sur les postérieurs trois lignes brunes dont deux plus au 
moins réunies. Tibias jaunes en dehors, noirs en dedans, 
à épines longues noires. Une ligne noire extérieure sur les 
quatre premiers, double sur les postérieurs. 

Tarses noirs; les 4 antérieurs jaunes en dehors, les 
postérieurs un peu roussàtres. 



RKVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ÍÒ 



Abdómen Cylindriqúe, épaissi àu i : ." et 2'. e segments, 
climinuant à la base du 3;*, três mince du j. c au 6. c , les 4 
demiers épaissis. Les cS. c et 9.° ont les bords trè's dilates 
en íeuilles. Lc 10. c cst court d' uns tiers moins long que 
le 9.% large, á bord largement échancré peu denticule. 

Feuille du 8. c segment augmentant rapidement cie 
la base jusqu'aux deux tiers du segment, puis paralléle 
et prolongée en un lobe arrondi, qui recouvre sensible- 
mente la feuille du segment suivant. Celle-ci arrondie en 
demi-cercle, un peu prolongée postérieurement, et pres- 
qué aussi large que la precedente. 

Couleurs — i. er segment en dessus jaune vert avec une 
tache basale brune atteignant le milieu, sur les côtés dun 
jaune plus pur. 

2. e jaune-vert en dessus, dun beau jaune sur les cô- 
tés, avec un cercle basilaire brun à peine séparé par le 
fond d'un demi-cercle noir situe aprés le tiers basal ; tous 
deux divises par larête dorsale. Deux pomts médians 
noirs un-peu après le milieu. Une tache brune après les 
oreillettes qui sont vertes. 

3. e 4/ 5. e 6. e à articulations étroitement cerclées de 
noir, d'un 'jaune-vert en dessus et sur les côtés ; blancs 
en dessous. Un cercle étroit noir au tiers antérieur, for- 
mant une petite croix avec 1'arête dorsale de même cou- 
leur, et se croisant avec une bande latérale longitudinale 
brun noirâtre, inclinée d'avant en arrière, entière ou di- 
visée au milieu. Au tiers postérieurs deux points méclians 
noirs, entourés de brun qui augmente insensiblement du 
3. me au 6. me segments, ou il oceupe tout le tiers posté- 
rieur. 

7. me de même que les précéclents, mais le fond est 
d'un jaune plus pur, les lignes noirs ont presque entié- 
rement desparu, les latérales sout reduites à un vestige 
postérieur, et les deux points forment en dessus une ta- 



40 REVISTA DA SOCIEDADE CARDOS RIBEIRO 



che noirâtre bilobée cn avant occupant lc tiers posté- 
ríeur. 

8. ,nc cn dessus d'un jaunc brunâtrc, plus clair sur les 
cotes ; borde cn dessus aux deux extremités de noirâtre 
qui s'étend quelquefois plus au moins longitudinalement 
jusquá sèparer du íond une tache en forme de trêfle, nat- 
teignant par les bords. Deux points medians noirs. 

o. e même coulcurs, mais la bordure noirâtre anté- 
neure est seule un peu prolongée en angle de chaque 
côté. Pas de points médians noirs. Feuilles latérales de ces 
2 segments largement bordées de noirâtre. 

io. me comme le g. me mais dun jaune plus pur au mi- 
lieu du dessus et en dessous, et 2 points medians noirs à 
peine visibles. 

Parties génitades — Appendices anais supérieurs jau- 
nâtres, à pomte brune, presque aussi longs que les deux 
derniers segments, épaissis à la base, comprimes dans leur 
première moitié, sub-cylindriques ensuite, bificles à leur 
extrémité ; écartés autant que leur épaisseur jusqu'á leur 
milieu, ou se termine un petit sillon interne supéneur, 
puis contigus et courbés régulièrement vers le bas. 

Appendice inférieur jaunâtre, plus ou moins borde 
de brun, de moitié plus court, divise après son milieu en 
deux branches d'abord écartées, puis se touchant à leurs 
extremités, et portant après leur origine un coude exté- 
rieur, puis une três petite dent, separes par une échan- 
crure ; le bout interne renflé, arrondi, cilié. 

Vu de profil cet appendice est recourbé en haut dans 
ces deux premiers tiers et sa tète qui est dans le plan de 
Fabdomen a une double courbure qui fait presque insen- 
siblement suite à la première. 

Parties génitales du 2. me segment peu proeminentes. 
Pièce antérieure jaune à base noirâtre. 

Hameçons anténeurs tout noirs, postérieurs jaunes 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RlBEÍRO 



avec le bord supérieur noir. Cuicllcr, pcnis et sa gainc, 
noirs excepto la coulisse qui est jaunâtrc. 

Les oreillettes cl li 2/ segm. sont assez fortes triangu- 
laires, à dentellures variables. 

<4 jeune diffère de Tadulte par : 

La face et le front cl'un blanc grisâtre; le thorax jaune 
légèrement verdâtre et les bandes plus claires, les média- 
nes à peine visibles et représentées par un vestige fígu- 
rant leur bord externe, la prernière latérale un peu moms 
rudimentaire ; le Ptèrostigma jaune pâle entre deux ner- 
vures noires épaisses et non borde de noirâtre ; les Fémurs 
jaunes ; le fond des i. er -6. e segments de 1'abdomen jaune 
três légèremement verdâtre, les dessins noirs du 8. e -io. e 
segments brun clair et un peu obliteres. 

? adulte (d'aprés 6 individus). 

Ressemble au mâle adulte pour la coloration ; voici 
les principales différences : 

i.° — Bande brune devant les antennes plus étroite à 
peine marquée. 

2.° — Lame occipitale présentant de chaque côté 4-7 
petites dentellures noirâtres à peine visibles. 

3. — Bandes du thorax plus claires, moins distinctes; 
1'anté-humérale un peu plus fine et un peu plus éloignée 
de 1'humérale. 

4. — Ailes un peu plus lavées de jaunâtre; ptèros- 
tigma jaune moins borde de noirâtre antérieurement. 

5. — Lignes des fémurs moins marquées, tarses pos- 
térieurs plus clairs, presque comme les antérieurs. 

6.° -Abdómen mince, un peu comprime, èpaissi aux 
deux premiers segments et un peu vers Textrémité; bords 
des 8. mc et ç. 6 seg. à peine dilates. 

7. — 3- e -7. e segments comme chez le mâle, mais l'a- 
rête dorsale noire est à peine marquée et les deux points 



42 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



médians ne sont pas entourés de brun ; 8.° et 9.° bordes 
de nofrâtre seulement aux deux extrémités ; 10. e tout 
jaune, à bord postérieur noir au clessus. 

8.° — Abdómen termine par une protubérance conique, 
à pointe émoussée, presquaussi longuequele io. c segment, 
jaurie, séparant les appendices qui sont três minces, três 
pointus, jaunes à pointe brune, doubles de la protubérance. 

9. — Ecaille vulvaire courte, triangulaire, jaune bor- 
dée de noir, divisée en deux pointes aigues par une échan- 
crure étroite, quadrangulaire. 

io.° — Oreillettes du 2. e segments, rudimentaires. 

5 jeune différe de Tadulte par ; 

La face et le front d'un blanc grisâtre ; la bande de- 
vant les antennes reduite à quelques traits peu marques; 
le thorax jaune légèrement verdàtre ; les bandes médianes 
nulles, la i. e latérale un peu moins rudimentaire ; le pté- 
rostigma jaune três pâle non borde de noir ; les fémurs 
jaunes; le fond des i. er -6. e segments de 1'abdomen jaune 
três légèrement verdàtre. 

9 três jeune. Voici ses différences de la femelle jeune: 

Fond de la couleur jaune pâle, excepté les lêvres, le 
rhinarium, les côtés du thorax, et la poitrine blanchàtres. 

Bande brune devant les antennes, nulle. 

Espace des ocelles jaune pâle. 

Lame occipitale inerme. 

Lobes du prothorax separes par une impression bru- 
nâtre. 

Bandes du thorax d'un jaune roussâtre, à peine visi- 
bles. 

Médianes plus subitement élargies en avant ; i. c et 
3.° latérales completes. 

Nervures jaunes et brunes excepté la médiane noire ; 
bord anal plus arrondi. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO /] '*, 



Les piéds jauncs excepto un vestige cn ligne brunâ- 
tre à Textrêmité dcs íémurs, les postéricurs un peu plus 
longs. 

2. c ~7. c segments tout jauncs excepté un cerçle étroit 
noir au tiers antérieur interrompu au milieu etdeux points 
medians au tiers posténeur, marquês aussi sur lc 8. c ; tout 
les autres entièrement jaunes. 

App. anais un peu plus courts, plus épais moins 
pointus, tout jaunes. Protubérance pointue. 

Echancrure de 1'écaille vulvaire un peu moins étroite. 



Hab. en Portugal — Coruche, sur les bords du Rio Sorraya 
en Juin et Juillet (António Guimarães). 



OuSlBpJBg 3p ° 



eo (N 



CO «o 



tt w 






CS CN 



uinuiixB^ 



oo_-«.£S;Si O^ I^qo ^ ^ ^ ^f o GO 00 



uinuiiuij^ 



(s) 3UU9ÁO^\[ 






~ rj-sO ^ ^ GO Crs 






c^ 



00 - 1 



:-« ^r 



CN 






CO C^ 



rr ~ N h OO ^O 



Tf 



. 7 . . 



2 ô^ L ^ 



uinuiixB^\[ 



<^_ W 81 (0 (0 

Tf ' / <N ,CN| 

Tl Tl" vOCO r^ 



O 



^ °00 ° 



CO 

Z 
O 

CO 

w 



^) 



uinuiiui\/\f 



r<~\GO 
-1- tN 






(Z) 3UU3Á0ty\[ 



~ o, o^to O' ^ , 

Z+- I C^^ NI r* GO S I 2 7 I 1 

U <L> {_ <D 
. p S-i p $_■ 

<D ^ <D ^ 

: ■ ' • - • • • VI) C VD ' C 

w M cn ^£ ^^ 

■'■'•'&• S 2 S S ' •:-. SiS-w.a 

5-i 3 í ^ <U 

p w.t! p^g g g g 

<*> <Z) fl) </) CO . rH C!r-^ •"* 

_ .13. Sá ^íd Já * . g * o * 

S g^ - "^ ^ *S B 

rr ro +j <L> « .^h+j cai 

2- M «oj"a S s 5 'a « 2 

- c s a^ u -o 6 g- * * 

""! C f -1 " i— ' |~3 r-> rn _^T i— — I 

O rJD CVOJ o3 O C3 4-> <D <U 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO /\ "$ 



RÀpports et différences. — Le mâle de Sardaigne est 
parfaitemcnt identiquc à quclques individus da Portu- 
gal et la $ type De Sicile décritc par de Selys ne diííère 
pas des femelles presque adultes que fãi sous les ycux. 

Quand à Y Onychogomphus Hagenii, voici cn quoi 11 
différe : 

Taille un peu plus petite ; ailes relativement un peu 
plus courtes ; 

Ptérostigma un peu plus court, surmontant 3 cellul- 
les et demi ; 10 à 12 nervules anténodales aux ailes su- 
perieures, 6-9 aux inféneures ; 5 à 6 post-nodales aux 
quatre ailes ; 

Feuilles du 8. ème segment paraissant moins parallèle 
et prolongée par un lobe moins arrondi ; 

Appendice anal inféneur un peu plus élargi vers 
1'extrémité et appendices supérieurs paraissant plus bifi- 
des que chez le Genei. 

L'écaille vulvaire de la femelle est identique. 

Obs.— Les différences indiquées montrent que YO. 
Hagenii est extrêmement voisin du Genei dont il ne cons- 
titue certainement qu'une race habitant la Syrie, lEgy- 
pte et TAbyssinie. 

Les deux formes se distinguent mieux de YO. ftumi- 
lio quoique par des caracteres três minutieux, mais les 
appendices du mâle sont três différents. 

Quand à YO. Costoe il appartient au groupe de 10. 
grammiens par ses appendices anais. 



Albert A. Girard, 



VARIA 



Éffets de la semi-domestication sur le daim (Dama vulgaris), 
d'après M. Keilhack. (i) 



Le daim, originaire des contrées méditerranéennes, a été intro- 
duit dans TEurope centrale et septentrionale pendant 1'ère chrétienne 
et il n'y a même que quelques siècles qu'il a été introduit dans TAlle- 
magne du Nord. 

Ce fut donc une découverte fort interessante que celle d'une ar- 
mure complete de daim faite à 10 lieues de Berlin, dans des alluvions 
préglaciaires. 

M. Keilhack mesura ió dimensions sur cette armure, et mit les 
chiffres obtenus en regard des mêmes dimensions mesurées sur les 
30 plus grandes armures provenant de daims actueis de TAllemagne 
du Nord. 

Ce tableau comparatif fait voir une série de différences entre le 
daim fossile et le daim actuei. La meule, la perche, les andouillers et 
la palmature ont une épaisseur plus grande ; 1'andouiller inférieur pa- 
rait avoir été dévié vers le bas et Tandouiller supérieur dévié vers le 
haut. La longueur totale du bois est moindre, ce qui concourt avec sa 
plus grande épaisseur pjur le faire paraitre plus ramassé. Langle for 
mé par la base des deux bois est moins obtus, ce qui les fait paraitre 
plus rapprochés. Larmure du daim actuei montre donc une tendance 
à Taffaiblissement, au bénéfice de Télégance. 

M. Keiihack voulut constater si la même tendance se tr^uve aussi 
chez les daims habitant les contrées considérées comme leurs pays 



(1) Keilhack. Ueber einen Damhirsch aus dera deutschcm Diluvium. (Jahrbuch 
der Preussischen geologischen Landesanstall und Bengakademie fúr iStiy. Berlin, iSSS, 
p. 283-290, pi. XI). 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO /|/ 



dWiginc et, dans ce bui. demanda des renseigncments à Lisbonne cl à 
Athònes. 

L/armurc du daim grec se rapproche d\ine façon remarquablc de 
Tarmure fossile, tandis que la plus grande armure qui se trouvait 
alors au musée de Lisbonne (1) presente exactement les caracteres de 
celles qui proviennent des daims actueis de TAllemagne du Nord. 

Or il cst à remarquer que le daim vit en Grèce à Tctat sauvage, 
tandis qu'cn Portugal il est entretenu dans des pares, exactement 
comme en Allemagne, ou il subit depuis plusieurs siècles une semi- 
domestication à laquelle on peut attribuer les modifications précitées. 



Ayant eu dernièrement à faire une excursion au Monte Junto 
(point culminant, $66 m ), ^entendis les vieillards de la contrée dire 
qu 1 ]! y a une cinquantaine d^nnées cette montagne était couverte d'une 
épaisse forêt qui abritait des daims et des loups, animaux actuellement 
complctement disparus de cette contrée. Ils admettent que les daims 
s 1 étaient échappés d'un pare des environs d^lcoentre, mais ne donnent 
pas de preuves à lappuis. 

II semble plus naturel de considérer le Monte Junto comme le 
dernier refuge du daim sauvage dans cette partie du Portugal. En tous 
cas, cette montagne a été habitée par des cervides depuis les temps 
les plus reculés, car des fouilles faites dans les cavernes ont fourni 
des restes de cervides de lépoque néolithique. En outre, une grotte si- 
tue sur la crête orientale, à environ 1200™ au N. E. du signal trigo- 
nométrique d^spigão, et à Taltitude d^nviron 370 mòtres parmi les- 
quels ceux des cervides se trouvent en grande quantité. 

Mentionnons encore la presence de cervides dans des depôts d'une 
autre contrée, d'âge intermédiairc entre ceux de Tcpoque quaternaire 
et ceux de 1'époque néolithique, los kjoekkenmoedding de la vallée du 
Tage. 

Malheureusement les bois ne sont representes que par des fra- 
gments, aussi bien dans ces derniers dépôts que dans les précédents. 



P. C. 



(l) Cette armure rTapparticnt pas au Musée national, cl le avait été cnvoyée au 
préparateur par un habitant de la vjlle. 



OS MORTOS 



ANTÓNIO ROBERTO PEREIRA GUIMARÃES 



Foi Pereira Guimarães quem succedeu a Félix de Brito Capello 
no estudo e determinação das collecções carcinologicas e ichtyologicas 
do Museu Nacional. Tam infeliz como o seu antecessor, Pereira Gui- 
marães falleceu depois de uma longa e afflictiva doença, deixando um 
espolio scientifico que affírma bellas qualidades de intelligencia e de 
trabalho e do qual destacamos os estudos seguintes: 



Liste de quelques espèces de poissons d'eau doU.ce de 1'intérienr d'oAngola, in 
Jornal da Academia, vol. VIII, n.° XXX, Lisboa, 1881. 

Description d'un nouveau poisson du Portugal, in Jornal da Academia, vol. 
VII, n.° XXXI, Lisboa, í88i. 

Lista dós peixes da ilha da Madeira, Açores c das possessões portuguezas da 
Africa, que existem no Museu de Lisboa, in Jornal da Academia, vol. IX, 
n.° XXXIII, Lisboa, 1882. 

Description d'un nouveau poisson de Vintérieur d' Angola, in Jornal da Acade- 
mia, vol. IX, n.° XXXIV, Lisboa, 1882. 

Diagnoses de trois nouveaux poissons d' Angola, in Jornal da Academia, vol. X, 
n.° XXXVII, Lisboa, -.884. 

Supplemento a Lista dos peixes da Madeira, ete, in Jornal da Academia, vol. 
X, n.° XXXVII, Lisboa, 1884. 



R. P. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

(Propaganda de eciências naturàes c suciacs cm Portugal) 



1 



A Sociedade Cvrlos Ribeiro tem recebido as seguin- 
tes publicações, dalgumas das quaes se oceupará na sec- 
ção bibliographica da sua Revista: 

Em. de Munck. — Proposition pour Vorganisation d' une excursion 
géoloçrico-archéolooique à faire à Maastricht, 8 °, 7 pag., Bru- 
xelles, 1888. 

— Docnments pour servir à V elude des moeurs judiciaires etdes usages 

au XVIII siècle dans le Luxembourg bclge, 8.°, 8 pag., Bruxel- 
■ les, 1888. 

— Les Micault belges, 8.°, 47 pag., III pi., Bruxelles, 1889. 

— Mémoire de Em. de Munck répondant en partie aux questions .- — 

j.° Vhomme a-t-il vècu à Vépoque tertiaire? — 2. Quel est Vétat 
de la question de Vhomme tertiaire en Belgique ? 8.°, 23 pag., 
Bruxelles, 1888. 

— E tude a faire sur les gisements, les caracteres physiques, chimi- 

ques, mi néralo giques et paléontolo giques des ruches taillés pour 
Vhomme préhistorique, 8.°, 11 pag., Bruxelles, 1887. 
Prince Albert de Mónaco. — Expérience de flottage sur les courants 
superfi cieis de VcAtlantique-nord, 8.°, 14 pag , Paris, 1890. 

— Sur la f atine des eaux profondes de la Méditerranée au large de 

Mónaco, 4. , 3 pag., Paris, 1890. 
Sociedade de Geographia de Lisboa. — Mensagem, ao rei, sobre o 

Tratado Luso-britannico, Lisboa, 1890. 
F. Adolpho Coelho. — Contos populares portuguezes, 8.°, i65 pag. 

Lisboa, 1879. 
Silva Vieira. — Materiaes para a historia das tradições populares do 

concelho de Espozende, in-16. , 114 pag., Espozende, 1888. 

— Ramalhete de canções populares colhidas no concelho de Espozende. 

in-16. °, i5pag., Espozende, 1887. 
Armando da Silva, — Folk-lore e Dialeclologia de Espozende (Noticia 

bibliographica) in-16, 32 pag., Espozende, 1890. 
Soeiro de Brito. — Linguagem infantil, in-iõ °, 18 pag., Espozende, 

1890. 

— Litteralura popular alemtejana: — As Brotas, in-16. °, 9 pag., Es- 

pozende, 1890. 

— A poesia popular alemtejana, in-16, 5i pag., Espozende, 1890. 
Paul Choffat. — Sur une station préhistorique à Óbidos et sur la dis- 

persion de VOstrea edulis aux temps préhisloriques, in 8.°, 2 pag., 
Lisboa, 1890. 
Paul Sèbillot. — "Les pendus, 8.°, 19 pag., Vannes, 1890. 
-Eludes maritimes (Les coquillages de la mer. Les zoophytes. Les 
crustacès), 8.°, 20 pag. Vannes, 1890. 



Revista d bthnologia e cie ijlottologia, iasc. 1-4, Lisboa, 80-81. 

Revista Archeologica, Tom. IV, ri.°, Lisboa, 1890. 

'sta de Guimarães, Vol. VII, n. os 3-4, Guimarães, 1890. 

Revista do Minho (para o estudo do Folk-lore), Vol. VI, n.° 10. Espo- 
zende, 1890. 

Boletim da Sociedade Broteriana, Tom. VII, fase. 4 e tom. VIII, fases. 
t-2, Coimbra, 1889. 

O Instituto, Vol. XXXVII, n.°« 11-12 e vol. XXXVIII, n.™ 1 -3, Coim- 
bra, 1890. 

Revista de Obras publicas e minas, Vol. XXI n. os 249-250, Lis- 
boa; 1^90. 

Revue scieniipque. Tom, 46. n. os 1-2 e tom. 47, n cs 12 14, Paris, 1890. 

Mc/usine. Tom V. n os 2-8, Paris, 1890. 

Revue de philologie française .et provençalc, Tom. IV, fase. 2-4, Pa- 
ris, 1880. 

Buíletin de la Société Zoolooique de Fran.ce, Tom. XV, n. os 6-10 Pa- 
ris, 18^0. 

Verhanáluifgen der Berliner Gesellschaftfúr Anthropolooie, Etiinolo- 
gie und Urgcschichlc, n. os de fevereiro-dezembro, Berlin, 1890. 

Buíletin de la Société Vaudoise des sciences naturelles, Vol. XXV, 
n. os 101-102, Lausanne, 1890 

Feuillè des jeunes naturalistes, Tom. XX, n os 238-241, Paris, 1890. 

Buíletin de VInstitut Êgyptien, 2™ série, n.° 10, Cairo, 1890. 

Buíletin de la Société des Sciences historiques et naturelles de Semur, 
2'"' série, n.° 4, Semur, 1890. 

Buíletin du Comité géologique de St. c Pélersbourg, Tom. IX, n. os 1-8, 
St. Pétersbourg^iSgo'. 

Supplément aux Bulletins du Comité géologique de Si. Pétersbourg, 

Mémoires du Comité Géologique de St. c Pélersbourg, Tom. IV, n.° 5, 

Tom. V, n.° 1 e 5 e Tom. X, n.° 1, St. Pétersbourg, 1890. 
V erhand lu n g e n der kaiserlich-honi glichen zoologisch-botanischen 

Gesellschaft in Wien, N. os de outubro-dezembró de 1890, Vienna. 
The journal of the anthropolo gical institute of Great 'Britai n and 

Ireland, N.° de Fevereiro dè 1890. Londres. 
Annales de la Société belge de microscopie, Tom. XIV, Bruxellas, 1890. 
Buíletin de la Société belge de microscopie, Tom. XVI, n. (S 8-n e 

tom. XVII, n os 2-4, Bruxelles, 1890. 
Abslracts of the procedings of lhe geological Society of Londón, n.° 

55i, Londres, 1891. 



Revista de Sciencias Naturaes e Sociaes 

Publicação da Sociedade Carlos Ribeiro 



CONDIÇÕES DE PUBLTCAÇAO 

A Revista sahirá regularmente quatro vezes por anno em fascícu- 
los de 48 pag., 8.° 

'Portugal — Anno ou serie de 4 números. . . . i$200 reis 
Numero avulso 3oo »> 

^Paizes comprehendidos na União postal: 

Anno 8 fr. 

Numero avulso 2 » 

Para os outros paizes não fazendo parte da União aceresce o porte 
do correio. 




#■ nu 



REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



ÓRGÃO DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Publicação trimestral 



'Directores — RICARDO SEVERO e ^OCHA PEIXOTO 



Yolume Segundo — j.° 6 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
8o, Rua da Fabrica, 8o 

1891 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

Notas sobre a linguagem vulgar do Porto (conclusão), por 

J. Leite de Vasconcellos pag. 49 

Contribuições para a fauna malacologica da (Madeira, por 

Augusto Nobre pag. 77 

VARIA 

Explorações archeologicas, por Santos Rocha .... pag. 8ç 

BIBLIOGRAPHIA 

Communicações da Commissão dos Trabalhos Geológicos de Portugal 

I — F. Paula e Oliveira — Note sur les ossements humains 

existants dans le musée de la Commission des travaux 
géologiques, por R. S pag. 88 

II — Alfredo Ben-Saude — Note sur une météorite ferrique 

trouvée à S. Julião de Moreira, prés de Ponte de Lima 
(Portugal), por R. S. pag. 88 

III — Dr. Welwitsch — Quelques notes sur la géologie 

d' Angola, coordonnées et annotées par M. Paul Choffat, 

por R. S. ...... pag. 89 

IV — J. F. .Nery Delgado — Reconhecimento scientifico dos 

jazigos de mármore e alabastro de Santo Adrião e das 

grutas comprehendidas nos mesmos jazigos, por R. S. . pag. 89 

NOTICIA 

o4.s conferencias do dr. Júlio de (Mattos sobre o caso Char- 
les Petit, por J. B pag. 91 



NOTAS 

SOBRE A LINGUAGEM VULGAR DO PORTO 
(Conclusão) 



I. Nasaes. 

6. a) O a nasal e o a antes de m, n e nh são aber- 
tos em syllaba tónica, por ex.: 

cama sangue muntánha 

fiánno santo banho 

ramo campo banha; 

em syllabas atonas porém só o a nasal é aberto, o outro 
é fechado, ex.: 



càndieiro 


caminho 


zangar 


ftânnínho 


abrandar 


tamanho 


cantoneiro 


arranhar. 



A abertura do a é a mesma que se nota em padeiro, lá, 
mato, etc. 

vol. n 4 



<}(> REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



b) O a é igualmente aberto em meã (mãe), que não 
rima com bem, ainda que alguns poetas portuenses, á imi- 
tação dos do Sul, etc., pertendem ás vezes fazer rimar essas 
palavras, por ex.: Guilherme Braga nas Heras e violetas, 
Porto 1869, pg. 96 e 23^; o mesmo poeta faz rimar mãe 
com estas palavras: ninguém (pg. 200), tem (pg. 61, 62 
e 260) e também (pg. 28 e 24o). Como disse, taes rimas 
repugnam aos ouvidos portuenses. 

c) Ao lado de sangue, também tenho ouvido no 
Porto dizer sáingne, mas não geralmente. 



7. a) Ao archaico -om, ao moderno -om, e ás vezes 
(por confusão) ao moderno -ão, quando tónicos, corres- 
ponde -ónm (i. é, óu nasal) com o um pouco aberto, mas 
menos que em dó (isto é, com um o=ao de óu portuense 
em pouco, vou, etc). Exemplos: 



c Bulhóum (^Bolhão, nome de uma praça) 

móum (== mão) 

curaçóum 

carbóum 

póum (plur. ftuôis). 

cóum (=com em pausa) 

irmoum (plur. irmuois) 

sóum (= som). 



Este facto, que eu já notei em 1885 nos "Dial. {Mi- 
nhotos, I, t, foi também observado, em parte, por Barbosa 
Leão nos seus Elementos de gramática -portugueza, Porto 
1886: ((...devemos aqui apreciar uma pronuncia que eziste 
no Minho E' inquestionável que nesta província a pa- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 51 



lavra bom, p. e., joralmcnte não se pronuncia bôm: dão- 
lhc o som do ditongp ou com entonação do nariz. Do 
mesmo modo aqui a maior parte não pronuncia, p. e., 
razão amarão amarão; pronunciào-se também estas pa- 
lavras com o som d'esse ditongo. Portanto cm Entre Douro 
e Minho uza-se o ditongo ou nazalado» (i). 

b) O litter. -o/7z, quando tónico, dá também frequen- 
temente -ão, tanto em pessoas cultas como incultas : é 
um caso de regressão phonetica. A professores de ensino 
superior tenho eu ouvido no Porto dizer são (=som), 
e a um professor de um lyceu do Minho ouvi uma vez 
dizer Chardrão (em vez Chardron, nome de um livreiro 
portuense). 

E' tal a intensidade do 'facto, que até ás vezes oc- 
corre a palavra som em rima com -ão : nas Scintillações 
e Sombras de Ernesto Pires, Porto 1883, lê-se: 

Querendo-nos fugir no derradeiro som 
No fogo da paixão (2); 

nuns versos publicados no n.° 252 do jornal O Primeiro 
de Janeiro, de 1885, lê-se também : 

E ainda que parece um sonho, uma illusão 

Que jamais tua pequenina boca articulasse um sorri. 

Pôde ao repente julgar-se que aqui se deve pro- 
nunciar sóum, ftaixóum e illusóum, em harmonia com o 

(1) Pag. 98.— O A. diz que esta pronuncia se estende muito 
pouco ou nada fora da província; mas eu também a achei em Tras-os- 
Montes : vid. Flores mirandesas, passim. 

(2) Pag. 102.— Ernesto Pires não era do Porto, mas. por aqui 
ter vivido muitos annos, adquiriu a pronúncia portuense, como eu sei 
pelas intimas relações de amizade que houve entre mim e elle. 



52 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



§ y-a, mas tal não me parece o caso, porque gente de al- 
guma cultura não diria facilmente paixóum, etc. (i) 

c) Sobre o nasal quando tónico e não está em ter- 
minação, vid. § io-c e | 22. 

d) Ao are. -om atono (mod. -ão) corresponde geral- 
mente -o (i. é, u abafado), ex. : foro (=arc. forom, mod. 

Jôrão ou foram), viero (=arc. vierom, mod. vierão ou vie- 
ram) etc. 

e) Geralmente on (om) atono medial muda-se em 
un (um). Ex. : 

cumboio cumtigo 

cumprar cum pressa 

tumbar acuntecer. 

Este facto, que é parallelo ao que se nota no § 8-6, 
é commum a todo o Baixo-Minho, e denuncia imme- 
diatamente qualquer habitante desta região, culto ou in- 
culto. As cacographias com un (um), por on (om) são 
em grande abundância; até uma vez na dissertação 
de um estudante do 5. anno de Medicina, do Porto, vi 
que elle tinha escrito com perfeita consciência puntada 
(=pontada) ! Cf. Gonçalves Vianna, Essai de phonètique 
de la langue portug., pg. 46, nota. 



(1) Nos «Rascunhos sobre a gramm. da ling. portug.» de B. C. 
(Baptista Caetano). Rio de Janeiro 1881, pag. 167, diz o A. que no 
Brazil, em vez de bom, se diz bão. Citando esta passagem, diz também o 
sr. Adolpho Coelho: «A formarão que o dr. Caetano cita como popular 
no Brazil encontra-se ao norte de Portugal com frequência, como são 
por san, tão por iam, e ainda irmão, vão, chão, etc. por irmã, vã, chã»', 
vid. Os Dial. roman. ou neo-lat. na ^Africa, zAsia e oAmerica, II, 7. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 53 



/") Nestas palavras on atono medial (antes de s) des- 
nasalou-se : custipar (constipar), cnssigo (—comsigo). 

8. a) O e antes de m e n, na pronúncia da gente 
culta, abre-se, em syllaba tónica, por ex.:péna, Ema, etc; 
na pronúncia popular segue a lei geral do ê, exposta no 
§ 10-a (cf. § 22). 

b) Como succede com on (om), que dá un (um), 
também en (em), quando atono e medial, dâ en (em). 
Com e denoto o som do e da palavra se; é pois en (em) 
um e surdo nasal. Ex.: 

render, bentosa 

bender arrendar. 

Esta pronúncia tanto se observa nos doutos como 
nos indoutos. Conheço pessoas, que, apesar de muito il- 
lustradas e terem vivido longos annos longe do Minho, e 
outras até fora do continente português, não perderam 
ainda a pronúncia nativa.— Cf. Gonçalves Vianna, Essai 
de fthonétique de la langue fiortug., pg. 46, nota. 

c) No povo ouve-se também prencípio (= princípio), 
sem sinhor (=sim senhor), palavras que se poderão ex- 
plicar por dissimilação. 

9. Ao litterario -ã (-an, -am) corresponde -ão (com 
a aberto), por ex.: 

Càmpanhão (= Campanhã) 

minha irmão (= minha irmã) 

mação (=maçã. No plur. maçais). (1) 

(1) Na ^Descrição do reino de ^Portugal de Duarte Nunez do 
Leão, Lisboa 1610, fls. 12^ lc-se maçães\ mas talvez seja erro do 



vj REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Cf. Aclolpho Coelho, Os dial. roman. ou neo-latinps 
na Africa, ele . ele. , II, 7. 



II. DlTONGAÇÃO. 

10. a) Ao e que na língua usual soa ê, quando to 
nico, corresponde tê cm qualquer circumstancia. Ex.: 



Iêma 


ptêna 


lêlle 


miênos 


biênto (= vento) (1) 



zêu 


quiente 


mi eu 


siêmpre 


ti eu. 



b) As syllabas -elho (-elha), e -enho (-enha) pronun- 
ciam-se assim -éilho (-éilha) e -éinho (éinha), por ex.: 
téilha, véilho, etc. Numa cacographia moderna achei tam- 
bém : conséilho, joéilho. Já em ms. portuenses (papeis 
particulares) cio sec. XVIII achei ^Botéilho. 

Assim velho e velha rimam bem com todas as mais 
palavras em -elho e -elha, o que se não dá noutras pro- 
vincias. Ex.: 

A luz do pôr do sol tornava-te vermelha 

De ir puxar pela capa á tua irmã mais velha. (2) 

imprensa, pois no nusmo livro, a fls. 62 r. ev., ha varias vezes maçaãs. 
Sem embargo, na ed. de 178$, pag. 297, repete-se maçaes — O mod. 
plural portuense (e baixo-minhoto) maçais é por analogia com outros 
nomes de smg. -ã e plur. -ães. 

(1) Devo dizer que em palavras com en medial tónico várias 
vezes ouvi pronunciar esta syllaba não zén, mas sim cen, ou com um 
som parecido, por ex.: vcento, rcende, f ainda, accende. Mas este pheno- 
meno, ainda que não seja esporádico, como talvez é, não tem grande 
extensão. 

(2) G. Braga, Heras e violetas, pag. 43. 



REVISTA da SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ^5 

Deve-se ler vermèilha e vèilha. Noutras províncias diz-se 
vermelha c vermâlha, etc. 

Em E. Pires, Scintill. e sombras, pag. 114, vòcm-sc 
tambem a rimar velhas c abelhas. 

As rimas, por cx., dê tenha e montanha são por tanto 
defeituosas na litteratura portuense, pois aquellas pala- 
vras pronunciam- se no Porto téinha e muntdnha. 

Os poetas nem sempre são critério seguro para provar 
factos phoneticos, porque ás vezes regulam-se pela vista e 
não pelo ouvido (1), e outras vezes seguem os poetas de 
outras localidades (2) ; mas todos os exemplos que cito 
neste escrito são comprovativos, porque eu conheço de 
ante-mão a pronúncia geral. 

c) Como suecede com o é, o d da língua litteraria 
tem como correspondente uô (3), quando tónico, por ex.: 

^uôrto ciiôdia 

cu onde Ruôma 

ftuonte uodre 

fuônte meduôrra 

muonte uonda 

desciiônto suono 

finôis luôdo. 

Esta ditongação é principalmente sensível -junto das 



(1) Assim G. Braga tem dê a rimar falsamente com. fé, etc. 

(2) Assim o citado poeta faz rimar falsamente (segundo a pho- 
netica do Porto, entende-se) ninguém com mãe (cfr. supr. § 6-ò), e E. 
Pires faz rimar ditoso com repouso {Scintill. e sombr.-, pag. 119), á 
imitação dos poetas do Sul, pois tal rima é impossível no Porto. 

(3) Este som 6 ura ditongo crescente, cuja base é ô e cujo u-, 
como eu já disse nos Dial. interamn., V7, 4, é attenuado, i. é, com 
pouca labialização. Assim a pronúncia de uôsso (na phonetica do 
Porto) differe da de o osso (na phonetica do Sul, etc). 



56 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



labiaes (cf. c Dial. interamn., VI, 4); mas dá-se também no 
o inicial e junto de outras consoantes, como mostram os 
exemplos indicados. 

Quem primeiro notou, que eu saiba, embora incom- 
pletamente, este phenomeno de ditongação forão os aucto- 
res da Livraria clássica ftortugueza (1), no vol. III, Rio de 
Janeiro, 1865, pag. 349. A respeito do verso do Caricio^ 
neiro de Resende 

Pola maldade do erro passado 

dizem elles : «como ainda hoje se pronuncia no Porto, 
ftuola» (2). 

d) Sobre outros casos de ditongação vid. §§ 4 e 7. 

III. LlNGUAES. 

11. a) Geralmente no Baixo-Minho a vogal (a, e, i, 
6) que precede o l que fecha syllaba ditonga-se em u, 
passando de ordinário o / a r. Com relação ao Porto te- 
nho nas minhas notas os seguintes factos : 

câul (=cal, ouvido em Paranhos) 

aurto (=alto) ) , . , ~ .., , ^ . 

/ T \ ? (ouvidos em unio, c. de uava). 

ftarmo (= palmo) ) 

càrcanhar (= calcanhar) 

àrcancar (= alcançar) 

gáurgo (= galgo) 

úrtimo (= último) 

azur (= azul) 

Liupurdina (= Leopoldina) 

bórta (=volta) 

cállo (sendo gutturalisado o primeiro /). 

(1) Castilhos (António & José). 

(2) Pag. 123. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 57 



b) Em grupo de cons. -f- /, este / dá r: suprimiênlo 
(=supplemento), cumpréto (= completo). 

c) De deslocar fez-se desnacar. 

d) O e atono que precede r muda-se em a por influen- 
cia da lingal : libar ai, amaricáno (ao lado de mèricàno). 



IV. Apoio. 

12. Não só depois das consoantes finaes, mas ainda 
depois dos ditongos finaes, apparece um e surdo (na em- 
phase talvez ás vezes i\ ■ 

máre dóuze (=dous) Juóue (isto é, 

mulher e réize (=reis) Ju-óu-e). 

Em pausa, no acto de chamar, creio ter ouvido: O 
Manuétí . . . O Raúli. . ., com prolongamento de e e u. 

Este phenomeno do apoio é já notado no século XVI 
por João de Barros, que diz: «^aragoge, quer dizer 
acreçentamento ; cometefe este uiçio (sic), quando em fim 
dalguã paláura fe acreçenta letera ou syllaba, como fe faz 
nos rimãçes antigos, que por fazerem cõfoante dizia, — 
os que mejbê guardare, por guardar». Vid. Compilação de 
varias obras, ed. de 1785, pag. 163. — O mesmo se dá em 
gallego antigo e moderno : vid. Saco Arce, Gramat. gal- 
lega, Lugo 1868, pag. 20-21 e nota. — Também o mesmo 
suecede noutras linguas. 



V. Dissimilação. 

13. a) De consoante: 

cangriena (— gangrena) 
selativa (= sedativa) 



S' S REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



re/Uiario (= refractário) 

alurisma (—aneurisma* *anurisma) 

outro ex. no § n -c. 

b) De vogal : rezóum (= razão e razom; ou ha in- 
fluencia de rezar? Já no sec. XVI ha rezão.) 

mednôrra (= modorra) 
^Bergina (= Virgínia) 

Nada d'isto é porém caracteristico da linguagem daqui , 



VI. Assimilação : 

14. a) De consoante : 

mainada (=mais nada) 

ineições (=ileições [cfr. § 19 -a] = eleições 

qué-los (—quer los). 

b) De vogal : 

inzeminar \ 

letrina ( /- , ,, 

í (e. . . 1= a. . . 1), 
qiieridade 

Demióam 



VIL Hiato. 

15. a) O hiato annula-se frequentemente por inter- 
calação de vogaes que podem formar ditongo com a vo- 
gal antecedente. (Cfr. c Dial. beirões, V, 5), ex. : 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO $0, 



ó-u -. [na (=oh Arma) 

fossiêu a-i-elle 

a-i-água 

è-it-a posse (==é a posse). 

/;) A syllaba -oa dá -óiia : bóua (bóu-a), ctc. Numa 
cacographia (annimcio) achei: pão brona. 

c) O dissyllabo ruim soa ruim {rui nasal, mono- 
syllabo). 

VIII. Syncope. 

16. a) Dá-se syncope do i em sàóte e màór (mas é 
possível que ás vezes se intercale um u). 

b) Ouve-se ás vezes umazmána (=uma semana). 
Como uma é palavra proclitica, o e syncopou-se, e o s, 
antes de consoante sonora, deu normalmente z. Igual- 
mente ouvi : «no principio dazmána» (da semana). 

IX. Labiaes. 

17. a) E' facto já observado ha séculos que no Mi- 
nho o v se troca facilmente pelo b, dizendo-se binho, bós, 
etc. Muitas vezes o povo, julgando exprimir-se com mais 
polidez, diz votas ( — botas), vóum (=bom), etc. As pró- 
prias pessoas cultas dizem frequentemente b por v (mas 
não o inverso), como em geral em todo o Norte. Os poe- 
tas até não põem dúvida em rimar palavras em que en- 
tra b com palavras em que entra v, como : 

Os sonhos em que te absorves 



A' luz no seio dos orbes. (1) 
(1) G. Braga, Heras e violetas, Porto 1869, P a &- : ^- 



ÒO REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Nemrod e Constantino admiram quem os salva: 

A clemência do archanjo envolve o duque d' Alba (i). 

Infinito azul sem nuvens 



Foram das virgens de Rubens (2) 

Nos dois quartetos de um soneto achei também ri- 
mando entre si : enraivas saibas caibas laivas (3). 

E' claro que em todos esses casos o v se pronuncia 
inconscientemente b. Os exemplos mostram bem a exten- 
são e intensidade do phenomeno. 

b) Por influencia das labiaes b e m, diz- se dubaixo 
(== de baixo), bub\êr (= beber), etc. Em flagrante ouvi 
uma vez: «ai! que mu matam!», onde o u de wm (= me) 
resulta da influencia do m seguinte, como em rumendo (= 
remendo); naquella phrase me é proclitico, e portanto, 
quanto ao som, faz parte da palavra seguinte. 



X. Palataes. 

18. a) Contrariamente ao que succede no Sul, diz-se 
caixa, baixo, feixe, etc. Em Guilherme Braga encontro 
também as rimas. 

Não ha depois quem se queixe 



Das rodas do teu caleche (4) 
o que indica a pronúncia caleiche {eh soando aqui x). 

b) Sobre -elh- e -en/z-, vid. § 10-b. 

(1) Id., ib., pag. 234. 

(2) E. Pires, ScintillaçÕes e sombras, Porto 1883, pag. 55. 

(3) M. de Moura, in O cartão de visita (periódico litterario), 
de 19 de Agosto de 1886, pag. 57. 

(4) Heras e violetas, pag. 168. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 6l 



XI. Nasalação (cfr. cap. I) 

19. a) O e (i) inicial nasala-se, por ex.: 

invaporar (— evaporar) 
induriêto (=idureto =iodureto) 
imànginar (= imaginar) 
irrar (*=■■ errar) 
inzeminar (■= examinar). 

b) Em amuntolia (=beir. amotolia), de almotolia, o m 
nasalou a vogal seguinte; vid. o Vocabulário. 

c) Em imànginar dá-se também o mesmo pheno- 
meno que em mànjór (—major, termo milit.), etc. 

XII. Notas várias sobre as vogaes e ditongos. 

20. a) Esdrúxulos. Nos esdrúxulos, o i postonico, 
quando se segue consoante, muda-se facilmente em e: mà- 
quena, tiseco, sismátego (o que já succedia no latim vul- 
gar). E' o primeiro passo para a syncope. Quando se segue 
vogal, o i cae ás vezes, como em Antóno, mulésta (== mo- 
léstia), fâergina; mas este facto, que é característico de 
certas regiões do Sul, não é geral aqui no Porto. 

b) Pronuncía-se aberto o a atono de debàgar, pa- 
gar, apagar (1). 

c) O ditongo eu é reduzido a u em alurisma. — Vid. o 

Vocabulário. 



(1) VicJ. o Vocabulário, 



02 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



d) Diz-se píêza (== arc. pesa, moei. pesa), tife (=tifo), 
premeiro (== primeiro), su/eca (do verbo suffbcar). — Vid. o 
\ ocabulavio — Diz se também desdelogo (= desde logo), 
com o primeiro e surdo, por causa da próclise. 

e) O -tu pronuncía-se como ditongo (c não dissylla- 
bico, como na Beira): assim fugiu, mentiu não podem 
rimar com tio, rio, etc. Na palavra período o -io- soa 
também iu (ditongo), de modo que a palavra tem só três 
syllabas, — ou duas, quando se disser p'ríudo. 

b) Diz-se ugual (igual), e apocopa-se o a em mèri- 
cáno (== carro americano). 



XIII. Notas várias sobre as consoantes. 

21. a) A -es -j- cons. corresponde -5. Ex. : sprar, star, 
sprito (= espirito), screbiêr (= escrever). 

b) A palavra vomitar deu gomitar, como noutros 
pontos do país. 



B) MORPHOLOGIA 

I. Verbos. 

22. Formas varias: qirêndes (= quereis) ; têu ftíiôs 
(—eu pus), d'onde também puô-lo ; pus (=pôs) (i); stíêbe 

(i) Aproveito a occasião para explicar a formação do verbo 
pôr. Em port. arc. era, como se sabe, pocr (de outra forma mais arc. 
põer, i. é, põêr, com aççento no é) que vem do lat. ponere (i. é, ponére); 



REVlSfA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO í > { 



(= estive). A uma regateira no Porto ouvi fazo (=.faço), 
mas não sei cTonde era. Nos verbos temos que notar as 
seguintes milcxocs das vogaes: tiemo, lemes, leme, lemiêmos, 
lemeei; cuômo, comes, come, cumiêffios, cómõei, — o que é ex- 
cepção ao § io -a-c. — Cf. Gonçalves Vianna, Essai de f>ho~ 
nétique de la langue por tug. \ 46, nota. Este facto entra numa 
categoria mais geral; vicl, Epiphanio Dias, «Gramm. por- 
tug. elementar», 8. a ed., pag. 46-50. 

II. Artigos.. 

23. Como noutras partes do país, conserva-se ainda 
a antiga pronúncia tia (= modera, uma). E' notável que 
os próprios poetas em certos casos a adoptem, por exemplo: 

Oh não insulteis nunca ua mulher perdida (1) 

Como as canções d'ua mãe (2) 
O archanjo da poesia estende-te ua mão (3) 

Se levanto ua mortalha (4) 

Julgo-a assim como ua vaga (<$) 

Nem mesmo espelha ua imagem (6) 

Ao ver passar ua mãe (7) 
Que destinava ao peito d'úa amada (8) 

poer tinha, segundo a regra, o futuro e condicional poerei e poeria, 
que na phonetica vulgar se deviam pronunciar porei e poria (cfr. 
posia = poesia). Ora como os condicionaes e futuros são formados do 
infinitivo com ~ei (i. é, hei) e -ia (de havia), em porei e poria viu-se 
também por-ei e por-ia, i. é, destacou-se um infinitivo pôr. E' escu- 
sado pois recorrer á contracção inorgânica de poer em por, ou á hy- 
pothese, que me parece inverosimil, de põer comoaccento tónico no o. 

(1) G. Braga, Heras e violetas, Porto 1869, pag. 69. 

(2) Id., ih., pag. 94. 

(3) Id., ib., pag. 1 36. 

(4) Id., ib., pag. 169. 

(5) Id., ib., pag. [92. 

(6) Id. , ib., pag. 242. 

(7) Id., ib., pag. 260. 

(8) E. Pires, Sciritill. e sombras, Porto 1883, pag. 112. 



64 Kl VISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Se a memoria me não falha, Garret propõe numa nota 
das suas obras (não posso agora verificar) que se adopte 
ua quando se seguir 772, para evitar cacophaton. Nos cita- 
dos exemplos colhidos em Guilherme Braga, vê-se que 
cinco vezes ua fica effectivamente antes de 772, apezar de 
no 5. exemplo resultar o cacophaton comua (que no N. 
é synonimo de sentina, pelo menos na Beira-Alta). No 
ex. de Pires o emprego do ua em vez de uma foi também 
para evitar o cacophaton u-màmáda. 



III. Partículas. 

24. a) Em vez do adv. antes diz-se ? e também ás 
vezes se escreve, em antes (pronúncia im antes). Assim 
ouvi muitissimas vezes a pessoas illustradas, e até a pro- 
fessores meus, e vi frequentemente nos jornaes ; aqui 
só posso citar estes versos publicados em folhetim da 
Discussão : 

E' um templo a officina. Em antes cTesbanjar 
Aprende com suor quanto vale o trabalho. 

Este phenomeno, queé muito commum no Porto, não 
sei se se estende a todo o Baixo-Minho. 

b) O adv. mal foi adjectivado no deminutivo, nesta 
phrase : «F. está málzinho». Poisque se diz está mal como 
está bom (correspondentemente a está bem), o mal foi to- 
mado por adjectivo. Outro modo interessante de dizer é: 
vou uond d fuônte ; cfr. T)ial. Minh., I, 14. 

c) Antes de vogal ouvi pronunciar mas como meij ... 
em emphase, ex.: «meij um dia», etc. 

d) Vid. no «Vocabulário» antre d'onte. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO í><$ 



IV. Formação de palavras. 

25. Notcm-se as seguintes palavras, sobre algumas 
das quaes vid. o Vocabulário: averdado (por esverdeado) , 
anegrestado, queimaôr, bolar, pagadeira, lavradeira, can- 
tadeira (por cantora), nubéla, malcriadeza, desapartar, ó 
destiâmpo (fora do tempo) e desminuir. 



V. Etymologia popular. 

26. Notarei aqui: passa (=passe do comboio), nem 
rei nem roca (Roque), contra facas não ha argumentos. 
Nesta ultima phrase facas, por factos, resulta de factos 
se pronunciar ás vezes faktos. 



C) SYNTAXE 

27. a) Em flagrante apanhei uma vez esta phrase: 
([foi o aquelle» , onde o determina mais o pronome. 

b) Outra phrase, também apanhada em flagrante: 
^sabeis que de mais» (== que mais). 

c) Ouve-se várias vezes : vocês qríêndes. 

d) Com o verbo dever emprega-se de, ex.: «tu debes 
de dizer». 

e) Com quanto não sejão geraes como na Extrema- 
dura (cf. Tlial. extrem., I, pag. 18), todavia tenho ouvido ás 
crianças phrases como estas ; «a giente bámos brincar», 
«a gíèntQ num dançámos». 

VOL. II 5 



()(> REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RI RR IRO 



D) TEXTOS 

A's vezes os romancistas, os dramaturgos, e em ge- 
ral os htteratos, querendo dar ás suas composições certo 
tom local, põem a gente do povo a fallar dialecto (i). 
Pôde pois por aqui lazer- se ideia da falia do povo. Outras 
vezes apparecem mesmo textos mais extensos, embora 
nem sempre com rigor phonetico. A este propósito é in- 
teressante notar que num jornal de caricaturas, do Porto, 
chamado Charivari, ha várias cartas escritas em lingua 
popular, por satyra. O i.° n.° d'esse jornal é de 13 de 
Novembro de 1886; percorri os 109 primeiros números, e 
nelles achei cartas em quasi todos até ao n.° 48 inclusive; 
desse n.° até ao 109. ° não ha nenhuma, e dahi em deante 
não sei, porque não pude obter a collecção (2). Quem falia 
na primeira carta é um cidadão eleitor, que diz ser da Cal- 
laecia, tomando-se aqui Callaecia como synonimo de todo 
o Minho; outras cartas porém são datadas da Penajoia, 
terra que se escolheu de propósito, por ser uma das mui- 
tas no nosso país cujos habitantes são apodados sem dó 
pelos das terras vizinhas (3). O auetor ou auetores das 
cartas, com quanto ás vezes tenham graça, cahiram no 
contra- ^enso de commetter propositadamente erros cie 
orthographia, imaginando que era com elles, e não com a 
transcripção phonetica, rigorosa ou aproximada, da lin- 
guagem vulgar, que ciavam relevo ao dizer do povo! Assim 
se vê lá escrito : d (= ha) ao lado de chrabim, ftençam ao 

(1) A nossa litteratura de cordel é abundante a este respeito. 
Já tenho publicado alguns espécimes, e tenho ainda bastantes para 
publicar. — Por falta de t°mp} não menciono aqui alguns casos em 
romances do Porto. 

(2) Ao meu amigo Rocha Peixoto agradeço o ter-me offerecido 
quatro números. 

(3) Cf. os meus D ict eidos tópicos dç Portugal, pag. 12, ^2Q. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARI. os RIBEIRO 67 

lado de ftasiensia, anus (=^ annos) ao lado de anos, pio- ao 
lado de no, ftasçar ao lado de cunfeso, 11 ao lado de veio, 
vai-ce, ce, du, citio, etc. Um mixtiforio! Ora. claro está 
que não é escrevendo-se du, nu, a, citio, etc., que se re- 
presenta a linguagem do povo, porque toda a gente, culta 
ou não, pronuncia assim. Apesar das incoherencias da 
orthographia e do variado das formas, vê-se que a lin- 
guagem que se tentou representar nestas cartas foi a do 
Kntre-Douro-e-xMinho (i): parciom (— apareciam), min/ião 
(= manhã), onde (= hão-cle), saverom (aliás -óum, — sa- 
berão), vandulho (= bandulho), andom (=andam\ cum- 
firar (=comprar), mões \— mãos), rezom (=razão), sain- 
gue (= sangue), cunfurtarem (= confortarem), num (=não, 
prochtico), venta ge (= vantagem, are. ventagem), urti- 
mas ( — ultimas), etc. Como amostra mais completa, dou 
aqui um fragmento cia primeira carta, que eu annoto em 
alguns pontos : 

«Savendo pur linhas travésas u cuanto Vosunas ís- 
tom (2) resolvidos a defender a jente (3) da nósa calácia 
contra os calumviadores (4) da pulitega (5) reles, eu ve- 
nho umildemente pedir a Vosurias u favor de me conse- 
der (6) um nisquinho (7) du seu jornal pra dizer quatro 
coisas a tal respeito. Im prumeiro (8) lugar tenho a de- 

(1) Se quem escreveu as cartas soubesse que a linguagem da 
Penajoia pertence a outro systema dialectologico diverso do do Baixo- 
Minho, não teria escolhido certamente essa terra para assumpto da 
satyra. 

(2) Aliás stóiim. 

(3) Aliás giênté. 

(4) Desconheço esta forma, que c curiosa, se c authentica. 
(<;) Cfr. § 20- a. 

(6) O povo usa cffectivamente a forma apparentemente impes- 
soal pela pessoal, — isto pelo facto de -em se desnasalar. 

(7) Como quem diz «um cantinho, um bocadito». 

(8) Outra forma irmã de premeiro. Influencia da labial ; cfr. 
§ il-b. 



68 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



zer-le (i) que esti (2) ano a respeito de carneiro cum va- 
tatas nas inleições, (3) — quero quê dele — , nicles (4)! I 
olhe (5) quê (o) foi uma falta de todo-los diavos ; por- 
quê, imfim, (7) eu cá i mais alguns rapazes du éco sempre 
arranjávamos uns 10 testos (8) cada um, i o vandulho (9) 
xeio (10) du tal agnós dei cum elas, acumpanhado (11) com 
um verdasco (12) di xupêta ! Era mesmo um fartòte di alto 
lá cum ele! Mais (13) u quê eu num (14) poso luvar (15) á 
pasiencia, i u quê me leva de todo-los diavos é dezerem 
us priódicos que cá um ómeim (16) cumo eu num tem 
ópiniães (17) pulitegas !». Etc. 

Com um pouco de estudo, e de bom senso no ortho- 
graphar, ficavam aqui uns bellos textos de linguagem 
portuense, e em geral minhota. Claro está que numa or- 
thographia phonetica ou sónica se pôde adoptar u, nu, du, 
etc. (em doe. mss. do sec. xn, em português, tenho 

(1) Em ling. culta, dizer-lhe. 

(2) e final antes de vogal sabe-se que vale i. 

(3) Cfr. § 19-a. 

(4) nicles significa nada. Esta palavra não é mais, quanto a 
mim, que o latim medievel nichil (=nihil), tornado tonikel tonicle 
(cfr. pop. utel =util; arratle, etc.) com a adjuneção do -s que se cos- 
tuma juntar a certos advérbios. 

(ç) E', de certo, erro typographico, talvez por olhe. 

(6) Só se diz quê na pausa, por emphase. 

(7) Cfr. § 19-a. 

(8) =tostões, por zombaria. A forma arch., ainda pop., é tesiòes 
(cfr. fr. testou, it. testone — De testa). 

(9) v—b. 

(10) E' outro exemplo da pouca critica de quem escreveu a 
carta, pois o povo do Norte diz eh e não x. 

(11) Cfr. § j-e. O agnôs =agnus é por graça borrego. 

(12) Por vinho verde. 

(13) Por mas, lat. magis. E muito usado no Norte e em gallego. 

(14) Cfr. § j-e. Isto é, are. nom em próclise. 
(1$) Influencia da labial. Cfr. § 17-b. 

(16) Cfr. § 4. 

(1 7) Cfr. § 9, nota 1. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ()<) 



achado a serio u =o, ctc.) ; mas mantenha-se cohercnte- 
mente essa notação em todo o discurso, — porque o texto 
não é para os olhos, é para os ouvidos e para a intelli- 
gencia. 



E) VOCABULÁRIO 

Aguneie, agonie (agoniar). Por confusão entre os ver- 
bos em — ear e — iar. Derivado de agonia, que vem do 
gr. à^tóvía. — Forma de origem litteraria. 

Alurisma, aneurisma. — A forma intermédia é *aleu- 
risma por dissimilação (1. . . m=n. . . m), onde o eu atono 
foi reduzido a u como em pop. Uropa (=Europa), pop. 
Ulaia (=Eulalia). — Do lat. aneurisma (orig. grega). For- 
ma de origem litteraria. 

Amuntelia, almotolia (na Beira-A. amotolia, etc.) — 
Aqui a nasal provém da influencia do m inicial, como 
em muito, = are. e dial. muito. De origem árabe, almotli, 
por dissimilação de l. . .1. 

Anegrestado, tirante a negro, i. é, escuro. — A palavra 
decompõe-se em a-negr-est-(ado), onde -est é suffixo 
analógico e raro ; cfr. agreste. 

Antre cfonte, antes de ontem. — Assim ouvi a uma 
regateira, mas não sei d'onde era. O s antes de d dá ás 
vezes r, como amor-dois (=amos dois =a?nbos), dêrde 
(=desde), na Estremadura. 

Apàgâr, apagar. — Cfr. pàgdr, onde o a aberto resulta 
da analogia do participio pago. — Formado de a-pagar 
(1. p acare). 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Aquélla, Na phrase : «não me faz aquélla nenhuma», 
1. é, «não me faz transtorno, dúvida, etc.» 

Aultúrio, oArtlinr (arredores do Porto). — A forma in- 
termédia é * Altur por dissimilação ; segundo a regra do 
§ ii-a, ai deu ául (ditongo). 

Averdado, tirante a verde (cor). — Cfr. quanto á forma 
azulado, amarellado, etc. I. é, — a~verd-ado. Do lat. vulg. 
virdis (Schuharclt, Der Vokalismus d. Vulg. u, 415 ; Meyer- 
Lúbke, Gr. der Rom. Spr. 1, § 29). 

Bàgár, vagar. Igualmente : de bàgar. — Aqui o a aberto 
resulta da influencia de bago (= vago) ; cfr. apagar. — Do 
lat. v acare. 

Bergina, Virgínia. — Dissimulação de i. . .i e mudança 
de v em b; e vid. § 20-a. — Forma de origem litteraria. 
— Lat. Virgínia. 

Bolar. Nuns versos populares de Avintes (arredores 
do Porto) diz- se : 

Eu já lhe mandei dar 

Três bolos com três bolares. . . 

donde se vê que bolar é forma pedida pela rima (allite- 
ração), como ha mais casos na nossa lingua. 

Bórts, volta. (Vid. § 11-a). — Do lat. vulg. volta. 
(Meyer-L., Gr., 1, § 325). 

Cangriêna, gangrena. (Vid. § 13-a). — Do lat. g a n- 
graena (orig. gr.). — Forma de origem litteraria. 

Gheminê, chaminé. — A forma popular é que é neste 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 71 



caso a primitiva, pois corresponde im mediatamente ao 
francês cheminée d'onde provém. A forma chaminé resulta 
da outra talvez por analogia com chamma. Em algumas 
partes o povo diz chiiminè por influencia da labial : cfr. 
§ 17-/?. -Digo que a forma vem do Ir., pois, sendo a base 
o b. 1. caminata, não podia c -\- a dar eh em port., o que 
porém ê normal naquella ling. ; cfr. cheval =1. cabal- 
lus, etc. Para a origem vid. Diez, Et. W. , 1, s, v. cami- 
nata. 

Cuoiso, coisa (synonimo de homem, em sentido depre- 
ciativo). — Esta expressão usa-se também no Minho (Viei- 
ra), etc. No jornal O Penafidelense, n.° $62, lè-se, pag. 2: 
«ó coiso, dá cá os parabéns» ; se a memoria me não falha, 
a mesma expressão vem também no opúsculo Os meus 
plágios do Sr. Alves Mendes. — A origem de coisa (cousa) 
é o lat. causa. 

Córla, cólera. Assim ouvi a um individuo. — Do lat. 
cholera. — Cfr. melro e merlo. 

Cunfiêsso, confesso, confissão. — E commum a outras 
regiões. Subst. verbal de confessar, como noutros pon- 
tos batizo (subst.). (Esta palavra, com quanto a eu ouvisse 
no Porto, não sei se é de lá). — As varias línguas roman- 
ces mostram que o etymon de confessar é uma forma lat. 
* confessar e, do supino conjessum. 

Cuntia, quantia. Por intermédio de còntia (cfr. § 7-e), 
que se usa noutras partes; em gall. também contia (Dicc. 
o ali de V. Nunez). 

Cuôrmo, colmo. Vid. § io-c e § n-a. — Do lat. cul- 
m u s. 



/ - 



Cussigo, comsigo. Ex.: «eu binha cussigo» (co-sigo). 

Vid. §7/. 

Custipar, constipar. Vid. § j-f. 

Demióum, Damião. — Cfr. Deniel (=Datiiel), usada na 
Beira- Al ta. 

Desapartar, apartar. — Aqui o prefixo des- reforça a ideia 
fundamental, como em desinquieto (=- inquieto), desinfeliz 
(=infeliz), etc. — Isto é, des-a-part-ar ; o radical é parte. 

Desmenuir, diminuir (pop. deminuir). — A syllaba ini- 
cial de foi substituída analogicamente pelo prefixo des-, 
que contém a ideia de destruir, apoucar, etc, como em 
desbastar, desarranjar, desfazer, e outros. Cfr. desapartar. 

— Do lat. diminuere (cfr. cast. diminuir, ít. dimi- 
nnire). — Forma de origem litteraria. 

Desnucar, deslocar. — Dissimilação das linguo-dentaes. 

— De des- -\- lat. lo c are. Origem litteraria. 

Des t íêmpo, fora do tempo. Ex.: ó destiêmpo. Cfr. a des- 
horas. Vid. desminuir. 

Fueiro, estadulho. — Do lat. funarius. 

Fuligem. Assim se diz no Porto : lat. f u 1 i g o, - i n i s. 
Na Galliza fluje (adj. flnjento) e na Beira -Alta felugem. 

— Se a forma é de origem popular, resta explicar a ma- 
nutenção do / intervocalico. 

Fúôsco, fusco. Ex.: «vidro /mosco». — Do lat. f u s c u s. 

Gaz, nome que se dá também ao petróleo, como na 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 7'j 



Beira-Alta. — Do fr. ga^, que tem origem histórica (vid. 
Brachet, Dict. èlym.fr., s. v.). 

Gómito, vómito. — Do lat. vomitus. Sobre g = v, vid. 
Meyer-L., Gr. der Rom. Spr., i, § 416. — Orig. semi-pop. 

Home, homem. Cfr. § j-d. Muito vulgar no Norte. — 
Do lat. homine (m), através do are. homee. A desnasa- 
lização que aqui se deu, e que nesta e noutras palavras 
semelhantes é vulgarissima no Norte, deu-se também em 
nome (hoje pop. e litter.), que vem do are. nome (no 
cap. iii e xii da Hist. de Vespesiano, sec. xv, se não erro 
typographico, pois apparece muitas vezes nome), do lat. 
*nominem, de nomen, que de neutro passou a 
masc., como também suecedeu com vimen, cTonde o 
port. vimem, que deve ter vindo de *viminem; cfr. cast. 
vimbre e nombre, que não podem vir de vimen e no- 
men, mas só de *vimineme*nominem. 

Inneições (lede íneições), eleições. — No povo do Norte 
o i inicial tende para se nasalar, dizendo-se assim também 
ileições; depois o l foi assimilado á nasal precedente, como 
em are. -co'-no — com lo; no = are. eno = are. em no = 
em lo; are. ate no = até lo. — A forma eleição, do lat. 
electionem, tem cunho semi-litterario. 

Inundear, inundar. Esta forma creio ser privativa do 
poeta Guilherme Braga, que a empregou nas Heras e Vio- 
letas, Porto 1869, nestes versos, pedida pela rima: 

Ai ! nem valeis sequer os grãos de areia 
Que revolve o Simoun e que inundêa 
Dos desertos o Sol. 

Do lat. inundare. Orig. litteraria. 

Invaporar, evaporar. Cfr. § ig-a. — L. evaporare. 
Orig. litter. 



~.\ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

Malcriadeza. má creaçâo. — Formada pelo suírixo -eza, 
que alterna em port. com o sufi. -ez, aquelle do lat. -ília, 
este do lat. -ities, onde -tie deu -z, como em assaz, que 
vem não de 1. ad-satis, como dizem todos, mas do lat. 
a d satiem, que apparece em Juvencus, de s a t i e s, - e i 
(cfr. port. are. az = 1. aciem); esta minha explicação de 
assaz é confirmada pelo cast. assaz (cfr. cast. haz = \. fa- 
ciem); nem o cast. nem o port. podião vir phonetica- 
mente de satis (cfr. port. amaes = \. ama tis), podendo 
vir porém o fr. assez (cfr. aimez = \. amatis), e o prov. 
assatz (cfr. -atz = -a t i s). Ha vários adv. lat. assim forma- 
dos, como admodam, adfatim, etc. , de ad com um aceusa- 
tivo. 

Màór, maior. — Cfr. saote. — Do lat. majorem. 

Máquena, machina. — Do lat. machina. De origem 
litteraria. 

Meduôrra, modorra. — Sobre a etym., que é duvidosa, 
cfr. J. Cornu, Die ftortug. Sftrache, § 121. 

Memo, mesmo. — Só em próclise; nos outros casos 
mesmo. — Da forma are. meesmo = *medesmo (cfr. it. me- 
desimo) = lat. medipsimus (cfr. Meyer-Lúbke, Gram. 
der Rom Sfir., 1, 443; se a origem fosse metiftsimns, o 
d deveria talvez ter-se conservado em port.). 

Méricáno, ou americano, carro-americano. — O e aberto 
resulta da influencia do de América. 

Mulésta, moléstia. —Do lat. moléstia. Origem lit- 
teraria. 

Nubéla, nuvem pequena. — Deminuitivo de nabe (a par 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 75 



de núbia, formas ambas populares no Norte). Do lat. 
nube(m), por meio do suff. -ello. A nasal da forma litt. 
nuvem pôde ter sido por falsa analogia com outros nomes 
em que a formas litt. nasaes correspondem formas popu- 
lares sem nasal, como talvez bágem (pop. bage) que é, 
quanto a mim, supposto primitivo de baginha (assim se 
diz na Beira-A.), do lat. vagina. — Com o nosso pop. 
nube cfr. cást. e ital. nube, fr. nne. —Outros exemplos de 
nasalação adventícia creio estarem em pagem, do fr. page 
e no pop. avem, de ave. 

Pagadeira, pagadora. De pagar. 

Pagar, pagar. — Vid. apagar. 

Penaríz, panaricio. — Do lat. panaricium. Forma 
de origem médica. 

Piêsa, pesa. Ex.: «num se piêsa». — Esta deve ter sido 
a pronúncia geral antigamente, pois ainda hoje se diz 
pêsame e pêsames; a forma pêsame, que se decompõe em 
pêsa-me, foi tomado como subst., e porisso recebeu plural. 
— A gente da Beira-Baixa ouvi também pesa (de pesar, 
no sentido de peso). — Do lat. p e n s a r e. 

Premeiro, primeiro. — Do lat. primarius. 

Prencípio, principio. — Do lat. p r i n c i p i u m. Forma 
de origem litteraria. 

Puôs (vid. § 22). — Quando acima, no § 22, not., dei 
como sendo nova a etymologia de pôr (infinitivo baseado 
em porei = poerei), havia-me escapado que já o Sr. J. 
Cornu a apontara no seu excellente estudo Die portug. 
Sprache, § 296. Os que trabalham com o mesmo methodo 



j6 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



chegam muitas vezes a resultados idênticos, embora in- 
dependentes. Mas julgo de meu dever indicar aqui a prio- 
ridade da observação do meu amigo Sr. Cornu. A mesma 
comprovação que elle dá de moesteiro, tornado mosteiro, 
me tinha a mim occorrido também! 

Queimuôr, calor, que faz queimar . — E' formada seme- 
lhantemente a pintor de pintar (ex.: «o pintor das uvas», 
Norte). Aqui pintor é outra palavra diversa da que pro- 
veiu do lat. pictorem: esta exprime o agente, aquella a 
acção, qualidade, etc). Sobre a etym. vid. Cornu, Die 
port. Spr., § 7 ; e Meyer-Lúbke, Gram. der Romanis- 
chen Sprach., i, 180. 

Queridade, caridade. (Quanto ao som, cfr. meniar — 
manear). Do lat. carita te (m). 

Reflétario, refractário. — O / resulta de dissimilação; o 
e tornou-se aberto por analogia de reflectir, reflexão, etc, 
e não por influencia do c que não existe na pronúncia de 
refractário, palavra moderna e de orig. litteraria (1. r e f r a- 
c t a r i u s) . 

Réins (fem.), rins. — Ex.: «estou hoje com dores nas 
réins». Lat. rene s ; mas houve mudança de género. 

Ruim (monosyll.), ruim. — u attrahiu o i, formando 
ditongo com elle, facto mui vulgar no Baixo-Minho. A 
etym. já dada pelos nossos AA., acceita também por J. 
Cornu, Die. Port. Spr., § 304, é 1. ruina; mas offerece cer- 
tas difficuldades (cfr. arminhar, pop. e are. ; e cfr. cast. 
ruina ao lado de ruin): talvez de uma forma #ruine (}). 

Sáóte, saiote. — Cfr. maor, etc. — Deriv. de saia com 
o suff. -ote. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 77 



Scuitar, escutar. —De escuitar (arc.)=l. v. ascultare 
(1. auscultare). Vid. § 21-a. 

Selatiba, sedativa. Na expressão pharmacologica água 
selativa. Dissimil. de d...t. Formação analógica: *seda- 
tivus (cfr. fr. sédatif). De origem medica. 

Sismátego, scismatico. — Nos esdruxul. o -ico tem ten- 
dência no Norte para mudar- se e -eco {-ego), por ex.: Z) lá- 
tego, asnátego, etc. Vid. § 20-a. — L. schismaticus. 
Origem litteraria. 

Suféca, sufoca. — Assenta em sufecar = *sefucar = 
suffocar = 1. suffocare. Forma de origem littera- 
ria. 

Súme-te, sóme-te. Cfr. também o imperat. are. e pop. 
fuge (litt. foge). Parece que do lat. sumere. 

Suprimiento, supplemento . — O grupo pi dá ás vezes pr. 
Forma moderna. L. supplementum. 

Tife, typho. — Do 1. typhus (orig. grega). — Forma 
litteraria. 

Tizeco, tísico. — Cfr. sismátego. — Também é forma 
moderna. Lat. phthisicus. 

Ua, uma. — Vid. supra, § 23. — Lat. una (cfr. lua = 
1 u n a). 

Ugual, igual. — Cfr. ital. uguale (Assimilação do i de 
iguale au u : vid. Caix, Rivista di Filog. romanza, Ir, 73; 
e Meyer-Lúbke. Gr., 1, § 359). — Do lat, ae q u a li s (i. é, 
e q u a 1 i s) . 



78 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Úrtimo, último. Vid. § \\-a. — Do lat. ultimus. — 
Talvez forma de origem litteraria. 

Viela, travessa, ou rua pequena — Demín. de via. 

Xiculate, ehocolate. —A tórma intermédia é checolale 
que também se ouve algures. — Para a etym. Vid. Dict. 
d'et\m. fr. de Scheler, s. v. chocolat. 



Pelo ditongo -óum nos casos mencionados no § j-a, 
abertura do a nasalado e do a antes de consoantes nasaes, 
pelo som cei, oral e nasal, pela reducção do e inicial + s im- 
puro a s, pela guttural zação das nasaes, juntamente com a 
confusão do b com o v, por certos modos de evitar os 
hiatos, e certos factos de morphologia, phraseado e vo- 
cabulário,— a linguagem do Porto entra no systema ge- 
ral do dialecto iníeramnense (r); pelo modo de tratar o 
ô e o ê, o 011 e o en atonos, e a syllaba constituída por 
vogal -f- /, — íactosque são muito e muito característicos, 
— íaz parte do sub-dialecto baixo-wiinhoto (2); finalmente, 
pelo seu «s e ^ especiaes, além da entonação geral, etc, 
constitue uma variedade nesse sub-dialecto (3). 

Lisboa, Março de 1890. 

J. Leite de Vasconcellos. 



(i) Cfr. os meus Dial. interamnenses, VIII, pg. 23, e Rev. 
Lusit., I, 192. — Chamo dialecto inter amnense ao que se falia no En- 
tre-Douro-e-Minho. 

{2) Cfr. Dial. interamn., VIII, pg. 23. 

(3) Cfr. c Dial. inleramn., VIII, pg. 23-nota. 



CONTRIBUIÇÕES 



PARA A 



FAUNA MALACOLOGICA DA MADEIRA 



II 



A memoria publicada em 1888 no Instituto (1) sobre 
a fauna malacologica da Madeira comprehendia um nu- 
mero bastante limitado de molluscos d'aquelle interes- 
sante grupo de ilhas. O numero de espécies então colligi- 
das acha-se sensivelmente augmentada pelas continuas 
investigações do snr. Ernesto Schmitz, cujo resultado 
agora apresentamos. 

O numero das espécies mencionadas é ainda inferior 
ao que foi indicado por Watson, e assim é de crer, atten- 
dendo ao caracter tão complexo d'esta fauna que progres- 
sivamente mais interessante se nos apresenta sob o ponto 
de vista da distribuição geographica cias espécies, á me- 
dida que novas investigações nos vão fazendo descobrir 
nessas ilhas typos característicos das agoas do mediter- 
râneo e da costa occidental da Africa. 

A dispersão dalgumas espécies é muito notável e as 
modificações que os typos especificos ahi sofírem em re- 
sultado das condições de meio, temperatura, naturesa dos 
terrenos, etc. não o é menos. 



(1) Contribuições para a fauna rnalacologica da Madeira in Ins- 
titui-. 1888. 



8o REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Cremos bem que, assim como os typos específicos, 
que ahi sofircm modificações que os chegam a transfor- 
mar em espécies de transição são muito numerosos, o 
numero de espécies novas também deve ser elevado at- 
tendendo ao suíficiente isolamento d'estas ilhas e á pro- 
fundidade das agoas que as cercam. 

A fauna profunda das agoas circumvisinhas dos Aço- 
res demonstra-o claramente. 

Porto, Junho de 1891. 

Augusto Nobre. 



CEPHALOPODA 



SPIRULIDEOS 

SPIRULA % 
Spirula Peroni, Lk. 

Spirula Peronii, Lk. Anim. s. vert., p. 601, vol. I. 
Hab. Madeira; Porto Santo, no Ilhéu de Baixo. 



GASTEROPODA 



opistobranchiata 

AURICULIDEOS 

PEDIPES 

Pedipes afer, Gmelin (Helix). 

Pedipes qfer, Gmelin. Drouet — Mollusqites des Aço- 
res, p. 25. 
Hab. Madeira. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 8l 



SCAPHANDRIDEOS 
CYLICHNA 

Cylichna cylindracea, Pennant (Bulia). 

Cylichna cylindracea, Penn. — Sars. Moll. Norvegice, 
p. 283, pi. 17. f. 12, Christiania, 1878. 
Hab. Madeira. 

BULLIDEOS 

BULLA 
Bulia ampulla, L. 

Bulia ampulla, L. — Lamarck, Anim. s. vert. vol. VI, 
p. 33. D'Orbigny, Mollusques des Canaries, p. 45. 

Hab. Madeira. Os exemplares que teem sido recolhidos na Madeira 
são inteiramente idênticos aos das costas da ilha de S. Thomé. 

UMBRELLIDEOS 
UMBRELLA 

Umbrella mediterrânea, Lamk. 

Umbrella mediterrânea, Lamk. — Payrandeau, Mollus- 
ques de Corse, p. 92, pi. 4, f. 4. 
Hab. Madeira, rara. 

RINGICULIDEOS 
RINGICULA 

Ringicula conformis, Monterosato. 

Ringicula conformis, Monterosato — J. de Conch., p. 
44. pi. 1 1 f . 4 — Paris, 1877. — Conchiglie medit., 
p. 140, Palermo, 1884. — Morlet, Monogr. g. Ringi- 
cula, Nobre, Contrib. p. fauna da Madeira, p. 16. 

Hab. Bahia do Funchal; recolhida em abundância nas dragagens 
effectuadas n'esta bahia. 

VOL. II 6 



82 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Ringicula Someri, de Folin. 

Ringicula Someri, de Folin, — Morlet, Monogr. du 
gerir e Ringicula mj. de Conch., vol. II. — Nobre, 
Contrib. ft. fauna malac. da Madeira, p. 16. Coim- 
bra, 1889. 
Hab. Dragagens na bahia do Funchal. 



s.-o. — DIOTOCARDIOS 

g.— ZYGOBRANCHIOS 

(dyal.) 

RHIPIDOGLOSSA 

HALIOTIDEOS 

HALIOTIS 

Haliotis tuberculata, L. 

Haliotis tuberculata, L. Hidalgo. Mol. mar. d'Espana 

pi. 29, f. 1-3. —Nobre, Contribuições, p. 11. 
Hab. Funchal, Porto Santo, Desertas. 

EMARGINULA 

Emarginula Sicula, Gray. 

Emarginula reticulata, Risso. 
Hab. Madeira, dragagens no Caniçal. 

DOCOGLOSSA 

TECTURIDEOS 

TECTURA 
Tectura virgínea, Múller. 

Tectura virgínea, Múller (Patella). — Jeffreys, British 
Conchology, pi. 58, f. 4. 
Hab. Funchal. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 83 

PATELLIDEOS 

PATELLA 

Patella vulgata, Lin. 

Patella vulgata, L. Hidalgo, Moluscos mar., pi. 52, 

f. 1-8; pi. 53, f. 7-8. 

Hab. Funchal, Desertas. 

Patella caerulea, Lin. 

Patella ccerulea, L. — Reeve, Conch. icon., pi. 13, 
f. 28. — Hidalgo, Moluscos marinos, pi. 50, f. 1-8; 
pi. 51, f. 1-2. — Nobre — Contribuições, p. 10. 
Hab. Desertas, Funchal. 

Var. subplana, 
Hab. Desertas. 

Var. stellata, 
Hab. Desertas. 

Patella plúmbea, Lk. 

Patella plúmbea, Lk. Anim. sans. vert., vol. I, p. 
Hab. Funchal, Desertas. 

s.-g. Patellastra, Monts. 

Patella lusitanica, Gm. 

Patella lusitanica, Gm. Hidago, Moluscos d' Espana, 

pi. 51. f. 3-8. 
Hab. 

Calyptrsea chinensis, L. 

Var. spirata, 
Hab. Madeira. 



84 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



g. — AZYGOBRANCHIOS 
sec. - CHIASTONEUROS 

(dyal.) 

TURBONIDEOS 

TURBO 

Turbo rugosus, Lin. 

Turbo rugosus, L. Bucq. Dautz. et Dollf., Moll. du 
Rouss. 
Hab. Madeira. 

EUDORA 

Eudora pullus, L. (Turbo). 

Phasianella pullus, Bucq. Dautz. et Dollf., Moll. du 
Rouss., p. 337, pi. 39, f. 1-8, 11-12. Nobre, Con- 
tribuições, p. 11. 
Hab. Funchal, dragagens no Caniçal. 

PHASIANEMA 

Phasianema costatum, Brocchi (Nerita). 

Fossarus costatus, Brocchi, Bucq. Dautz. et Dollfus, 

Moll. du Rouss. 
Hab. Funchal. 

(Continua). 

Augusto Nobre. 



VARIA 



EXPLORAÇÕES ARCHEOLOGICAS 



MEGALITHO DA MAMA DO FURO 

No anno passado tinham-se descoberto nas visinhanças do Cabo 
Mondego, ao poente da estrada municipal da Figueira a Quiaios, duas 
series de monumentos muito interessantes. Uma era formada por alguns 
túmulos ou mammoinhas, que até então se suppunha que não existiriam 
pára o lado do O. da pyramide geodésica de i. a classe, que ha no alto 
da Serra, ao norte de Quiaios. Outra, pelas ruirías soterradas de um po- 
voado, nas proximidades da Amortinheira, entre os dois pequenos vallei 
d' Anta e da Espadaneira. 

Alguns reconhecimentos alli fizemos em outubro, para termos a 
certeza d'estas descobertas; mas, sendo muito trabalhosa e demorada a 
exploração, não a encetámos, por ser a epocha imprópria. 

Foi' só no corrente mez de setembro que abrimos esses trabalhos, 
cujos resultados vamos noticiar ligeiramente. 

Rompeu-se um grande tumalus, em forma de cone troncado, co- 
nhecido pelo nome de Mama do Furo, ao N. magnético de Buarcos, no 
alto da Serra, dois kilometros seguramente ao O. do Casal da Serra, 
nas visinhanças da solitária capellinha de Santo Amaro. Os terrenos 
d'esta região' são baldios, agrestes, cobertos de matto rasteiro e cheios 
de depressões a que os povos da Serra dão o nome de Algarves. 

Começou a excavação do monumento pelo lado de L., justamente 
na mesma direcção da galeria da grande anta das Carniçosas. Depois 
atacou-se verticalmente o centro do cone. O solo, superficialmente, es- 
tava muito compacto e endurecido; mas, á medida que a excavação 
descia, a terra era mais branda e por fim muito solta e pulverulenta. 
No centro descemos até ao solo natural. 

Assim puzémos a descoberto parte d'uma galeria coberta e as ruí- 
nas d'uma camará sepulchral. A parte da galeria tinha i in ,95 de compri- 
mento por cerca de o m ,8 de largura, tira formada por dois supportes 
de grés, orientados a L. O., que sustentavam uma meza delgada da 
mesma rocha. Na mesma direcção, seguindo para a circumferencia do 
tumulo, encontraram se muitos fragmentos de pedra que naturalmente 
faziam parte das lages do resto da galeria. 



86 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Na camará encontraram-se duas grandes lages tombadas do lado do 
norte, um fragmento do lado do sul e uma pequena lage cahida na boc- 
ca da galeria. 

Mas o facto mais interessante, que aliás não nos surprehendeu, foi 
não encontrarmos vestígio algum de ossos humanos nem de objectos 
da primitiva industria. Nada ! Apenas fragmentos de cerâmica moderna 
e alguns carvões que também não nos parecem antigos. Notámos, 
porém, que ao fundo da camará e galeria o entulho estava um pouco 
empastado. 

E não nos surprehendeu aquelle facto, não só porque já assim ha- 
víamos encontrado uma das antas das Carniçosas. mas porque na pró- 
pria região que explorávamos, próximo da referida pyramide geodésica, 
tínhamos achado no tvmulus denominado Mammoinha de José Marques 
os vestigios d'um megalitho sem outros objectos que indicassem o 
homem. 

Um dos nossos trabalhadores disse- nos que lhe constava terem ha 
muitos annos explorado a Mama do Furo, para lhe arrancarem as la- 
ges, umas para mós de moinhos, outras para construcçóes. 

Este facto explica o estado em que encontrámos o monumento; 
mas a ausência de vestígios dlnhumaçóes e da industria primitiva? 
Como explicar que não tivesse apparecido uma esquirola d'osso, ou 
um fragmento da cerâmica nos entulhos- cuidadosamente examinados? 

A resposta é difficil. Mesmo admittindo a hypothese de que os ex- 
ploradores das lages, encontrando uma sepultura, removessem os ossos, 
não é crivei que levassem todos os miúdos fragmentos d'estes e quaes- 
quer outros objectos. 

Entretanto a descoberta do monumento, em si, é já importante, 
como faremos notar opportunamente. 



ruínas da espadaneira 

Dois kilometros aproximadamente para o N. do monumento de que 
acabamos de fallar, demos nas ruínas de umas seis casas. Afloravam o 
solo compacto, de terra vegetal, coberto de matto, que fica próximo 
das altas rochas da Bandeira, entre os dois pequenos valles da Espa- 
daneira e de Anta, umas pedras de pequenas dimensões, de calcareo 
local, formando mui nitidamente figuras quadrangulares, que o relevo 
do terreno em que se achavam mais fazia sobresahir. 

Excavámos o espaço interior d'uma destas figuras, e puzémos a 
descoberto os alicerces de uma casa, feitos só de pedras, a que se dá o 
nome de alvenaria em secco. No entulho, muitas cinzas e carvões, e 
muitos fragmentos de cerâmica. Entre elles, parte do rebordo d'uma 
telha romana. 

Depois fizemos exeavar parte de outra casa semelhante, apparecen- 
do no entulho fortemente concreccionado os carvões e as cinzas, fra- 
gmentos de vasos e uma espécie de prego de ferro, grande, mas extra- 
ordinariamente corroído pela oxydação. 

Em cada uma das casas notámos, no pavimento formado pelo solo 
natural, uma lage assente junto a uma das paredes. 

Estas casas são evidentemente da mesma epocha das ruinas de Porto 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 87 



Saboroso, próximo de Brenha, onde encontrámos uma casa semelhante, 
com fragmentos de vasos também semelhantes e alguns pedaços de 
caliça. 

Os fragmentos de vasos teem todos os caracteres da roda do oleiro, 
e uma restauração que emprehendemos apresenta-nos uma forma sin- 
gularissima. 

Difficil, porém, é por emquanto fazer um juizo sobre estas ruínas. 
Parece não haver duvida que são dos tempos históricos; mas da epocha 
romana, ou posteriores? Alguém se lembrou da Citania de Briteiros; 
mas a cerâmica é differente. Só depois duma exploração em maior es- 
cala e de um estudo detido dos objectos, arriscaremos uma opinião sobre 
este assumpto. 

Figueira da Foz, 17 de setembro de 1890. 

António dos Santos Rocha. 



CORRECÇÃO 



No artigo do numero precedente (pag. 46) intitulado: — Èffects de la semi-domesti- 
cation sur le daim — deve seguir a phrase « contenant un dêpot quaternaire riche en restes 
de vertebrés> ás palavras < 370 métres», da linha 24. 



BIBLIOGRAPHIA 



Communicaçoes da Commissão dos Trabalhos Geológicos 

de Portugal Tomo II —Fase. I — 1888-89 



I — F. Paula e Oliveira — Note sur les ossements humains 
existants dans le ?nusée de la Commission des tra- 
vaux géologiques. 

Este trabalho do nosso fallecido authropologo constitue integral- 
mente o capitulo Anthrofiologie da obra notável do sr. Cartailhac «Les 
Ages Préhistoriques en Espagne et Portugal» e, com algumas modifica- 
ções, a memoria contida no Relatório do Congresso de 1880. 

Já em outra publicação, sob o titulo d'esta Sociedade, nos oceupa- 
mos d'este trabalho prestando minguada e justa homenagem á memoria 
inolvidável do seu auetor, muito trabalhador e muito modesto. Este 
facto e a sua vulgarisação no mundo dos especialistas por intermédio do 
livro do sr. Cartailhac, dispensa-nos a repetição de notas bibliographi- 
cas anteriores a esta nova edição do excellente trabalho de Paula e Oli- 
veira, assim como das conclusões, já bem conhecidas, que dos seus es- 
tudos se inferem como valiosos subsidios para a nossa anthropologia 
prehistorica. 



II — Alfredo Ben-Saude — Note sur une mètéorite fefri- 
que trouvée à S. Julião de {Moreira, prés de Ponte 
de Lima {Portugal). 

Estudo interessante e valioso, pela natureza especial do assumpto 
— a meteorite de S. Julião, primeira estudada em Portugal — e pela 
precisão do methodo, clareza e correcção de analyse bem sabidas nos 
trabalhos do dr. Alfredo Ben-Saude, tão estimados entre nós, quanto 
apreciados entre os especialistas estrangeiros. 

Este estudo foi feito em alguns fragmentos da meteorite (Museu da 
Commissão dos trabalhos geológicos), cujo estado de decomposição 



REVISTA DA SOCIEDADE cari. os RIBEIRO H<) 



faz suppor ao nosso distincto minera logista uma data pouco recente 
para o phenomeno da sua queda. Estudadas as propriedades physicas e 
chimicas do mineral meteórico, em que são notados com notável minú- 
cia, pelo exame microscópico, os caracteres da corrosão pelos ácidos, 
figuras características, propriedades crystallographicas, systemas de 
clivagem, etc, é separado o specimen nos seus elementos (ferro, troi- 
lite, um phosphoreto e graphite), observados quanto ao seu valor chi- 
mico e caracteres especiaes; em seguida conclue o dr. Ben-Saude por 
lhe marcar o logar. que lhe definem as suas propriedades mineralógi- 
cas, nas classificações actualmente mais usadas: grupo (b) de Rose, ho- 
losidero de Daubrée e ferros hexaedricos brechiformes de Brezina. 



III — Dr. Welwitsch — Quelgues notes sur la géologie 
d'cAngola, coordonnées et annotées par ÍM. ^Paul 
Choffat. 

O dr. Welwitsch foi encarregado em i85o pelo governo portuguez 
da exploração scientifica da província de Angola, onde se demorou sete 
annos, passados os quaes. e de volta, se fixou em Londres para estudar 
specimens colhidos nas suas explorações, fallecendo em 1872, sem dei- 
xar completa a sua obra. 

A botânica era o fim principal das suas pesquizas, e os trabalhos 
sobre este ramo da sua especialidade foram publicados nos cAnnaes do 
Concelho Ultramarino — outros colligidos por Bernardino Gomes e A. 
Morelet. Não desprezou, porém, as observações geológicas que, sob a 
fóima de notas, para uso pessoal, o sábio geólogo sr. P. Choffat apre- 
senta n'este seu trabalho, com alguns desenhos originaes de panoramas 
do littoral, perfis e cortes, cujo mérito está — faz notar o sr. Choffat — 
em terem sido executados por um naturalista e não um paisagista, sem 
sacrificar ao pittoresco os caracteres da natureza. 

Estas notas, geralmente sem ligação alguma, teem no entanto o 
valor de procederem de um observador meticuloso, como era Welwi- 
tsch, e innegavelmente úteis a futuros estudos geológicos n'aquella 
nossa província africana. Tendo-as methodisado e annotado, o sr. Chof- 
fat tornou-as um conjuncto ordenado e interessante de observações, pro- 
fusamente esclarecidas com a sua larga competência sobre o assumpto. 



IV — J. F. Nery Delgado — Reconhecimento scientifico 
dos jazigos de mármore e alabastro de Santo Adrião 
e das grutas comprehendidas nos mesmos jazigos. 

Estes jazigos, celebres pela momentânea popularidade na nossa im- 
prensa diária, e mais notáveis ainda pela sua importância industrial, 
constituem uma longa facha de 6 kilometros comprehendida nos distri- 
ctos de Vimioso e Miranda do Douro. Do seu reconhecimento pelo 
nosso eminente geólogo Nery Delgado, resultou a constatação d'esta 
descoberta duplamente valiosa: a pureza dos calcareos crystallinos e 



CO REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIREIRO 



alabastros calcareos em condições de jazido verdadeiramente notáveis, 
e-o valor archeologico das suas grutas, fonte de documentos sempre in- 
teressantes para o nosso passado préhistorico. 

No monte de Ferreiros, ponto culminante d'esta formação, deu-se 
começo ás pesquizas preliminares da exploração dos jazigos. Ahi a eru- 
pção granítica, dobrando as camadas subjacentes do siluriano; concor- 
reu, pela sua acção poderosa de metamorphismo, para o aspecto crystal- 
lino dos calcareos e o caracter maclifero dos schistos. E' nas zonas pró- 
ximas á mancha granítica que se encontram os mármores mais puros 
pela sua fina contextura, de uma côr branca nacarada, excellentes — 
como faz notar o sr. N. Delgado — para ornamentação e estatuária. E' 
este o termo mais alto na escala d'estes mármores, que vão variando 
chromaticamente até ao cinzento-azulado e pardo-amarellado, dispos- 
tos em fachas distinctas, também difFerenciaveis pela sua textura espe- 
cial. 

O alabastro calcareo — a primeira vez descoberto no paiz em jazi- 
gos de importância commercial — precipitou-se da agua que circulava 
pelas fendas, algares e grutas abertas no calcareo por corrosão anterior. 
Ha todas as presumpçóes de que seja vasta a extensão d'estes vazios in- 
teriores, alguns completamente cheios do precioso deposito branco ne- 
buloso, geralmente zonado e sempre de uma translucidez notória. 

A' riqueza d estes jazigos, que o sr. Delgado considera inexgotaveis 
quanto aos mármores, acrescem circumstancias felizes de uma lavra fá- 
cil, e a ausência de mármores no norte do paiz e provindas adjacentes de 
Hespanha. E isto basta para confirmar o valor industrial d'esta formação 
calcarea, cuja importância bem merece como subsidio a attenção dos 
nacionaes e especialmente das artes e industrias respectivas, que alli 
teem um deposito permanente de valiosa matéria prima. 

Descobriram-se já n^sta formação de calcareos quatro grutas, « de 
Ferreiros, gruta Grande, gruta da Ribeira e gruta do Geraldes». Não 
se completou ainda a exploração d'estas grutas, a qual, de accordo com 
as pesquizas em outras estações exhistoricas dos arredores, produziria al- 
guma luz sobre as relações, para o nosso paiz, entre as civilisaçóes neo- 
lithicas, do bronze e proto-historica. 

Na interessante memoria do eminente geólogo são, comtudo, apre- 
sentados desenhos de alguns objectos de pedra e metal, entre os quaes 
resalta pela novidade uma folha de punhal de bronze, proveniente do 
Alto de Pereira, reforçada por um seio longitudinal e ornada com 3 es- 
trias parallelas ao gume. 

(Conclue). 

R. S. 



NOTICIA 



AS CONFERENCIAS DO DR. JÚLIO DE MATTOS 

SOBRE O CASO CHARLES PETIT 
(simples compte-rendu) 



O dr. Júlio de Mattos, illustre presidente da Sociedade Carlos Ri- 
beiro, uma das mais lúcidas figuras do mundo medico portuguez e um 
dos espíritos mais nitidamente formados da moderna geração de psy- 
chiatras, realisou uma série de conferencias sobre Charles Petit, cida- 
dão francez condemnado a uma reclusão penitenciaria de dois annos 
pela responsabilidade moral d'um crime de roubo, seguido de tentativa 
de assassinato. Começou o illustre conferente por declarar que nada o 
surprehendeu a noticia da condemnação, facto banal ainda hoje pela di- 
vergência que se accentua entre os interesses sociaes, filhos da tradicção, 
e as affirmaçÓes medico-legaes, consequência lógica das investigações 
scientificas. Nos centros em que, pela crescente intensidade intellectual, 
as ideias modernas tem uma mais ampla acolhida, em Pariz, na Itália, mãe 
da psychiatria moderna, semelhante facto é ainda hoje vulgar e uma vi- 
ctoria certa para o arbitro dos legistas 

Um simples golpe de-vista sobre as linhas dominantes do crime, um 
exame psychologico geral sobre as circumstancias do roubo, demonstram 
logo uma anomalia moral e a falta, no criminoso, dos dois sentimentos 
que constituem a base moral do homem civilisado e que são uma acqui- 
sição das raças superiores : o sentimento de probidade e o sentimento 
de piedade, respeito da propriedade e respeito do individuo. Estes senti- 
mentos geram-se na marcha ascencional da espécie e, pela sua suprema- 
cia e intensidade, abafam os instinctos dá rapacidade e homicidio. Estes, 
adormecidos no fundo da natureza humana, agitam-se e rugem, filões 
atávicos de uma longinqua existência do crime, e gritam dominando o 
valor dos sentimentos adquiridos, quando uma circumstancia estimulan- 
te faça accordar no homem esses restos da animalidade primitiva. No 
homem normal, as acquisiçóes do civilisado triumpham, os sentimentos 
de equidade manteem-se. 

Para o caso em questão, visto como psychologo, a ausência d'esses 
factores de resistência bastava, a anormalidade moral ficava demonstra- 
da, mas como psychiatra era insuficiente, e a filiação de Charles Petit 
n'uma classificação criminogene impunha-se para ser completa á mono- 
graphia do curioso degenerado. Integrou- o, pois, na classificação de 
Ferri, historiando-a com os vários typos de criminosos que ella compre- 



92 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



hende: predominio das circumstancias criminogenes extrínsecas, typo de 
transição predominio das circumstancias criminogenes intrínsecas. 
Charles Pelit não podia pertencer á primeira cathegoria visto que as 
suas circumstancias de meio lhe eram regularmente favoráveis; vivia 
sem ditficuldades, recebia dinheiro do pae e tinha mesmo de receber 
uma pequena quantia do empregado contra quem attenlára Não era 
também um typo de criminoso profissional. visto que era aquelle o pri- 
meiro crime da sua vida; forçoso era incluilo no typo de Ferri, — cri- 
minogene dos em que predominam as circumstancias intrínsecas : ser 
inferior em que a anomalia psychica é profunda, cm que a influencia 
das causas extrínsecas desempenha um factor insignificante ou nullo. 

O typo humano representa, na sua evolução individual, a philogenese 
da espécie. Na creança dá-se a falta dos sentimentos altruístas que ca- 
racterisam o homem perfeito physiologicamente; são os representantes do 
homem no estado selvagem : correspondem ao período denominado pre- 
moral. Ora no desenvolvimento regular das suas faculdades, passa o 
typo humano por um certo numero de étaftes, períodos de iransicção 
cuja sequencia lógica se encadeia sem perturbações funccionaes no in- 
dividuo normal, e que corresponde, no homem pervertido, a epochas 
criticas durante as quaes n'elle se dá uma excitação manifesta. Charles 
Petit tinha dezeseis annos, período da puberdade, estado de transicção 
para o desabrochar completo dos sentimentos altruístas. Era uma das 
epochas criticas da sua vida de degenerado hereditário: as circumstancias 
intrínsecas deviam gritar n'este período de indecisão physiologica com 
uma intensidade forte ; o terreno preparado por toda uma família de ne- 
vrosados devia surgir agora para a sua acção psychica. Analysando além 
d'isso o período infantil do criminoso vê- se que n'elle, segundo teste- 
munhos de família que devem ser tidos por insuspeitos, vista a ignorância 
dos pães e a curiosa precisão dos documentos que lhes dá um valor de 
documento clinico, se deram crises de ordem convulsionante com allu- 
cinações auditivas. Um dia lançara se pela janella suppondo que o cha- 
mavam da rua. Tguaes accidentes se deram aos três, aos sete e aos dez 
annos do rapaz. Toda a serie de condições physiologícas expressas no do- 
cumento que leu, não podiam consentir n'uma hesitação sobre a classi- 
ficação psychiatrica de Charles Petit: elle era positivamente um dege- 
nerado, e um degenerado hereditário por toda uma serie de documentos 
ancestraes. 

Percorrendo os documentos que dizem respeito á historia mental 
do criminoso, fornecidos pelo notável psychiatra dr. Bettencourt Rodri- 
gues, demonstrou que Charles Petit é um degenerado hereditário, ex- 
plicando-lhe a vasta genealogia mórbida n'um quadro typico em que, 
até aos bisavós, a ascendência vae verificando uma curiosa família de 
desequilibrados. O pae um psychopata, a mãe uma hysterica, avós com 
doenças de peito, loucura circular, estados diathesicos difTerentes, car- 
cinomas, delírio das perseguições. O avô paterno um suicida, o bisavô 
materno morto subitamente aos setenta e dois annos, talvez de uma 
apoplexia ou de qualquer lesão vascular, únicas admittidas em morte 
súbita n'esta edade. com excepção de accidente, o que não consta. Toda 
esta genealogia é typica, os filhos continuam a marcha dos estados dia- 
thesicos n'uma lógica hereditariedade mórbida, o typo pathologico pre- 
domina com toda a serie das consequências funccionaes e com fatalidade 
impositiva das leis orgânicas. 

O typo criminogene de Charles Petit é tão claramente demonstra- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 93 



do, a sua filiação por tal forma segura no encadeamento lógico dos an- 
tepassados, a sua pobre existência geme por tal forma sob o concurso 
de um tão implacável dominio de factores que, no dizer de um illustre 
clinico, elle não devia ser outra coisa e moslrou-se o digno representan- 
te da sua raça. 

Além d'isso ha na historia pregressa de Charles Petitum traumatis- 
mo cuja acção mental modificadora citou em curiosos casos da sua clinica 
e do dr. Magalhães Lemos. Citou também a lei de Morulli sobre o ata- 
vismo psychico dos degenerados ; e fallou de individuos cuja historia an- 
cestral não accusa typos anormaes mas cujo funccionalismo soffre, no 
periodo foetal, a acção das commoções moraes da mãe: o povo parisien- 
se designava enfants dn siége os individuos fracos de espirito gerados 
durante o periodo agitado do cerco. 

E ainda para mais accrescentar á triste herança orgânica de Petit, 
o lúcido conferente citou a lei de António Marco segundo a qual a 
percentagem de individuos anormaes é maior ou menor quando a epo- 
cha de concepção corresponde a períodos diversos da vida dos progeni- 
tores. Ora Charles Petit nasceu quando os pães tinham menos de 26 an- 
nos, edade comprehendida dentro do periodo de immaturidade que, 
dando uma percentagem de i5 por cento de ladrões e 17 por cento de 
alienados, dá apenas 8 por cento de individuos normaes. O reu, pois, 
tal como o destino o empurrou para a vida, não tem, psychicamente 
considerado, nada de extranho. Resta verificar n'elle algumas das gran- 
des leis da criminalogia moderna. 

Referindo-se ás circumstancias especiaes do crime analysadas n'uma 
curiosa auto-biographia do reu, o dr. Júlio de Mattos detalhou com re- 
levo intenso os accidentes do roubo e as suas correspondentes psy- 
chicas 

A não premeditação, a falta de cumplicidade, a serenidade do tra- 
balho, a contagem tranquilla do dinheiro, a sabida para o almoço, a 
volta e o facto impulsivo do roubo, as incoherencias da defeza, taes 
como o ferimento do empregado que aggravava assim a importunidade 
futura, a ida para casa, a lavagem da cabeça com agua fria e o repouso 
final, tudo isto corresponde a phases successivas de uma crise impulsiva 
que foram estudadas com superior critério. Todos estes factos comeis 
dem com a symptomatologia própria. 

Estes symptomas suecedem-se n'um encadeamento lógico, mas de 
intensidade variável segundo os individuos. Ha no primeiro periodo a 
obsessão caracterisada por uma allucinação do mundo real, dominio da 
ideia imposta que invade todo o campo psychico, tortura moral se ain- 
da restam no homem forças de resistência, aniquillação destas forças 
nos casos de anormalidade forte. Era esta a psychicidade de Charles 
Petit no momento do roubo e elle mesmo o confessa na sua auto-bio- 
graphia quando diz: Je riétait fias à mon aise, favais la tête trouble. 
E ainda: // avait en moi Vidée d 'avotr de Vargent à toute force. Idéa 
imposta, estado impulsivo claramente demonstrado. 

Succede a este o periodo de angustia acompanhado de tremores, 
suores frios, lueta travada pelas forças de resistência, forte nos indivi«i 
duos fortes, minima n'aquelles em que uns pallidos factores moraes nem 
quasi se levantam. Tal o caso de Charles Petit: com a ideia de roubar 
no espirito foi fielmente dominado pela obsessão, o seu periodo de an- 
gustia foi pequeno, elle mesmo o confessa quando diz que sentia um 
mal estar ( agacement) pouco pronunciado. Succede a este o periodo 



94 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



denominado de obnublação concomitante com o acto criminoso: ha um 
escurecimento psychico com assistência da consciência — diagnostico 
differencial dos casos de epilepsia em que se manifesta uma amnésia 
completa. Este periodo passou também no drama intimo de Charles Pe- 
tit, a soa face era pallida, o seu braço tremia ao disparar o rewolver 
contra o homem que o perseguiu. 

Se a iucta foi enorme, o allivio eguala-a, o criminoso cahe n'uma 
prostração completa : é vulgar o facto de um assassino dormir profun- 
damente ao pé da victima que elle crivou de facadas. A lucta, minima 
n'este caso, deu uma phase de allivio pouco pronunciada. Charles Pe- 
tit confessa : j'étais accablé de fatigue. Foi para casa, sentiu a necessi- 
dade de molhar a cabeça, estava n'um vago quebranto, e, deitando se, 
não conseguiu adormecer. 

Aqui está a synthese completa dos actos, fatalmente, logicamente 
encadeada no caso em questão o que demonstra de uma maneira posi- 
tiva e indestructivel que Charles Petit é um degenerado hereditário do 
grupo dos impulsivos. O diagnostico especifico veio confirmar eloquen- 
temente o diagnostico hereditário. 

Referiu a theoria de Gall defensora da autonomia das faculdades, a 
reacção violenta que se lhe seguiu enfeixando-as numa solidariedade 
enérgica, a impotência manifesta da intelligencia sobre a vontade larga- 
mente escripta em toda a historia incoherente dos homens do pensa- 
mento, cujos factos de degenerescência moral passou rapidamente em 
revista. E collocando-se n'um campo ecléctico, tracejou a admirável 
theoria das compensações psychicas que encerra tudo o que ha de ver- 
dade na theoria das localisações e na theoria solidaria. As faculdades 
compensam-se : quando uma se impõe as outras esmorecem, se a intel- 
ligencia toma conta do campo psychico, as faculdades affectivas affrou- 
xam e tanto mais quanto a esphera do pensamento se alarga. 

Os homens de espirito são, em geral, destituidos de senso moral, a 
sua emotividade é pallida, as investigações puramente inteliectuaes ex- 
pulsam do campo da actividade cerebral tudo o que não seja gémeo da 
sua anciã. Dizia Madame de Sevigné que estas creaturas eram boas só 
para se verem em estatua. 

E quando as dores os assaltam elles refugiam-se no estudo para 
que o ardor da intelligencia expulse os tumultos do coração: exemplo 
esse caso de Claude Bernard cuja vida foi uma trágica lucta entre o 
culto da sciencia e as imposições mesquinhas da vida pratica. Adquirem 
hábitos de immobilidade, são vacillantes nas decisões da concorrência 
vital, param na duvida como esse eterno exemplo do melancholico Ham- 
let sempre perplexo entre os espinhos da intelligencia e os apellos vãos 
da vontade. E' o typo de Bourget, Adrien Sixte, indeciso nos tourments 
d'idées ; Kant, espantando os burguezes de Koenisberg pelo facto, na 
apparencia banal, de mudar o passeio diário, quando a Revolução Fran- 
ceza constou á sua curiosidade de analysta. 

Entrando no campo pathologico citou o caso dos melancholicos do- 
minados por uma dor moral em que o afrouxamento é determinado por 
um exagero de emotividade, depressão que se manifesta de egual modo 
nas faculdades activas. 

Ora por esta somma de factos fica claramente visto o erro funesto 
dos que consideram são de espirito o homem que tem uma intelligencia 
regular posto que com desvio mais ou menos manifesto das faculdades 
affectivas. Pela theoria do balancement psychico, vê-se que pôde haver 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ()<$ 



um desarranjo profundo no campo emotivo sem um compromisso, por 
menor que seja, nas faculdades intellectuaes — estado pathologico que 
caracterisa esse typo de degenerados envolvidos sobre a designação 
psychiatrica de loucos lucidos. 

Além disso não se dá a menor ideia da significação completa d'um 
homem pelo estudo, ainda que profundo, de uma das faces da sua per- 
sonalidade. Para se estudar a personalidade de Kant não basta catalo- 
gar-lhe as obras da intelligencia, estudal-as independentemente do cére- 
bro que as creou : é preciso ver como as impressões, as emoções deter- 
minaram n'aquelle espirito a reacção de que os livros são o produeto, é 
preciso analysar a eclosão das suas theonas pelo conhecimento da vi- 
bração especial de todas as faculdades, ver como todo o homem produ- 
ziu toda a obra. 

Ora representando a loucura moral um compromisso da personali- 
dade, pretender cural-a é pretender modificar radicalmente a persona- 
lidade, fazer de um homem outro. Charles Petit pertencendo a este gru- 
po de desequilibrados, para dar d'elle e dos seus actos uma ideia com- 
pleta, é preciso estudal-o em todos os accidentes em que as suas facul- 
dades se manifestam, em todas as anomalias das suas funeções physiolo- 
gicas e no estudo dos seus desvios anatómicos. 

Sendo a loucura lúcida uma doença geral, o exame psychico não 
basta, é preciso recorrer ás investigações somáticas e anlhropologicas: na 
paralysia geral dá-se uma decadência em massa das faculdades intelle- 
ctuaes, esta ás vezes suspende-se, o doente analysado psychicamente 
melhorou, mas a doença progride e a morte é inevitável. Sem estudo 
somático, pois, só se pôde suspeitar mas nunca diagnosticar. 

Para o exame somático foi o corpo de Petit dividido em regiões 
homologas verificando-se anomalias de sensibilidade. Tem um estreita- 
mento manifesto do campo visual, ties nervosos faciaes e nos hombros, 
symptoma futuro de todas as creaturas que sofFreram nevroses convul- 
sivas e, além disso, carie precoce nos dentes. 

No exame anthropologico foram verificadas as assymetrias— desvio 
do typo normal que não o levam nem aostyposancestraes nem ás defor- 
mações denominadas teratologicas: são a desigual repartição da sensibi- 
lidade e o enfraquecimento muscular. 

As medidas craneologicas para a determinação do typo craneano 
declaram- no rasgadamente brachycephalo; quanto ao angulo facial, pos- 
to não quizesse exagerar o valor dado a esta medida, é certo, disse, que 
elle era tão importante como a historia ancestral, e tem por fim deter- 
minar as relações entre o craneo e a face. 

Explicou-o pois, e as variantes que resultam do seu maior ou me- 
nor abaixamento; mostrou um craneo normal comparando-o com os 
typos pathologicos e ainda com a celebre cabeça da microcephala Bem- 
vinda, um dos exemplos typicos de microcephalia, cujo busto em gesso 
foi mandado pelo dr. Sousa Martins. 

O angulo facial de Charles Petit, dada a ausência do prognatismo, 
é bastante agudo pois mede apenas 71. 

Como conclusão d'este feixe de observações medico -legaes, per- 
gunta se: porque é que Charles Petit foi condemnado? Em que se ba- 
seou a lei para a reclusão em dois annos na Penitenciaria? O que signi- 
fica esta prisão temporária? 

O problema medico-legai reduz-se a um simples problema de dia- 
gnostico : cifra-se em dizer a espécie de doença do criminoso, reduz-se 



QÔ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



á sua integração n'um grupo criminogene. Ora já ficou cabalmente de- 
monstrada a irresponsabilidade do reu pela classificação em que elle foi 
incluído; disse-se que elle era um alienado involuntário do grupo dos 
impulsivos passando por uma serie de phases lucidamente expostas nas 
conferencias. E o alienado impulsivo é, para todos os psychopatas, o typo 
do alienado irresponsável. 

Foi, pois condemnado pela applicaçáo do art. 26 do código penal? 
Mas esse artigo apenas declara irresponsáveis os criminosos em que ha 
uma accusada perturbação da intelligencia e Charles Petit é rasoavel- 
mente lúcido. O art. 114 não lhe pôde ser applicado porque a luci- 
dez desappareceu no acto do crime. Charles Petit, disse se, foi condem- 
nado em nome do alto principio da defeza social, foi uma sequestração 
temporária que, como o demonstrou o íllustre alienista é absolutamen- 
te pueril, visto o caracter incurável d'esta espécie de doenças moraes. 
A sociedade deve detender-se, mas esta defeza é fútil no caso dos im- 
pulsivos porque as recidivas hão-de fatalmente dar-se e as reclusões 
temporárias não obstam a que se repitam. Charles Petit tem 17 annos, 
aos 19 está livre, volta ao meio da sociedade armado das mesmas im- 
pulsões, obrigado pelas mesmas crises. Peior talvez attendendo aos seus 
hábitos solitários, á alimentação deficiente das cadeias e á exasperação 
que o systema penitenciário provoque nos seus nervos doentes. 

Terminou o dr. Júlio de Mattos dizendo que não é escondendo as 
differenças entre a sciencia e a lei que se resolvem as questões d'esta 
natureza, mas pelo auxilio reciproco e pela aclaração das suas divergên- 
cias, pelo estudo das suas relacionações e das questões que mutuamen- 
te se tratam. Concluiu pela necessidade de um manicomio criminal com 
todas as condições indispensáveis em estabelecimentos d'esta ordem, 
creação d'uma alta urgência e que de vez acaba com a difficuldade da 
resolução criminal e com a injustiça e inconsequência das condemna- 
ções. 

Em todas as phases das admiráveis conferencias, o dr. Júlio de Mat- 
tos foi de uma clareza e d'uma precisão verdadeiramente notáveis. O 
seu espirito lucidissimo illuminou brilhantemente essa extranha perso- 
nalidade mórbida, fazendo-lhe destacar a linha de degenerescência com 
uma precisão cheia de vigor e com uma eloquência cheia de drama. 
No estudo d'essa lucta tremenda entre a animalidade criminosa e a es- 
piritualidade redemptora, a sua expressão era elevada, quente, vaga- 
mente febril fazendo-nos lembrar pela sua intensidade evocativa, essas 
paginas que Zola faz estremecer tragicamente, quando arrasta o pobre 
Jacques á beira de um talude por uma noite impassivel, luctando tam- 
bém na angustia contra a obsessão, e accusando toda uma vasta genea- 
logia de criminosos. 

A lucidez da sua exposição e o espirito suggestivo que encheu as 
suas conferencias, acharam echo sympathico em todos os novos que o 
ouviram, e sempre o notável alienista encontrará uma acolhida enthu- 
siasta nos rapazes desejosos de aprenderem nas suas lições tão cheias de 
elevada sciencia e tão interessantes de questões actuaes. 

J. B. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

(Propaganda daa sciencias naturaes c sociaes em Portugal) 



A Sogbedade Caruds Rjbeiro tem recebido as seguin- 
tes publicações, cTalgumas das quacs se oçcupará na sec- 
ção bibliographica da sua Revista: 

Martins Sarmento— Os argonautas, 8.°, 292 pag. e 2 map. Porto, 1887. 
Sociedade Martins Sarmento — Catalogo da Bibliotheca publica de 
Guimarães, 8.° r 5i7 pag. Porto, 1888. 

— Relatório e estatutos. Porto, i883. 

— Relatório da direcção. Porto, i885. 

— Relatório da Exposição industrial de Guimarães em 1884, 8.°, 2 55 

pag. Porto, 1884. 
P. de Loriol — Description de la faune r jurassique du Portugal. Em- 

branchement des echinadermes -.—Echnides irréguliers ou exoey- 

cliques, 4. , 179 pag., XXVI pi. Lisbonne, 1890. 
Estagio da Veiga — Antiguidades monumentaes do Algarve. Tempos 

prehistoricos, toms. III e IV. 2 gros. vol. com num pi. Lisboa, 

1889-1891. 

— Carta archeologica do Algarve. Lisboa, 1889. 

— Programma para a instituição dos estudos archeologicos em Por- 

tugal, 8.°, 16 pag. Lisboa, 1890. 
Paul Choffat — Espagne et Portugal (extrait de YAnnuaire Géologi- 
que universel, tom. VI), 8.°, 19 pag. Paris, 1891. 

— Passeio geológico de Lisboa a Leiria, 8°, 5i pag. Lisboa, 1891. 
Joaquim de Vasconcellos — A fabrica de faianças das Caldas da Rai- 
nha, 16.°, 16 pag. Porto, 1891. 

H. Pittier — Apuntaciones sobre el clima y geografia de la República 
de Costa Rica, 8.°, 41 pag. San José da Costa Rica, 1890. 

Academia Polytechnica do Porto — Catalogo do gabinete de minera- 
logia, geologia e paleontologia, 8.°, 45 pag. Porto, 1891. 

Rutot et Van den Broeck — Communications sur la carte géologique 
détaillée comme base de la carte agronomique de la Hei gi que, 
8.° grand., 29 pag. Bruxelles, 1891. 

Júlio de Castilho— Apontamentos pa.ra o elogio histórico de Vilhena 
Barboza, 4. , 36 pag. Lisboa, 1891. 

Dr. R. Verneau — Les races humaines, 4.°peq., fase. i.°, numer. grav. 
Paris, 1891. 

Lacroix-Danliard — La plume des oiseaux, in-16. , 35o pag., 100 fig. 
Paris, 1891. 

A. Michalski — Die Ammoniten der unteren Volga-stufe, 4.?, 33o pag. 
e XIII pi. (ex. des Mémoires du Comité géologique) St. Peters- 
bourg, 1890. 



Revista de Guimarães, tom. I (n. os i-3), II-VII e n. os i-3 dotom. VIII. 
Porto, 1891. 

Revista do Minho (para o estudo do Folk-lore), tom. VI, n. os 1-18 e 
tom. VII, n. 08 1-9. Espozende, 1891. 

Revista de obras publicas* e minas, tom. XXII, n. os 255-258, Lis- 
boa, 1891. 

Revista dos lyceus, tom. I, n.° 1. Porto, 189 1. 



O Instituto, tom. XXXVIII, n. os 8-12. Coimbra, 1891. 
Boletim do Atheneu Cammèrciãl do Porto, tom. 1, n. os 1-2. Porto, 1891. 
Revtte de VEcole a" Anthrofologie de Paris, vol. I, n.° s i-5 e 7-8. Pa- 
ris, 1891. 
Revue scientifiquè, tom. 47, n. os i5-26 e tom. 48, n. os 1-8. Paris, 1891. 
Revue des iraditions populaires, tom. VI, n.° 4. Paris, 1891. 
Feuille des jantes natur alistes, tom. XXI, n. os 242-250, Paris, 1891. 
Me! usine, tom V, n. os 9-T0. Paris, 1891. 
Bulletin de la Société vaudoise des sciences naticrelles, vol. XXVII, 

n.° iô3. L;msanne, 1891. 
Bulletin de la Société belge de microscopie, tom. XVII, n.' s 5-9. 

Bruxelles, 1891. 
Bollelino dei Real Comitato geológico á Itália, vol. II, n.° 1. Roma, 

1891. 
Verhandlungen der Berlihér CiesellschaftfurAnthropologie, Ellinolo- 

oie und Urgeschichte, n. os de janeiro-abril. Berlin, 1891. 
The journal of the anthropological instituto of Great c Britain and 

Irei and, vol. XX, n.° 4. Lòndon, 1891. 
Abstracts of the proceedings of the Geological Society of London, n. os 

562-567. London, ,1891. 
Bulletin de Vlnstitut Égyptien, sér. 3. a , n.° 1. Le Caire, 1891. 
Records of the geological survey of New South Walles, part. I-II, 

vol. II. Sydhey, 1890. 
The proceedings of the Linnean Society of Nevj South Walles, vol. IV, 

part. 3-4"e vol. V, part. I. Sydney, 1890-91. 
Annales de la Société belge de microscopie, tom. XV. Bruxelles, 1891. 
The american anthropologist, tom. IV, n.° 1 , Washington, 1891. 
Bulletin de la Société belge de géologie, paleontologie et hydrologie, 

tom. V, fase. I. Bruxelles, 1891. 

"revista de sciencias nãturãês "Ê"sõãÃÊs~~ 

Publicação da Sociedade Carlos Ribeiro 

CONDIÇÕES DE PUBLICAÇÃO 

A T^evista sahirá regularmente quatro vezes por anno em fascicu- 
los de 48 pag., 8.° 

Portugal — Anno ou serie de 4 números. . i$20o reis 
Numero avulso. . . . . . 3oo » 

Paizes comprehendidos na União postal: 

Anno. 8 fr. 

Numero avulso. ...... 2 » 

Para os outros paizes não fazendo parte da União aceresce o porte 
do correio. 

ULTIMAS PUBLICAÇÕES 

DA 

LIVRARIA J. B. BAILLIÈRE &. FILS 

iç, rue Hautefeuille — Paris 

Les races humaines, pelo dr. R. Vemeau, preparador no labo- 
ratório de anthropologia do Muséum de Paris, com um prefacio de 
c/4. De Qualrefages, professor de anthropologia no Museu. Um vol. 
in-8.°, 750 pag. e 550 fig. . ... 1 1 fr. 

La plume des oiseaux, histoire naturelle et industrielle, par La- 
croix-Danliard, 1 vol. in-16, 350 pag. e 100 fig. . . ... 4 fr. 





REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



ÓRGÃO DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Publicação trimestral 



"Directores — RICARDO SEVERO e "ROCHA PEIXOTO 



Yolume Segundo — H£ 7 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
80, Rua da Fabrica, 8o 

1892 



'«• 



S UM MÁRIO 



MEMORIAS ORIGINAER 

• \ tatuagem em Portugal, por Rocha Peixoto. . . . pag. 97 
'Pequenas hachas de pedra das estações neolithicas do con- 
celho da Figueira, por Santos Rocha pag. 112 

VARIA 

Os trabalhos paleoethnologicos no Algarve, do snr. Esta- 
do da Veiga, por R. S pag. 126 

Um vaso romano de barro cosido, por R. S pag. i3o 

BIBLIOGRAPHIA 

Communi cações da Commissão dos Trabalhos Geológicos, 

por R. S pag. i32 

5\£ota sobre os cephalopodes de Portugal, de Albert Gi- 

rard, por R. P .//;;/ . . . . " . pag. 1 35 

Etudes maritimes, de Paul Sébillot, por R. P. . . . pag. 1 35 

'Passeio geológico de Lisboa a Leiria, de Paul Choffat, 

por R. P. "...... . ..... pag. i36 

Sur les plus anciennes Dicolylées européennes observées 
dans le gisement de Cercal, en Portugal, de G. de 
Saporta, por R. P pag. 1 36 

Description de la faune jurassique dn Portugal, de P. de 

Loriol, por R. P pag. 1 36 

NOTICIAS 

museu agrícola e florestal de Lisboa, por R. S. . . pag. 1 38 

O museu de mineralogia, geologia e paleontologia da 

ckç.ademia Polytechnica do Porto, por R. S. / . . pag. 139 

OS MORTOS 

Ignacio de Vilhena Barbosa, por R. S. . . ... . . pag. 142 

'IBorges de Figueiredo, por R. S pag 143 

Estacio da Veiga pag. 144 

GRAVURA 

Um vaso romano de barro cosido pag- i3o 



A TATUAGEM EM PORTUGAL 



Para esta noticia acerca da tatuagem em Portugal 
dispuz, proximamente, de duas centenas de materiaes col- 
ligidos quer directamente, quer por intermédio de alguns 
collaboradores que, com uma solicita obsequiosidade, 
quizeram satisfazer ás perguntas exaradas num questioná- 
rio que distribuí. Na nossa litteratura medica escasseiam, 
como se sabe, referencias a esta e a outras ordens de 
mutilações, encontrando-se apenas nos trabalhos do snr. 
A. A. Castello Branco alguns elementos de valor e prés- 
timo ; são pois novos, na quasi generalidade, os docu- 
mentos apresentados. A ordem d'este estudo é a adoptada 
pelos anthropologistas que, sobre o assumpto, escreveram 
excellentes monographias e de tal sorte que, na cathego- 
ria especial que nos occupa — tatuagem por picadas — a 
deixaram quasi exgottada. E especialmente nos trabalhos 
de Berchon, Lacassagne e Lombroso onde se encontram 
os mais completos subsídios sobre a interessante mutila- 
ção a que esta nota se reporta, não só quanto á parte des- 
criptiva mas ainda á sua interpretação anthropologica. 

O esboço histórico do primeiro capitulo, talvez dis- 
pensável se este escripto fosse apenas destinado aos fami- 
liarisados com semelhantes estudos, pouco mais é do que 
a reproducção d'uma insignificante parcella dos factos 

7 



C)S REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



numerosos em que abundam os trabalhos dos médicos 
referidos ; na parte exclusivamente comparativa insiste-se, 
naturalmente, sobre as fundas analogias da nossa tatua- 
gem com a de outras populações; por ultimo, uma nota 
bibliographica íinal dispensa as chamadas frequentes e 
instrue todo o que, desconhecendo esta parte da httera- 
tura anthropologica, a queira estudar ou consultar. 

Cumpre deixar assignalado um grato reconhecimento 
aos snrs. Eduardo Moura, Fonseca Cardozo, João Bar- 
reira, Nunes de Oliveira, Pinto Rolla e Santos Rocha, 
que especialmente me forneceram os materiaes mais úteis, 
bem como ao snr. Eduardo Fernandes Pinto a quem devo 
magníficos serviços pelo desvelo que pôz na execução e 
exactidão das gravuras. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO ÇÇ 



ANTIGUIDADE, PERPETUIDADE E UNIVERSALIDADE DA TATUAGEM 



Definição da tatuagem e seu logar no quadro das mutilações ethnicas. Os primeiros vestí- 
gios na pre e na protohistoria : Bélgica, França e Portugal. Fins da tatuagem ; sua 
significação como característica de raças, de religiões, de seitas, de castas e de ins- 
tituições. A tatuagem e a medicina legal. Expansão geographica. 



No quadro das mutilações ethnicas — cephalicas, fa- 
ciaes, dentarias, genitaes e cutâneas — estas ultimas, pela 
variedade dos seus processos, generalisação e persistência, 
oceupam talvez o logar de maior evidencia. Tal prática, 
que consiste em imprimir na pelle desenhos ou signaes 
traduzindo toda a sorte de ideias ou sentimentos, é aceu- 
sada provavelmente desde os tempos prehistoricos e attes- 
tada das epochas protohistoricas até hoje. Nas estações so- 
lutreannas e especialmente nas grutas magdaleneannas de 
Chaleux (Bélgica) e Mongodier e Eyzies (França) encon- 
traram-se, juntos a fragmentos de limonite, peroxydo de 
ferro hydratado e outras substancias capazes de produzi- 
rem cor, objectos cuja forma inculca esse uso, corrobo- 
rado ainda mais tarde com a similitude d'outros que, para 
eguaes intenções, possuíam e possuem varias tribus ame- 
ricanas. A existência de vários minérios de ferro (hematite 
e limonite), que foram utilisados pelo troglodyta da nossa 
gruta da Furninha em colorir alguns dos vasos encontra- 
dos n'esta estação quaternária, pôde fazer suspeitar, na 
opinião do snr. Nery Delgado e em virtude da sua asso- 
ciação com objectos caracteristicos, que esses homens tam- 
bém cobriam a pelle com desenhos. As mais antigas se- 
pulturas egypcias encerram puneções e agulhas de ferro 



lOO REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



finíssimas juntas á plombagina, então adoptada como 
substancia corante. 

Entre os povos da antiguidade, de que existem noti- 
cias escriptas, a tatuagem assignalava não só os homens da 
mesma origem, mas até seitas, castas, escravos, soldados 
e vencidos. Os aryas, segundo a affirmativa de Tácito re- 
produzida por Lacassagne, adoptaram a coração negra 
da pelle para denunciar maior ferocidade; os pictos tiram 
o nome do uso de pinturas no corpo, distinctivas de raça. 
Dentre os povos que adoptavam desenhos caracteristicos 
de seitas citam-se os assyrios que prestavam culto á 
mesma deusa ; os phenicios com o signal da sua divin- 
dade gravada na testa; as antigas mulheres da Bretanha; 
os judeus convertidos á religião de Baccho ; os primeiros 
christãos que desenhavam a cruz ou o monogramma de 
Christo e que, a despeito de numerosas prohibições desde 
Moysés no Levitico até ás decisões ulteriores dos padres 
e dos concílios, que condemnavam taes signaes como ves- 
tígios de iniciações pagãs, continuaram a tatuar-se, vigo- 
rando ainda hoje o costume em Jerusalém e vários loga- 
res da Itália; certas tribus semiticas algumas das quaes, 
ao deante, se converteram ao mahometísmo. 

Nos thracios a tatuagem indicava uma ascendência 
nobre, facto excepcional pois que em quasi todos os ou- 
tros povos era indicio de escravidão ou origem plebeia. 
Os athenienses, vencidos pelos habitantes de Samos, fo- 
ram marcados por estes com ferro em braza ; mais tarde, 
já vencedores os soldados de Athenas, impozeram aos 
adversários uma tatuagem indicativa da sua victoria. As 
mulheres thracias procuravam disfarçar as marcas infa- 
mantes que lhes haviam imposto as scythas, modifican- 
do -as sob um pretexto de belleza; nas guerras da Pérsia 
e da Grécia os exércitos ás ordens de Alexandre e de Xer- 
xes tatuavam os prisioneiros. 

Velhos monarchas adoptaram signaes especiaes com 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 101 



que distinguiam os escravos; egualmente e por vingança, 
como nota indelével c humilhante, uma certa tatuagem 
denunciava o que cahira no desagrado dum rei. A dois 
monges que haviam censurado o furor iconoclasta do im- 
perador Theophilo mandara este imprimir na testa onze 
versos jambicos ; Philippe de Macedónia, a quem um sol- 
dado havia solicitado a propriedade dum homem que 
salvara cTum naufrágio, ordenou que lhe desenhassem na 
fronte os signaes indicativos d'esta avidez torpe ; Calígula, 
sem motivo, mandava tatuar os romanos nobres. 

No período da decadência de Roma a tatuagem teve 
uma grande expansão. Lçis regulamentares prescreviam 
os signaes adoptados cuja existência provava a inscripção 
definitiva nas fileiras e sobre as quaes se fazia o juramento 
militar. O intento d'esta ordenança, que vigorou ciinda 
por bastante tempo, era análogo ao que justificava os de- 
senhos nos escravos visto que, já degenerado o espirito 
civico do povo, o exercito se constituía então de homens 
mercenários os quaes, se fugissem, deveriam portanto ser 
reconhecidos, perseguidos e prezos. Ainda recentemente 
esta prática, mas como indicio de virilidade, adoptavam 
os soldados do exercito piemontez. 

A tatuagem distinguiu pois, em todos os logares e 
em todas as épocas, os membros -da mesma raça ou reli- 
gião, de castas, de instituições e de sociedades ; os capti- 
vos e os condemnados, os sacrílegos e os delatores; ta- 
tuava-se para exprimir a vaidade, a humilhação, o luto e 
o martyrio; como astúcia de guerra e como meio de 
transmissão de correspondência e de segredos ; symbolo 
de paixões e representação litteral ou ideographica dos 
mais diversos sentimentos humanos. Obedeça esta prática 
a uma influencia atávica ou apenas documente as tendên- 
cias fetichistas do espirito do homem, a tatuagem, com 
os seus processos operatórios múltiplos e as intenções 
mais distinctas e oppostas prevaleceu, em todos os povos 



102 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



e atravez do tempo, com a desegual frequência natural- 
mente derivada do grau de civilisação. É fácil encontrar, 
na historia moderna das populações europeias, referencias 
a este habito realisado em todas as epochas ; o estigma 
dos condemnados em vários códigos europeus, as marcas 
das sociedades franco-maçonicas e d'outras instituições 
secretas, os emblemas proflssionaes, isoladamente ou dis- 
tinguindo os membros de varias associações de officios, 
os soldados da marinha e do exercito, emfim, contribui- 
ram intensamente para a perpetuidade da mutilação. 

Mais, porém, que todos estes, os criminosos, pela 
necessidade instinctiva de manifestarem as suas paixões, 
os estados de espirito e os acontecimentos mais celebres 
da sua existência, concorreram para a persistência e mul- 
tiplicidade da tatuagem, factos, de resto, favorecidos 
ainda com a quasi insensibilidade que os delinquentes 
teem para a dor. Do seu numero, natureza e sede collige 
actualmente a anthropologia criminal subsídios de valor 
além de representarem, em medicina legal, um meio 
quasi sempre seguro e efficaz de constatação da identi- 
dade individual. 

Outrora a tatuagem serviu já como signal de reco- 
nhecimento ; na tradição figura o caso de Habis, um dos 
primeiros reis da Ibéria, que, votado a perigos fabulosos 
por um seu avô, foi d'est'arte e mais tarde reconheci- 
do. Analogamente nos hospícios dos expostos se marca- 
vam estes para, de futuro, poderem ser reclamados pelos 
pães. 

A actual expansão geographica da tatuagem, no caso 
restricto da sua execução por agulhas, é resumida por Ma- 
gitot do modo seguinte : 

Polynesia, excepção da Nova Zelândia ; ilhas Marque- 
zas, fora Rapa ; ilhas das Paschoas ; Micronésia ; Nova 
Guiné; os dayaks de Borneo. 

Na oAmerica meridional: os charruas e as tribus do 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO i'>; 



Gran Chaco ; os guaranis do Brazil ; os pampeanos c os 
patagões. 

Os pellcs vermelhas na oAmerica do norte. 

Na oAfrica os kabylas, os árabes, os egypcios, os 
niam-niam, os senegambianos e as povoações cias mar- 
gens do Senegal. 

Na oAsia : os seng-li da ilha Hainam ; os chin-ham, 
antigos povos da Coreia ; os baitos e os uen-chin do Ja- 
pão, das Kurilhas e das Aleoutiannas ; os antigos annami- 
tas ; os habitantes da Formosa ; os uen-mien-po, povo 
bárbaro do sudoeste do império chinez. 

Por ultimo todos os da Europa, ou simples ou mixtas. 

Póde-se afíirmar <i universalidade da tatuagem sa- 
bendo-se que, sob outros methodos operatórios, é prati- 
cada nas restantes partes do globo. De sorte que, se a 
circumeisão attingiu, pelos motivos conhecidos, um nu- 
mero de individuos que hoje quasi seria impossivel cal- 
cular, a mutilação que nos oceupa é incont.roversamente 
a mais espalhada e sel-o-ha por muito tempo apesar do 
decrescimento que dia a dia se vae registrando. 



II 



ANATOMIA, PHYSIOLOGIA E PATHOLOGIA DA TATUAGEM 

O processo operatório ; instrumentos e substancias corantes. Sede anatómica. Consequências 
pathologicas da mutilação; sua therapeulica popular. A tatuagem como transmissora 
de virus. A indelebilidade da tatuagem ou dos seus vestigios provada pelas conse- 
quências physiologicas da operação. Tópicos em uso para a destruição dos desenhos 
e sua inefficacia. 

O processo operatório ordinariamente seguido entre 
nós não differe do adoptado em todos os outros paizes 



K>.| REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



europeus, no caso da tatuagem executada com agulhas, 
única que nos importa. A operação é realisada ou por 
curiosos ou operadores que geralmente existem nas ca- 
deias, nos quartéis e nas populações marítimas. Com três 
agulhas solidamente fixas a um pequeno cabo cie madeira 
ou simplesmente ligadas e unidas por um fio, e tinta da 
China, de escrever ou carvão triturado e em suspensão na 
agua, tem o operador com que levar a efíeito a prática. 
A figura, cuja sede é extremamente variável — mãos, 
ante-braço, braço, peito, costas, abdómen, verga, náde- 
gas, pernas e pés — ou se desenha previamente ou é pra- 
ticada directamente com as agulhas na região escolhida. 
N'um e noutro caso a applicação do instrumento faz-se 
por picadas dirigidas obliqua ou perpendicularmente e 
p r ecedidas duma immersão no liquido corante. As partes 
mais escuras ou os traços mais duros obteem-se repicando 
os contornos primitivos. 

Este methodo, que é o mais geral, differiu todavia 
para alguns tatuados ; o contacto com os operadores de 
íóra, e nomeadamente do Brazil, modificou a applicação do 
processo ou a adopção da substancia corante. N'aquelle 
paiz encontra o nosso marinheiro padrões já desenhados 
em pranchetas de madeira onde os contornos das figuras 
são cobertos de pontas de aço, dando assim logar a exe- 
cutar-se a operação duma vez só; as substancias coran- 
tes apontadas são também substituídas frequentemente 
pela pólvora triturada ou pelo azul de brunideira. O ope- 
rado pôde escolher a cor e o ornato desejado, sobretudo 
entre aquelles que teem já figurados n'um álbum os de- 
senhos que podem realisar. 

A viveza e duração da tatuagem promanam de cir- 
cumstancias múltiplas d'entre as quaes convém enumerar 
a grossura das agulhas, o sentido da sua introducção, a 
multiplicidade das picadas, a profundidade que alcançam 
no tecido tegumentar, a finura cutânea e a natureza da 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 105 



substancia. Geralmente as agulhas penetram nas cama- 
das mais profundas da derme visto que uma tatuagem 
simplesmente sob-epidermica seria de pequena duração. 
E tam convencidos d'este facto estão, de resto, certos 
operadores que, para que o desenho seja inapagavel, fa- 
zem penetrar as agulhas perpendicularmente até, muitas 
vezes, aos ganglios lymphaticos. 

A introducção das agulhas é seguida duma irritação 
mais ou menos incommoda a que suecedem tumefacções 
que se prolongam diversamente segundo o grau de sen- 
sibilidade do tatuado. Uma pequena serosidade sangui- 
nea surge e a absorpção das partículas corantes comple- 
ta- se então. Para impedir a inflam mação e a febre, mesmo 
quando aquella é irritante, o -operado adopta como tópico 
a saliva ou a urina, sendo manifesto que nada remedeia 
com tal therapeutica. Quinze dias passados, quando 
muito, estão extinctos os vestígios da irritação passageira 
que a operação provocou e a nitidez do desenho é então 
definitiva e provavelmente indelével. 

Nos registros colhidos para o estudo da tatuagem 
em Portugal não ha indicação de consequências graves 
consecutivas da operação, talvez pela não adopção do ver- 
melhão que origina sempre pruridos demasiado irritan- 
tes. Abundam comtudo nas memorias que se oceupam da 
tatuagem realisada como entre nós ; e é realmente a tal 
ponto perigosa a irritação produzida na derme pela intro-, 
ducção repetida das agulhas, a natureza chimica do li- 
quido ou a inopportunidade e inefficacia da applicação do 
tópico que, além de ulceras, erysipelas, phlegmons e gan- 
grenas consequentes, a amputação dum membro é ás 
vezes reclamada e a morte, mesmo, inevitável em alguns 
casos. 

A adopção da saliva como obstáculo aos accidentes 
enunciados occasionou já a inoculação do virus syphili- 
tico ; o caso seguinte, entre muitos descriptos, é clássico. 



IOÓ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Um militar ainda virgem foi tatuado por um outro ata- 
cado de cancros na bocca ; a tinta da China com que o 
operador se servia diluía-a Lvuma concha com saliva ; 
tanto bastou para em breve o operado apresentar todos 
os symptomas da doença e quasi ser necessário amputar- 
lhe o braço. A transmissão da syphílis tem-se feito mes- 
mo quando é já secundaria e em virtude do tatuado, es- 
tando affectado de placas mucosas, se servir na operação 
da própria saliva. 

A indelebilidade da tatuagem está averiguada, isto é, 
os vestígios da prática prevalecem de qualquer modo. E 
manifesto que as circumstancias já mencionadas que in- 
fluem na nitidez do desenho favorecem ou prejudicam- 
lhe a duração, excluindo evidentemente o caso duma ta- 
tuagem muito superficial. A riqueza do sangue e a acti- 
vidade circulatória, além d'outras qualidades particulares 
do meio em que as matérias corantes são depostas bem 
como os conflictos que surjam entre um e outras e ainda 
o grau de resistência das substancias ás alterações per- 
manentes que se dão em toda a economia, podem concor- 
rer para o desapparecimento parcial e mesmo total da 
tatuagem. Admitte-se até que a simples transpiração cu- 
tânea pôde, de per si, eliminar o desenho por completo ; 
mas pelo modo como a operação é geralmente effectuada 
deve-se concluir a persistência, pelo menos, dos seus 
vestígios. Effecti vãmente é um facto adquirido o trans- 
porte das substancias atravez dos lymphaticos ; estão ob- 
servados casos vários em que a matéria corante emigrara 
do ante-braço para os ganglios axillares — caso vulgar — 
e o de uma mulher que, tatuada nas coxas, tinha invadi- 
dos todos os ganglios lymphaticos da região crural. A 
acquisição destes factos é deveras importante no domínio 
da medicina legal, dando assim margem a estender- se a 
inquirição da identidade nas investigações post-mortem, 
e comprovando a persistência dos indícios dado o caso 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I "7 



pouco commum do apagamento total dos desenhos. A 
inalterabilidade d'estes na forma e no tempo é uma con- 
vicção dos nossos tatuados ; aquelles para quem mais 
tarde a presença da tatuagem é odiosa, procuram vários 
meios de a eliminar, entre os quaes avulta o de repicar os 
contornos com leite ou acido acético na persuasão de que 
o liquido corante é dissolvido ; a tentativa, aqui como em 
outros logares onde existe a mesma crença, nunca dá sa- 
tisfactoriamente o resultado appetecido : se o desenho se 
extingue prevalece a cicatriz denunciativa. 



Ill 



CLASSIFICAÇÃO DA TATUAGEM 



Limite minimo de edade nos tatuados. Classe social. Grau de frequência nos dois sexos. 
Sede mais commum. Coração. A moralidade dos tatuados deduzida da natureza dos 
desenhos e da sua multiplicidade. Lista descriptiva e comparada dos emblemas, sym- 
bolos e inscripções entre tatuados portuguezes, italianos e francezes. 



Nos registros que servem de base para estas notas 
acerca da tatuagem em Portugal a precocidade na opera- 
ção é aceusada apenas num individuo que se sujeitou á 
prática aos 12 annos. Entre os criminosos o desejo de ser 
tatuado revela-se muito cedo como o documenta Lom- 
broso; Lacassagne, para quem a influencia do atelier é 
manifesta, encontrou tatuados de 6 annos. Os adultos, 
depois de inscriptos na armada e no exercito e, em maior 
proporção, seguidamente á permanência nas cadeias, é que 



I08 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



sc entregam á prática com mais frequência. Nas mulhe- 
res a tatuagem apparece raramente c, quando tal acon- 
tece, é devido á convivência com tatuados ou violentadas 
por elles ; está n'este ultimo caso uma mulher que habi- 
tava á Ribeira (Porto) á qual haviam desenhado a agu- 
lha, nas coxas e no ventre, enormes barcos de vela. Os 
symbolos amorosos e as iniciaes. do nome dos amantes 
são a tatuagem commum no numero diminuto de mulhe- 
res das quaes poude haver noticia. 

Lá fora os inquéritos no sexo feminino teem dado o 
mesmo resultado. A frequência é mínima comparada com 
a averiguada nos homens e, a significação dos desenhos, 
amorosa e raramente erótica : em França,, as iniciaes 
P. L. V. (fiour la vie) entre dois corações entrelaçados ; 
as inscripções à la vie, à la mort ; os nomes dos amantes 
acima do púbis, etc. ; na Itália, emblemas e lettras com 
as significações precedentes e, como caso excepcional, 
uma cruz no braço de certas montanhezas do Trentino, 
etc. 

A sede mais vulgar e, a bem dizer, geral é em qual- 
quer dos ante-braços. Nos delinquentes encontra-se fre- 
quentemente uma serie de desenhos em todo o braço ou 
em ambos, executados em epochas diversas e que corres- 
pondem de ordinário a cada permanência nas cadeias; 
as figuras que exigem mais espaço são desenhadas no 
peito. E fácil, todavia, encontrar tatuados com figuras em 
partes varias do corpo; um ex-soldado da armada possuía 
no ante-braço esquerdo uma mulher nua, um coração atra- 
vessado por uma flecha e uma ancora; no direito, um ho- 
mem nu em attitude extremamente obscena; no peito, 
emblemas de marinha ; na glande, o numero da compa- 
nhia ; num dedo do pé direito o signo-saimão. Um preso 
da Penitenciaria de Lisboa deixou gravar nos braços, pei- 
to, ventre e pernas, vários emblemas symbolicos, cora- 
ções, nomes de amantes, na parna esquefdi li n h)njn 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS U1BE1R0 ÍOÇ 

nu, uma mulher nua na direita, uma serpente num dos 
braços, um. lagarto no outro, etc. (A. A. Castello Bran- 
co). A seguinte, encontrada n'um mendigo e provavel- 
mente desertor, foi noticiada pelos jornaes cio seguinte 
modo : no braço esquerdo um peixe e um coração tres- 
passado por uma setta ; ao lado, uma cruz e as iniciaes 
A. C. F. Q. (António Cypriano Ferreira Querido, nome 
do tatuado); depois M. F. Q. e E. C. Q., iniciaes dos 
nomes do pae e mãe ; abaixo, uma ancora e uma pedra 
de dominó ; junto, um signo saimão e lateralmente a me- 
dalha da Torre e Espada (como em alguns soldados fran- 
cezes a da Legião de Honra e em alguns criminosos ita- 
lianos as armas da casa de Saboya) ; abaixo do signo o 
habito de Christo e a data 3 6 88, morte do pae; no pei- 
to, lado direito, a figura da Republica; esquerdo, a ban- 
deira franceza; nas costas da mão esquerda uma estrella 
e as cinco chagas. 

Berchon assignala factos interessantíssimos de mul- 
tiplicidade e extensão das tatuagens : um marinheiro, 
além de numerosos desenhos em quasi todo o corpo, fi- 
zera tatuar nas costas, com extraordinária minúcia, uma 
esquadra navegando num mar estranhamente revolto. 
Lombroso apresenta no seu atlas tatuados com desenhos 
numerosos de que um — e dos menos dotados — servirá 
de exemplo': no pé direito o nome dum amigo ; na perna 
esquerda a inscripção Piglia il quesíore di Napoli, ameaça 
ao prefeito de policia que o havia detido; na direita, uma 
flor; no peito e braço esquerdo — Antero fino alia tomba 
N. P. — declaração de amor a N. P. ; a lua e um diabo 
ainda neste braço; lado direito do peito, um vaso com 
flores; no braço direito uma ancora, as iniciaes N. P., 
R. S., M. A., D. M., de amantes e cinco cruzes repre- 
sentando outros tantos juramentos de assassinato. Um 
criminoso celebre de Itália estava de tal sorte desenhado 



110 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



que, excepção lcita da face e dos rins, não havia a super- 
ficie dum escudo que não possuísse tatuagem. Lacas- 
sagne figura na sua memoria o desenho representativo do 
accidente do duque de Orleães, na estrada de Neuilly, que 
occupa duas paginas ; reíere-se a outras que cobriam todo 
o corpo de certos tatuados e representavam uniformes de 
generaes e de almirantes ; menciona um Jean Tiart com 
o m ,^7 de altura e o m ,33 de largura e uma Jeanne d' Are de 
o n V|i de alto por o ra ,3i de largo, etc. 

A coração dos desenhos nos tatuados portuguezes é 
azul escura ; nem recolhi nem ha noticia entre nós da 
operação praticada com vermelhão a qual tem dado lo- 
gar. como observou Hutin, a figurar corações a vermelho 
com chammas azues ou trespassados por uma flecha azul, 
soldados com a face e mãos vermelhas e o, corpo azul, 
etc. Este uso d'um duplo liquido corante suggeriu talvez 
a lembrança de aproveitar certas manchas da pelle na 
execução do desenho. Os exemplos são, lá fora, numero- 
sos, e o seguinte dos mais interessantes : um marinheiro 
tinha no peito uma placa dum vermelho vivo ; o tatua- 
dor aproveitou-a de modo a não se suspeitar da existência 
anterior da marca congénita, desenhando uma Liberdade 
cujo barrete phrygio, pregas do vestido e bandeira eram 
naturalmente produzidas pela cor preexistente. 

Do que precede e do que vae seguir-se poder-se-ha in- 
ferir a moralidade do maior numero dos tatuados. A mul- 
tiplicidade, a sede, de ordinário escolhida nas regiões do 
corpo vulgarmente oceultas, a intenção pornographica 
duma grande percentagem de desenhos, denunciam a 
insensibilidade á dòr, o impudor e a obliteração, ou me- 
lhor, a ausência de elevação moral da maior parte dos 
tatuados. 

A systematisação das tatuagens em cathegorias é 
difíicultosa visto que muitas vezes ha logar de distribuir 



KKVISTA DA SOCIEDADE CAkM.oS RIBEIRO 



I I I 



o mesmo desenho cm mais do que uma. Provisoriamente 
poder-se-hão adoptar as seguintes : 



a Emblemas profissionaes 

— amorosos e eróticos 
a — religiosos 

metaphoras e phantasistas 
a Inscripções. 



(Conclúe). 



Rocha Peixoto 



PEQUENAS HACHAS DE PEDRA 



DAS ESTAÇÕES NEOLITHICAS 



DO CONCELHO DA FIGUEIRA 



Entre os machados de pedra, que se teem recolhido 
nas estações neolithicas da Europa, ha muitos que se tor- 
nam notáveis pelas suas pequenas dimensões, e cujo des- 
tino, segundo pensamos, não se acha ainda completa- 
mente esclarecido. 

Não é sem grandes embaraços que nós, a cada obje- 
cto d'estes que vamos colligindo, tentamos dar-lhes uma 
explicação que satisfaça o nosso espirito. Uns, muito pe- 
quenos, de rochas vistosas, com formas bastante regula- 
res, polidos e acabados com extremo cuidado, parecem, á 
primeira vista, verdadeiras jóias do homem primitivo, que 
na sua rude simplicidade faria a representação artística 
do instrumento mais útil e mais poderoso que o génio 
humano, na sua infância, tinha inventado. Outros, maio- 
res, de rochas unicolores, sem brilho, com formas irregu- 
lares, não polidos em todas as suas superfícies, e sem 
vestígios de accessorios que podessem fazer suspeitar a 
sua applicação, nem parecem ter o caracter dos primei- 
ros, nem favorecer a hypothese de um emprego útil. Dir- 
se-iam meros brinquedos de creanças ! 

Não será, pois, sem interesse expor algumas obser- 
vações que temos feito, afim de chamar sobre taes obje- 
ctos a attenção de outras pessoas mais competentes. Mas 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I I 3 



antes d 'isto convém lembrar c reunir aqui certas indica- 
ções que encontramos espalhadas por alguns livros, e que 
muito interessam ao nosso propósito. 



O sr. Mortillet dá noticia de pequenas hachas de pe- 
dra polida provenientes de regiões muito diversas. Men- 
ciona as dos dolmens do Morbihan, que chegam a ter 
apenas o m ,o32 ; as de outras estações da França, que me- 
dem o ra ,o39 e o m ,025, havendo uma no Museu de Saint- 
Germain que tem o m ,02'3 ; as da Dinamarca, cuja dimen- 
são minima é de o m ,o6y ; e as das palafittas da Suissa, 
que diminuem até o m ,033, o m ,02Q, e o m ,027 ; e apresenta 
os desenhos d'algumas nas figuras 445. a , 449/, 455. a , 
4$6. a , 469. a e 474- a do seu Museu firehistorico. (1) 

O sr. Barão J. de Baye encontrou nas grutas do 
Marne, valle do Petit-Morin, uma que só media o m ,o5 e 
outras que, por uma gradação quasi insensível, iam attin- 
gir o máximo de o m ,i8. (2) 

Quanto á nossa Península, o sr. Cartailhac falia de 
hachas muito pequenas das grutas de Gibraltar; dá o de- 
senho de uma proveniente de Cascaes ; e menciona ainda 
outra encontrada na Casa da Moura, estação sabiamente 
explorada pelo sr. Nery Delgado, que mede o m ,04 por 
o m ,o 5 . (3) 

No dolmen do Monte Abrahão encontrou o sr. Car- 
los Ribeiro um exemplar que media o m ,o66 ; e outros fo- 
ram recolhidos na gruta da Furninha, em Peniche, pelo 
sr. Nery Delgado. 



(1) Le ^Prehistortque, pag. 54o e $41. 

(2) UaArchéologie prehistorique, pag. 246. 

(3) Les ages prehisi. de VEspagne et du Portugal, pag. 66, 96 
e 104. 

vol. 11 8 



114 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Sobre o destino cTestes objectos o sr. Mortillet dis- 
tingue uns que eram utilisados como instrumentos e ou- 
tros que apenas serviam de amuletos. Os primeiros pre- 
paravam-se de algum dos modos seguintes : — embutidos 
pelo lado opposto ao gume em bases de pau de veado 
com um esgalho a servir de cabo, ou em uma espécie de 
estojo (gaine) da mesma substancia, que umas vezes en- 
trava e se fixava em um cabo de madeira, outras era fu- 
rado e atravessado pelo cabo. Effectivamente de todos 
estes typos se encontraram exemplares em França, na 
Suissa e na Itália, e que se acham representados nas fi- 
guras 438. a , 44 3. a e 444. a do Museu prehistorico do mesmo 
escriptor, o qual nas figuras 431.* e 433/ a 436.* tam- 
bém apresenta os desenhos em separado d'aquelles esto- 
jos. (1) 

Convém também notar que algumas hachas eram ás 
vezes picadas, de modo a tornal-as ásperas na parte que 
entrava no cabo, afim de poderem fixar-se com mais so- 
lidez; e o sr. Mortillet diz que «esta operação era feita 
principalmente nas hachas susceptíveis de receberem uma 
bella polidura. » (2) 

Os mais pequenos dos objectos de que tratamos, 
como o da figura 456.* do íMuseu, e ainda os fabricados 
de rochas brandas ou que teem um orifício, eram, se- 
gundo o illustre paleoethnologo, verdadeiros amuletos, 
visto não poderem ter outro destino. Justifica esta opi- 
nião, considerando que a hacha era o instrumento por 
excellencia dos povos primitivos, que com elle exerciam 
os mais rudes misteres, e que assim era natural que se 
tornasse o emblema da prosperidade, da força, do poder, 
da divindade, emfim, suprema dispensadora de todos es- 



(1) Le ^rehist., pag. 544-545. 

(2) íMuseu cit., estampa XLVII. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO II 5 



tes attributos ; e accrescenta que o culto da hacha se con- 
firma pelas numerosas gravuras da epocha neolithica, 
que a representam, (i) 

Mas este culto da hacha pôde effectivamente expli- 
car só por si os pequenos exemplares que não teem a ap- 
parencia de outro destino conhecido } Nós duvidamos, 
apesar da auctoridade do mestre. As hachas manifesta- 
mente usuaes e de maiores dimensões deviam ser objecto 
do mesmo culto ; e encontram-se com effeito em idênti- 
cas circumstancias, isto é, nos dolmens e nas grutas se- 
pulchraes, logares indubitavelmente religiosos : por conse- 
guinte as pequenas dimensões d'aquelles objectos não 
podem ser características de um destino meramente reli- 
gioso, ou de amuletos ou objectos de superstição. Cara- 
cterística seria apenas a forma. 

O que pôde com muita probabilidade considerar-se 
amuleto é a hacha. Jurada. O orifício indica que era sus- 
pensa ; e de facto já tem sido encontrada como fazendo 
parte de colares nas sepulturas. Ora um objecto, cuja 
forma tinha um certo prestigio entre os povos neolithicos, 
e que se usava suspenso ao pescoço, pôde bem ser um 
amuleto ; e por isso os archeologos não hesitam em attri- 
buir-lhe este caracter. 

As interessantíssimas descobertas feitas pelo sábio 
explorador das grutas da Marne auctorisam até certo 
ponto aquella nossa duvida. O sr. de Baye opina, com 
judiciosos fundamentos, que realmente as hachas eram 
objecto de um apreço muito elevado entre os povos pri- 
mitivos, visto que se achavam esculpidas nas paredes das 
grutas, onde também appareceram outras figuras que se 
suppõem de divindades, e estavam muitas collocadas de 
um modo singular junto aos esqueletos ; e, para tornar 



(1) Le Prehist., pag. 604. 



IIÓ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



plausível a hypothese, cita, a propósito dos tempos his- 
tóricos, esta notabilissima passagem de J. Evans : 

«E curioso notar que os antigos gregos parecem ter 
attribuido á hacha certa importância sagrada. Segundo 
Plutarco, Júpiter Labrandeus tomou este titulo da hacha 
e M. de Longpérier cita uma passagem de que resulta 
que Baccho, pelo menos em um caso, era adorado sob a 
forma d'uma hacha ou TuéXsxoç. M. de Longpérier também 
descreve um cylindro chaldaico, no qual se vê um sacer- 
dote fazendo offertas a uma hacha erguida sobre um 
throno ; e, além d'isto, chama a attenção para o facto se- 
guinte—que o hieroglyphico egypcio que representa 
Nouter, Deus, é simplesmente a figura duma hacha.» 

Inclina-se mesmo o sr. de Baye a que a importância 
dada a esse objecto pelos povos neolithicos era de cara- 
cter religioso; e cita a opinião respeitabilissima do sr. de 
Quatrefages, que pensa do mesmo modo, e que vê tam- 
bém nas pequenas hachas furadas verdadeiros amuletos. 
Emfim, a propósito das hachas que encontrou nas referi- 
das grutas, diz o seguinte: — «Não é simplesmente um 
instrumento funerário, mas um objecto votivo, consagra- 
do, tratado assim sob a inspiração d'um sentimento reli- 
gioso. » 

Mas ao mesmo tempo • apresenta estas observações 
muito importantes: — que todas as hachas, desde a mais 
pequena, que, como dissemos, tinha somente o m ,o5, esta- 
vam dispostas para serem usadas e completamente acabadas 
se-gitndo os seus respectivos typos ; — que as mais pequenas 
que não estavam acompanhadas de seus estojos, deviam ser 
encabadas de um modo differente das outras que se acha- 
vam providas d'esse accessorio ; e que algumas estavam 
lascadas, mutiladas ou picadas, para facilitar a sua fixa- 
ção no estojo. 

O modo como se achavam montadas as que eram 
providas de cabo, era o indicado pelo sr. Mortillet : isto é^ 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I I 7 



estavam embutidas em um estojo de pau de veado e este 
estojo atravessado por um cabo de madeira. Assim tam- 
bém se achavam representadas nas esculpturas. 

Estas observações provam: — i.° que as hachas pe- 
quenas também eram utilisadas como instrumentos, não 
havendo indicações algumas de que as inferiores a o m ,o5 
deixassem de ter este destino; — 2. que aos mortos se 
votavam hachas usuaes sem distincção quanto a dimen- 
sões, symbolisando todas um pensamento religioso. 

Quanto ás hachas furadas, o illustre sábio, tendo en- 
contrado um exemplar, não duvida classifícal-o como 
amuleto. (1) 

E fácil e commodo dizer que hachas mui pequenas, 
inferiores a o m ,o5 ou o m ,04, não poderiam ser applicadas 
como taes ; mas, não conhecendo nós todos os processos 
da arte ou industria primitiva, nada nos auctorisa a rejei- 
tar a hypothese de terem essa applicação, como verda- 
deiros instrumentos, e de que seriam encabadas por um 
modo diverso das outras, como indica o sr. de Baye.- 

Entretanto é forçoso confessar que hachas de o m ,023, 
o m ,027 e o m ,029, como as de que faz menção o sr. Mor- 
tillet, difficilmente poderiam servir ao mister de v »cortar, 
pelo menos em competência com as maiores, de modo a 
tornar útil o seu fabrico. Não podendo manifestamente 
ser utilisadas á mão, devia ser um processo embaraçoso 
o de fixal-as em algum cabo, ficando o gume bastante 
saliente para ser empregado: e isto, quando a operação 
de cortar facilmente se realisava com as hachas mais pró- 
prias, pelas suas dimensões, e montadas com segurança. 

Assim, é possivel que estas miniaturas de que falia o 
sr. Mortillet fossem jóias sagradas, amuletos, ou cousa 
semelhante. Também no fim da epocha do bronze e co- 



(1) Obra cit., pag. 98 e ss., 103, ioç, 239 ess. 6-309. 



Il8 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



meço da epocha do ferro a pequena hacha apparece, se- 
gundo alguns, como um objecto meramente votivo. A ci- 
vilisação villanovianna, na Itália, que se attribue a esses 
tempos, fornece Um exemplo no mobiliário das suas se- 
pulturas. «As armas, diz o sr. Jules Martha, que alli se 
recolhem, são em miniatura, pequenas hachas, por exem- 
plo, reducções fabricadas sem duvida em vista de um 
destino funerário. E assim que na Grécia se fabricavam 
para os túmulos jóias ligeiras, sem consistência, que não 
tinham de verdadeiras jóias senão a apparencia. » (i) 

Mas também pensamos que esses objectos poderiam 
ter algum outro emprego desconhecido; e que., assim, 
novas descobertas são necessárias para resolver inteira- 
mente o problema, com relação ás miniaturas neolithicas. 
Por isso é para desejar que todos aquelles que se dedi- 
cam ás explorações archeologicas não deixem de observar 
cuidadosamente as circumstancias em que encontrarem 
esses objectos, porque só por este meio se conseguirá se- 
melhante resultado. 



Pela nossa parte temos registado todas as indicações 
colhidas na observação dos objectos d'esta espécie, que 
temos colligido. 

Já na primeira parte do nosso estudo sobre as «An- 
tiguidades prehistoricas do concelho da Figueira», sob a 
designação — Hachas pequenas de pedra polida — descreve- 
mos dez que foram encontradas dispersas em diversos lo- 
gares da Serra do Cabo Mondego, á superfície ou a pe- 
quena profundidade do solo. 

Na segunda parte d'esse estudo, que já se acha im- 



(i) Manual d'cArcheol. etrusque et romaine, pag. 19. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I I O, 



pressa, descrevemos mais dois exemplares: um de quartzo 
hyalino, simplesmente lascado, e outro de schisto verde, 
perfeitamente polido, ambos encontrados á superfície do 
solo na estação neolithica da Várzea de Lirio. primeiro, 
de secção hexagonal, mede approximadamente o m ,04 no 
comprimento e o m ,02Ó na maior largura ; o segundo com 
a forma do que o sr. Mortillet representa a pag. 540 da 
sua obra — Le Prehistortque, de faces convexas, mas acha- 
tado, com gume á maneira das herminettes, mede o m ,oÓ3 
no comprimento e o m ,o5i de largura junto ao gume. Vão 
ambos representados nas fig. 87/ e 89. a d'aquella publi- 
cação. 

Mas ha outro, achado na freguezia de Paião, ao sul 
do Mondego, onde são frequentes os vestígios dispersos 
da industria neolithica. E um bello exemplar, feito duma 
rocha amarella, manchada de negro, que ainda não nos 
foi classificada, perfeitamente polido e lustroso, com forma 
trapezoidal, semelhante ao da fig. 36. a da primeira parte 
do referido estudo. Era acuminado de dois lados, isto é, 
na base e no topo: o gume da base tem algumas fractu- 
ras; o outro está completamente destruído. Mede o m ,07 
no comprimento, o m ,o3Ó de largura junto ao gume da 
base, e o m ,02 do lado opposto. 

Analysando e confrontando entre si estes treze exem- 
plares, notamos que predomina n'elles o schisto, como 
matéria prima; poisque sete são fabricados d'esta rocha, 
dois de quartzite, um de quartzo hyalino, outro de ser- 
pentina e dois de rochas não classificadas. 

As de schisto são em regra as maiores : medem no 
comprimento de o m ,oÓ7 a o m ,o86, havendo uma que 
attinge o m ,o93 e outra o m ,oÓ3, e na máxima largura de 
o m ,034 a o m ,o52 ; emquanto que as outras variam, no com- 
primento, entre o m ,04 e o m ,o66, havendo só uma que 
attinge o m ,07, e, na largura, entre o m ,02Ó e o m ,04« 

Vistas de face, as de schisto teem formas que se ap- 



120 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



proximam muito de um typo commum ; as outras apre- 
sentam a forma triangular ou trapezoidal, se exceptuar- 
mos a de quartzo hyalino, que se assemelha a uma cunha. 

Vistas de perfil, apenas algumas de schisto teem o 
typo das herminettes. 

Só a de quartzo é simplesmente lascada : todas as 
outras são polidas. Quasi todas, sem distincção, são mais 
ou menos achatadas. Mas a de quartzo tem a secção que 
indicamos, e uma de schisto é muito espessa e roliça. 

Esta ultima é também a única que, em vez de gume, 
apresenta uma superfície polida, como certas hachas 
grandes que temos encontrado, proveniente do desbaste 
do mesmo gume; e por isso lembrámos a hypothese de 
ter servido para polir ou alisar outros objectos de pedra 
ou osso. Duas são acuminadas na base e no topo: todas 
as outras só são acuminadas do lado da base. 

Algumas d'estas hachas acuminadas apresentam ves- 
tígios duso, consistindo em certas fracturas, manifesta- 
mente antigas, no gume. Mas faltam a todas, no lado 
opposto a este, se exceptuarmos a de quartzo, as aspere- 
zas reconhecidamente intencionaes para bem as fixar em 
qualquer cabo: apenas a de serpentina tem extrahida 
d'esse lado uma lasca, a do Paião tem o gume do topo 
fracturado, e algumas de schisto não estão n'essa parte 
polidas de modo a apagar todas as rugosidades resultan- 
tes do trabalho preparatório de lascar os fragmentos da 
rocha, para os approximar da forma procurada. Algumas 
até estão acabadas e polidas com tanta perfeição, que pa- 
recem repellir inteiramente a hypothese de serem encaba- 
das. E por isto que nós apresentámos a duvida, na pri- 
meira parte do nosso referido estudo, de que estas hacha- 
sinhas polidas e perfeitamente acabadas fossem emprega- 
das como instrumentos, e lembrámos a hypothese de 
serem meros symbolos ou insígnias. Também alli men- 
cionámos a hypothese de serem amuletos, proposta pelo 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 121 



sr. Mortillct, ou a de serem objectos votivos ; todavia no- 
támos que os nossos exemplares não tinham orifício de 
suspensão, nem foram encontrados nas sepulturas. 

Agora, porém, já temos um facto que derrama algu- 
ma luz n'esta questão, relativa ás estações da Figueira. 
Podemos affirmar que não eram só as hachas grandes 
que se votavam aos mortos, como aliás indicavam os 
exemplares encontrados nas antas do Cabeço dos Moi- 
nhos, da Serra de Brenha e das Carniçosas : também as 
de mui pequenas dimensões. O desejo de esclarecer-nos 
sobre este assumpto levou-nos a proceder a novas exca- 
vações no Cabeço dos Moinhos, onde fomos adquirir a 
certeza da existência de uma necropole importante, que 
aliás tinhamos suspeitado por occasião dos primeiros tra- 
balhos. 

Alli recolhemos de entre esqueletos humanos descon- 
juntados e numa grande desordem, associada a um pe- 
queno, mas interessante mobiliário, uma hachasinha de 
fibrolithe, rocha estranha ao paiz, segundo nos informam, 
de forma alongada como um dedo e muito semelhante á 
das goivas representadas na fig. 43.* das nossas «-Anti- 
guidades prehistoricas » , com uma das faces muito ar- 
queada e á outra ligeiramente convexa, no sentido trans- 
versal, completamente polida, com o gume convexo e 
perfeito, e apresentando na extremidade opposta uma 
fractura, que parece ser defeito do fragmento de rocha de 
que foi fabricado. Mede o m ,oó no comprimento e o m ,02i 
na maior largura, e não tem orifício algum. 

Mas esta descobej^a não basta : resta ainda a questão 
de saber se estes objectos das nossas estações seriam ou 
não também usados como instrumentos ; e sobre este 
ponto nós arriscaremos algumas considerações. 



12 2 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Não ha duvida que o fim é que dá a forma aos pro- 
ductos da industria humana: e por isso podemos muitas 
vezes pela forma descobrir o destino dos objectos. A 
forma acuminada das hachas e a dureza das rochas de 
que são fabricadas, para epochas em que os metaes não 
eram conhecidos, indicam sufficientemente que serviam 
de instrumentos cortantes : os accessorios do cabo, que 
teem sido descobertos, e o exemplo dos povos que em 
epochas históricas teem permanecido na edade da pedra 
confirmam essa interpretação. Grandes ou pequenas, mais 
ou menos espessas, e seja qual fôr o seu typo, sempre as 
hachas apresentam indubitavelmente o caracter de instru- 
mentos d'aquella natureza. Só um dos nossos exemplares, 
o de quartzo hyalino, mede o m ,04 ; os outros são superio- 
res a o m ,o58; todos são fabricados de rochas duras, como 
os machados grandes : por conseguinte, se os descobertos 
nas grutas sepulchraes da Marne, que descem ao mínimo 
de o m ,o5 eram utilisados como instrumentos, porque não 
admittir que os nossos tinham o mesmo destino, fora das 
sepulturas t As fracturas que notámos nos gumes não nos 
deixam grandes hesitações ; e por outro lado não ha en- 
tre os nossos exemplares algum que tenha orifício ou as 
exíguas dimensões d'aquelles que o sr. Mortíllet apresenta 
como simples amuletos. 

E que aquelle que tem o gume desbastado pelo 
attrícto foi também usado como instrumento, não pôde 
haver duvida: sendo certo, por outro lado, que a peça é 
bastante forte para indicar que seria primitivamente em- 
pregada como instrumento cortante. Quanto ao de quar- 
tzo, não podendo considerar-se um objecto regular, para 
lhe attribuirmos um caracter puramente symbolico, é fá- 
cil admittir que fosse destinado simplesmente ao mister 
de cortar. 

Mas uma difficuldade surge : todos esses objectos não 
podiam ser empregados á mão : por mais que tentemos a 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I23 



experiência, não conseguimos dar com elles um golpe 
aproveitável: por isso o auxilio de um cabo era necessá- 
rio; e é precisamente este que nos causa sérios embaraços. 

Não admira que não tenhamos encontrado nas sepul- 
turas qualquer cabo de madeira, porque esta devia ter 
sido destruída; mas os cabos ou estojos de osso ou chifre 
de veado, que podiam conservar-se através milhares d'an- 
nos, como outros objectos dosso alli recolhidos ? Como 
explicar a sua falta? 

Por outro lado faltam-nos exemplares polidos, como 
notámos, as asperezas reconhecidamente intencionaes, 
praticadas no lado opposto ao do gume, para se fixarem 
solidamente nos cabos ; e nem mesmo parece verosimil 
que peças perfeitamente acabadas d'esse lado fossem fei- 
tas com o destino de serem mutiladas ou de ficar escon- 
dida esta parte dos instrumentos nos cabos. 

E as de dois gumes ? Como suppor que, por exem- 
plo, a da fig. 36. a das oAntiguidades prehistoricas seria 
encabada por um d'elles, ainda que o mais pequeno? 
Este gume daria pouca solidez ao instrumento, porque 
seria fracturado facilmente com o uso ; e também não pa- 
rece verosimil que fosse feito para ser destruido fora da 
sua applicaeão como aresta cortante. 

Entretanto estas objecções não são bastantes para 
nos levarem a renunciar á ideia de que taes objectos eram 
utilisados como instrumentos. Pelo facto de não termos 
encontrado ainda vestígios de cabos, não pôde já con- 
cluir-se que estes não existiram. Não são ainda muitas as 
antas exploradas ; e em todas, com excepção do cisto de 
pedra da Asseiceira, que não continha objectos alguns de 
industria, as profanações tinham posto tudo em tal desor- 
dem, fazendo até sair nos entulhos alguns objectos que 
se encontraram fora das camarás e galerias sepulchraes, 
que é fácil admittir a hypothese de cabos d'osso ou de 
pau de veado terem sido dalli extraviados. Também ou- 



124 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



tros objectos dosso eram muito raros até ha pouco tem- 
po ; e todavia novas excavações nos terrenos que cercam 
os megalithos nos descobriram já mais alguns exempla- 
res. E, pois, licito esperar que ainda encontraremos nas 
nossas estações alguns d'aquelles de que se trata. 

Mas os cabos também podiam ser só de madeira. O 
sr. Mortillet representa nas fig. 439. a e 440. a do seu Mu- 
seu dois exemplares de hachas grandes assim preparadas, 
provenientes da estação lacustre de Locras, lago de Bien- 
ne, na Suissa, e na fig. 441. a uma semelhante, prove- 
niente da Inglaterra. D'este modo a falta de semelhantes 
accessorios pôde realmente explicar-se pela acção destrui^ 
dora do tempo. Nem admira que as próprias peças de 
pau de veado tenham também soffrido egual destruição. 
O sr. Barão J. de Baye encontrou em grutas sepulchraes, 
que aliás estavam intactas, muitos d'esses objectos des- 
truidos. «Muitas vezes, diz o sábio archeologo na obra já 
citada, não restavam senão pedaços desaggregados (dos 
cabos), entre os quaes alguns fragmentos de chifre per- 
mittiam distinguir o género e determinar as dimensões. » 
Mais facilmente nó seio da terra, atacados pelos ácidos, 
estavam sujeitos a destruição. 

A falta de mutilação, reconhecidamente intencional, 
da parte superior das hachas também não nos demove. 
Notaremos antes de tudo que a de quartzo está nas con- 
dições que podiam desejar-se, pela sua forma hexagonal. 
Quanto ás polidas e acuminadas, é preciso ter em vista 
que umas teem vestígios de uso, como dissemos, e outras 
não; e que, a julgar pelo perfeito estado da que foi en- 
contrada na necropole do Cabeço dos Moinhos, e dos gu- 
mes de todas as hachas grandes descobertas nos megali- 
thos da Serra, as que não teem vestígios de uso são pro- 
vavelmente provenientes de monumentos sepulchraes des- 
truídos. Assim, não é para estranhar que não tivessem 
sido ainda preparadas para receberem os cabos. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I25 



Por outro lado esta preparação não era essencial. 
Tanto o sr. Mortillet como o sr. de Baye observam que 
umas hachas eram picadas ou lascadas, e outras não. O) 
Por isso em grandes series d'estes instrumentos fácil será 
encontrar exemplares das primeiras; mas em onze, que 
nós colligimos, não surprehende a sua falta. 

Comtudo as irregularidades que o artista deixou em 
quasi todas e as pequenas fracturas d'algumas não pode- 
rão ter sido destinadas a esse fim } Para as hachasinhas 
perfeitamente acabadas e polidas em todos os pontos, que 
são só duas, não haveria algum processo, por nós igno- 
rado, de as fixar solidamente nos cabos, sem as damnifi- 
car } Tudo isto dá logar a muitas conjecturas, mais ou 
menos plausíveis. Mas o que é certo é que o bello exem- 
plar da freguezia do Paião tem o gume do topo comple- 
tamente abatido e vestígios d'uso no gume da base ; o 
que nos leva a pensar que o objecto fora eflectivamente 
encabado. Ou se abateu o gume do topo, para que as su- 
perfícies da fractura encontrassem mais resistência no 
cabo, ou aquelle se íracturou, depois de embutido n'este, 
com o uso do instrumento. 



Concluímos, pois, segundo o estado actual dos nos- 
sos conhecimentos, que as pequenas hachas de pedra po- 
lida das nossas estações eram indubitavelmente objectos 
votivos ; mas que, fora das sepulturas, deviam também, 
salvo melhor juizo, ter sido usadas como instrumentos 
cortantes. 

António dos Santos Rocha. 



(1) Le ^Prehisi., pag. 544; (Mnsée, estampas 47. a , 49-. a e $o. a ; 
VoArchéolog, ^Prehtst., pag. 246 e 247. 



VARIA 



Os trabalhos paleoethnologicos no Algarve, do sr. Estacio 
da Veiga, (i) — Programma para a instituição dos es- 
tudos archeologicos em Portugal. 



As antiguidades prehistoricas do Algarve constituem já um pe- 
queno museu, realmente notável pela extensa serie dos seus exemplares 
que, differenciando-o por algumas peças de caracter especialmente re- 
gional, marcam no entanto todas as epochas e factos na evolução pre- 
historica dos antigos povoadores. E nas grandes lacunas, separadas no 
cyclo ex-historico das civilisações pelas deficiências do nosso estudo, 
ha também, como em outras varias provindas, factos interessantes que 
obrigam a discutir theorias e hypotheses, de cuja interferência sempre 
tem resultado o avanço lento e prospero das sciencias archeologicas. 

Região favorável ao estudioso é também merecidamente a mais 
bem conhecida. Tem, pois, o seu archeologo, um interessante museu, 
as suas cartas paleoethnologicas, e, ultimamente, a monographia da sua 
prehistoria. São quatro grossos volumes, cheios de gravuras, em que o 
sr. Estacio da Veiga, o dedicado estudioso d'esta zona privilegiada, 
agrupou e descreveu os factos sobre a prehistoria da sua bella provin- 
da, volumoso recueil de documentos, expostos assim livremente á ob- 
servação universal de todos os que trabalham e procuram, na justa am- 
bição das suas theorias, um ponto de comparação e de apoio, esse ele- 
mento original de inducção, que muitas vezes se perde esquecido em 
regiões ignoradas de todo o estudo. 

Nos paizes em que se estuda e que progridem, tem-se deliberado 
harmonicamente com este ideal, sonhado desde os papyrus do oriente ; 



(i) antiguidades monumentaes do Algarve — Tempos prehistoricos, por Sebastião 
Philippes Martins Estacio da Veiga- Lisboa 1891, 4 vol. in-8.° 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I27 



e n'esta anciã de synthese e de verdade, espalham-se os trabalhadores 
em busca de materiaes, breve documentados e largamente expostos 
á erudição da velha Europa, ávida de claridade na meia-luz duvidosa 
que envolve os seus grandes problemas. Mas, n'este paiz estagnante, 
sem elementos hereditários de lucta — sob a influencia mórbida de uma 
imbecilidade de atavismo — hesita- se ainda systematicamente em face 
d'esta necessidade flagrante de progresso, com o protesto silencioso e 
indifferente de quem ignora o valor essencial ou a utilidade abstracta 
de todas estas coisas. E, no fim de contas, ainda ha ahi pelo paiz quem, 
— como os apóstolos esquecidos de crenças novas — levante o pregão 
de protesto a valorisar uma causa de abstracta justiça. 

Entre muitos, o exemplo do sr. Estacio da Veiga, implorando ha 
longos annos um misero subsidio para reorganisar convenientemente o 
seu museu, e desde então esperando uma resposta, é perfeitamente cara- 
cterístico da nossa inferioridade no quadro estatistico das nações cultas. 

E' assim a queixa desalentada de alguns períodos da sua obra, 
que a estreiteza do espaço nos impede de bibliographar, mas a que é 
devido todo o elogio, como trabalho meticuloso de colleccionação, em 
que se classificam materiaes numerosos, de innegavel valor para a pre- 
historia da Peninsula. 

São grandes volumes que seria materialmente impossivel resumir 
em alguns pequenos periodos. Ficará para outros trabalhos sobre a es- 
pecialidade, na ordem do nosso programma, a analyse d'este recueil 
nacional, cujo methodo me parece discutivel, e assim uma parte dos 
seus modos de ver, por vezes algum tanto prejudicados com a preoccu- 
pação de certo occidentalismo, sempre contestável quando applicado 
em exagerada generalidade. 

Occupar-nos-ha por agora, tam somente, o seu «programma para 
a instituição dos estudos archeologicos em Portugal » (prologo do 
vol. IV), assumpto que entre nós tem todo o interesse de actualidade, 
visto que nada se propõe officialmente de serio e utilisante a favor dos 
monumentos de archeologia e historia, encarados como documentos de 
analyse scientifica ou symbolos nacionaes de velho fetichismo patriótico. 

Aproveitando a occasião de se ter creado o ministério de instruc- 
ção publica e bellas-artes, a quem competia a superior ingerência nas 
questões d'esta especialidade, o sr. Estacio da Veiga abalançou-se a re- 
novar a sua proposta com uma dedicação tanto mais para louvar, 
quanto é sabido um esforço perdido na inércia ímmobilisante dos nos- 
sos corpos dirigentes. 

Dever- se-hia primeiro do que tudo inventariar rigorosamente to- 



128 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



dos os nossos monumentos archeologicos, distribuindo-os methodíca- 
mente em cartas regionaes, decalcadas sobre a mesma formula regula- 
mentar, para a composição final de um mappa harmónico e uniforme 
da archeologia nacional. Uma direcção geral de archeologia e bellas- 
artes, annexa ao Ministério, legislaria no sentido de harmonisar prati- 
camente estes serviços, executados sob a vigia de dois inspectores, a 
cargo de quem ficaria a conservação e reparação dos monumentos, as- 
sim como a fiscalisação dos museus. Completo o trabalho de colleccio- 
nação de documentos, estes ficariam distribuídos em seis museus, cor- 
respondentes ás circumscripções em que se suppõe dividido o reino, 
systema que o sr. E. da Veiga prefere ao de um só museu central de 
archeologia. Os exploradores de cada circumscripção seriam obrigados 
a colligir, parallelamente aos materiaes de estudos archeologicos e his- 
tóricos, todos os documentos de caracter ethnologico que iriam com- 
por, com outros subsídios affins, um museu central de anthropologia. 
Ahi fundar-se-hiam laboratórios e um curso especial de anthropologia, 
a cargo do director do museu, ao mesmo tempo que se introduzia no 
Lyceu de Lisboa uma cadeira de archeologia, distribuída, dois annos 
depois, aos outros lyceus do reino. 

Assim é, muito resumidamente, o « programma » do sr. Estacio 
da Veiga. 

A exposição que o Auctor faz do seu projecto deixa a impressão 
confusa de um systema imperfeito — deficiente ou excessivo — em que 
se apparenta uma certa diíficuldade de structura, realmente pouco fa- 
vorável á realisação immediata das suas proposições. 

Poder-se-ha notar, por exemplo, uma distribuição pouco explicita 
das funcções pelos elementos que formariam esse organismo official ; 
um funccionalismo mal limitado em quantidade; deficiência de indica- 
ções sobre o valor legal da inscripção dos moveis ou immoveis de valor 
archeologico ou histórico; falta de indicações sobre as restricções, por 
legislação especial, do direito de propriedade sobre os objectos ou mo- 
numentos inscriptos, e também carência de uma apresentação resumida 
do modo como se organisaria o serviço de reparação e conservação dos 
monumentos. Estas considerações, que devem preoccupar o organisador 
de uma legislação em que se accionam interesses muito diversos, pare- 
cem talvez estreitos detalhes, que mais minuciosamente cabem a um 
ante-projecto do que a um simples programma. Não obstante, a sua 
apresentação summaria teria o valor de uma aclaração justificativa para 
alguns elementos vagos da proposta, ao mesmo terripo que imprimiria 
ao conjuncto orgânico do projecto um caracter profundo de justa utili- 
dade e sabia inteireza de todas as circumstancias previstas da sua appli" 
cação. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I2G, 



Um «regulamento especial», que osr. Estacio da Veiga faz deter- 
minar ulteriormente a serie de todos os serviços, incluiria certamente 
aquelles; mas, nos extensos limites do seu titulo e funcções, é uma 
causa de confusão em assumpto que deve impor a sua clareza axiomá- 
tica e a urgência evidente da sua importância indiscutivel. 

Um facto ha ainda para notar na organisação do « programma », 
e é a desharmonia entre uma tendência centralisadora na disposição dos 
estudos anthropologicos e a acção descentralisadora de toda a regula- 
risação dos serviços de archeologia. 

Sabida a relação intima entre as duas sciencias, pela troca de do- 
cumentos etimológicos, parece defeituoso este modo de regularisar es- 
tudos perfeitamente concordantes. Um Museu Nacional de Anthropolo- 
gia, abrangendo os materiaes recolhidos para as duas sciencias, realisa- 
ria materialmente a unidade synthetica que deve existir n'esta serie de 
estudos, a que não faltam soluções de continuidade, mais avolumadas 
pela deficiência intima de elementos completos de inducção. 

Ensine-se claramente nas escholas o que sejam estas sciencias, os 
seus processos e os seus resultados superiores; formem -se com dados 
nacionaes collecções apropriadas ao estudo, completas com a modela- 
gem dos originaes raros; e isso basta para incentivo, creando dedica- 
ções pelo raciocínio, sem necessidade de impressionar exteriormente 
pela exposição apparatosa de todas as riquezas provenientes da circum- 
scripção ou districto. 

Os monumentos ahi ficam, intactos no seu velho arcabouço, cui- 
dadosamente reparados e conservados pelo Estado, bens pertencentes 
de direito a toda a nação, sem que a sua deslocação, geralmente ab- 
surda, vá aífectar o chauvinisme ronceiro do concelho ou parochia, 
possuidores nominaes de simples acaso. 

Todos os outros materiaes, separados e espalhados pelo paiz, se- 
riam como folhas soltas de um grande livro, sem valor particular na 
desconnexão das ideias e factos, valiosos, porém, na harmonia final da 
sua combinação, como elementos constituintes de um todo superior. 

E assim me parece que deve ser a consideração dominante de 
todo o trabalho n'este sentido, fazendo irradiar todos os esforços e con- 
centrar os resultados, dispondo os materiaes correspondentes segundo 
uma classificação sabiamente estudada, monographando todos os docu- 
mentos e archivando o conjuncto harmonicamente, depois da analyse 
critica lhes ter marcado definitivamente a impressão própria dos seus 
caracteres especiaes. 

São estas as considerações que me fez lembrar o « programma » 
apresentado pelo sr. Estacio da Veiga — indicação vagamente esboçada 
de tópicos antecedentemente estudados para um trabalho desenvolvido 

VOL. II 9 



130 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



sobre esta questão especial. Em nada, porém, isto vae affectar a alta 
importância d'esta iniciativa, incontestadamente elogiavel, a que de boa- 
mente prestamos o apoio de todo o nosso enthusiasmo e o concurso 
insignificante dos nossos esforços e dedicação. 

R. S. 



Um vaso romano de barro cozido 

E' mais um documento a juntar ás numerosas descobertas archeo- 
logicas feitas no paiz, do tempo em que dominaram a Peninsula legiões 
de romanos. 

Conservando em toda a parte a sua feição dominante de povo con- 
quistador, estes factos destacados são de somenos importância, conside- 
rados como elementos históricos para o estu- 
do vastissimo do povo-rei — a sua ethnogra- 
phia está feita. Ha, porém, a deduzir d'esse 
longo periodo de dominação a influencia 
sobre as povoações indígenas, a historia es- 
pecial dos povos peninsulares, muito deficien- 
te nas suas primeiras epochas, perdida nas 
citações contradictorias dos auctores clássicos. 
Eis um exemplo que justifica, além de mui- 
tos outros, a necessidade de tornar públicos 
V4 gr- nat. estes pequenos materiaes; aproveitarão mais 

facilmente a quem se especialisar n'estes es- 
tudos, e não ficam esquecidos na inutilidade 
prejudicial das collecções particulares. Assim é a vantagem principal 
d'esta secção da nossa Revista. 

O vaso que desenhamos, não tem a valorisal-o como documento 
archeologico os dados precisos sobre a natureza do jazigo e caracter 
especial da sua estação. Foi encontrado em 1886 na freguezia de S. Ma- 
mede de Negrellos, por occasião das minhas excursões aos arredores de 
Santo Thyrso, em busca de materiaes de estudo. Ahi, no logar de Por- 
tellas, construía-se, a meia encosta, uma casita, que apenas mostrava o 
começo das suas alvenarias; e, na abertura do cabouco para assentar de 
nivel os alicerces, descobriram entre a camada superior da terra vege- 
tal vários restos de louça e alguns vasos ainda completos. Todos se par- 
tiram ao choque do alvião, e só este se conseguiu completo, por um tra- 
balho cauteloso de sapa. 




REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I 3 I 



Tem, como se vê, forma muito vulgar nos mobiliários dos roma- 
nos, que plenamente justifica esta sua classificação. De um barro 
grosseiro, ligeiramente micaceo, conserva o estriado e a regularidade 
circular que dá o torno do oleiro, caracteres idênticos aos dos outros 
restos de louça que ainda pude examinar, fragmentos de grandes vasos, 
de forma indetermina vel. 

Disseram-me que tinham apparecido exemplares análogos no logar 
dos Mouros (freguezia de Moreira), a pequena distancia, no lado op- 
posto da via férrea, e que esta estação havia sido em tempo explorada 
pelo nosso distincto archeologo Martins Sarmento. Da visita a este lo- 
gar nada mais obtive, além de alguns restos de louça e fragmentos 
de ferro muito oxydado; e o mesmo me succedeu em outras pequenas 
estações, rodeando em zona pouco extensa a grande citania de Roriz. 

N'isto se resumem os apontamentos que se obtiveram sobre este 
exemplar de cerâmica romana ; o facto ahi fica publicamente consigna- 
do, exposto á disposição de outros investigadores. 

R. S. 



BIBLIOGRAPHIA 



Communicações da Commissão dos Trabalhos Geológicos 

de Portugal. Tomo II— Fase. I — 1888-89 



V — F. de Paula Oliveira — Nouvellesfouilles faties dans 
les kj oekkenmoèddings de la vallée du Tage. 



Paula Oliveira foi o continuador dos trabalhos de Carlos Ribeiro 
e dr. Pereira da Gosta sobre os kjoekkenmoeddings do valle do Tejo. 
N'esta pequena monographia coordenou as suas observações de 1884 e 
i885, que vêem confirmar e completar os estudos dos seus distinctos 
antecessores. E, como todos os seus trabalhos, este é apreciável pela 
seriedade nos methodos de analyse e a extensa erudição da especiali- 
dade do assumpto. 

A questão da artthropophagia, attribuida aos pescadores de Mugem, 
é atacada com argumentos de uma verdade flagrante, nada mais que a 
conclusão própria dos factos, demonstrada nos caracteres especiaesdos 
cabeços explorados. Rigorosamente observador, tanto basta ao estudo 
d'estas questões, e especialmente d'esta sciencia, em que ha a antepôr- 
se o sophisma duvidoso da phantasia de muitos e a deficiência de alguns. 

Citando as conclusões de archeologos brasileiros quanto ao cara- 
cter das povoações exóticas dos sambaquis, em emigrações periódicas 
para o littoral, chega contrariamente a definir o caracter sedentário dos 
povos de Mugem, hypothese cuja verosimilhança vem appoiar o predo- 
minio dos esqueletos de mulheres e creanças, assim como a presença de 
numerosos objectos de difficil transporte. O methodo fundado sobre os 
restos de animaes, applicado ás estações análogas da Dinamarca pelo 
professor Steenstrup, confirma também este facto notável : a fixação 
do homem ao solo antes do conhecimento da agricultura. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I 33 



VI — F. Paula Oliveira — Antiquités firéhistoriques et ro- 
maines des environs de Cascaes (mémoire posthumc). 

Entre as antiguidades prehistoricas dos arredores de Cascaes, Pau- 
la Oliveira apresenta algumas completamente novas, descobertas 
durante as suas investigações n'esta região, abundante em documentos 
archeologicos de velhas civilisações. Assim, devemos registrar, além 
de algumas cavernas naturaes, a gruta artificial de Alapraia, o subter- 
râneo do Casal da Lobeira, e os depósitos, á superfície do solo, na al- 
deia de Manique de Cima. 

Isto basta para assegurar a permanência do homem n'esta zona 
durante as epochas prehistoricas, prolongando-se ainda sob a influencia 
das invasões^ posteriores do povo romano. As suas descobertas d'esta 
epocha protohistorica são verdadeiramente interessantes pelas consi- 
derações de caracter ethnologico a que conduziam, e que Paula Oli- 
veira nos deixou por concluir, surprehendido pela morte, antes de poder 
terminar a sua bella memoria. 

Os vestigios da epocha romana consistem em sepulturas, umas ve- 
zes isoladas formando pequenos grupos, outras vezes reunidas consti- 
tuindo verdadeiros cemitérios; e (Testes os mais notáveis são os de Al- 
coutão, Abujarda e Murches. 

O caracter especial dos túmulos, por inhumação, e a observação 
dos objectos artisticos que ahi se encontraram, conduziram Paula Oli- 
veira a datar estes cemitérios do século II (a. de C), quando princi- 
piou no paiz a influencia do dominio romano. Comparando estes túmu- 
los com outros typos similares de Portugal, em epochas anteriores, 
nota-se a persistência do mesmo rito, originariamente préromano. Os 
restos ósseos encontrados nas necropoles de Cascaes pertenceriam, 
pois, a uma povoação préromana, pura ainda de toda a influencia do 
povo invasor. 

Paula Oliveira concluia attribuindo aos Celtas estes túmulos, o que 
comprovava por meio de documentos históricos, e a approximação de 
estações análogas do periodo marniano em França, correspondentes á 
preponderância politica das povoações gaulezas d 'além Rheno. N'esta 
parte da sua notaveí monographia, ficou ella interceptada, privando-nos 
da sequencia interessante d'esta questão, verdadeiramente captivante 
pelo modo especial como era apresentada e discutida. 



VIÍ — F. Paula Oliveira — Caracteres descrifttivos dos 
craneos de Cesareda (memoria posthuma). 



N'esta memoria são apresentados methodicamente os craneos de 
Cesareda, estudados metricamente e nos seus caracteres descriptivos, 
sendo destrinçadas as suas particularidades differenciaveis com notável 
subtileza de observação. Falha-nos o espaço para considerar miudamente 
o estudo especial que Paula Oliveira fez de cada individuo, analysando 
em conjuncto alguns caracteres bem notados, que produziriam para a 
anthropologia prehistorica interessantes considerações. 



134 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



VIII — Alfredo Ben-Saude — Notice sur quelques objets 
préhistoriques dn Portugal fabriques en cuivre. 

Esta questão da edade do cobre na Península, levantada pelos ar- 
cheologos hespanhoes Vilanova e Tubino, adquiriu um certo desenvol- 
vimento com as importantes descobertas dos irmãos Siret no sud-este 
da Hespanha. No entanto, o problema afastar-se-ha continuamente da 
sua resolução, emquanto se menosprezarem os dados fornecidos pela 
analyse chimica dos objectos de metal, classificados nos museus archeo- 
logicos como exemplares da edade do bronze. 

O nosso eminente mineralogista sr. A. Ben-Saude, comprehen- 
dendo nitidamente a necessidade de reduzir a formulas experimentaes 
um certo numero d'estas hypotheses scientificas, fornece com a sua me- 
moria a este nosso problema ethnographico o auxilio de um elemento 
estudado e definido, ao passo que sollicitamente corresponde ao appello 
não ha muito dirigido aos paleoethnologos em uma revista franceza de 
archeologia. 

E, desta forma, com os documentos que resultam do seu authori- 
sado estudo, mais se confirma a these que sempre defendemos da exis- 
tência de uma industria indígena do cobre, precedendo na Península 
a do bronze, comprovada por ultimo na analyse chimica dos objectos 
em questão, procedentes de localidades portuguezas, rigorosamente ca- 
racterisadas pela feição especial d'esta industria nossa. 



IX — Ch. Schlumberger — Nota acerca dos for amini feros 
fosseis da provinda de Angola. 

Este estudo foi feito, a pedido do sr. Choffat, sobre um fragmento 
de mame amarellado proveniente do Dombe Grande, província de 
Angola. Os caracteres paleontologicos d'este marne, que o sr. Schlum- 
berger classifica de miocénico, teem muita analogia com os das cama- 
das de Baden, próximas de Vienna. 

E d'ahi se conclue analogamente para a Africa Occidental que 
estes depósitos são formados em agoas profundas, pela semelhança de 
caracteres que approximam estas faunas da actual fauna das profundi- 
dades, como foi estudada pelo sr. Schlumberger a 1:000 e 1:200 me- 
tros no Golfo de Gasconha, por meio das dragagens executadas de bordo 
do Travailleur. 

R. S. 



REVISTA DA SOCIEDADE CA Kl. OS RIBEIRO Il< 



Albert Girard — nota sobre os cephalopodes de Portugal, 

8.°, 6 P ag. ; Révision des mollusques du Muséum de Lis- 
bonne : I. — Cephalopodes, 8.°, 36 P ag. e 1 pi.,- Additions ao 

Op. precedente, 8.°, 12 pag clphot.; Lisboa, 1890. 

Os três opúsculos citados ennumeram, como se deprehende dos 
títulos, os exemplares theuthologicos que existem no Museu da Escola 
Polytechnica. No primeiro são assignaladas as 14 espécies até hoje re- 
colhidas em Portugal, d'entre as quaes destacamos uma nova para a 
sciencia : Ommastrefihes (s. gen. Todaropsis) Veranyi, Girard. Esta 
interessante espécie que forma a transição dos Illex para os Todarodes, 
foi colhida em duplo (macho e fêmea) a 10 milhas do Cabo da Roca, 
em junho de 1889. A sua descripção é deveras um modelo de observa- 
ção, de precisão e de intelligencia, revelando no nosso illustre colla- 
borador qualidades que não estávamos infelizmente habituados a regis- 
trar depois do passamento do desditoso Arruda Furtado. Confirmam-as 
ainda as lúcidas observações que, acerca d'outras espécies mencionadas, 
o sr. Albert Girard nos apresenta. E só lamentamos o ser-nos vedado 
reproduzir na integra todo o trabalho sobre os cephalopodes. o que, a 
ser possivel, inteiraria o leitor da Revista de que a secção malacologica 
do Museu está felizmente a cargo dum bom critério e d'um forte e 
perseverante trabalhador. 

R. P. 



Paul Sébillot — études maritimes. (Les coquillages de 
la mer ; les zoophytes ; les mollusques; les crustacés) 

8.°, 19 pag. Vannes, 1890. 

Nomes, provérbios, adivinhas, contos, lendas, crenças, superstições 
e usos dos animaes referidos. O distincto folklorista francez, cujos estu- 
dos de zoologia popular são deveras notáveis pela abundância dos ma- 
teriaes inéditos colligidos, completa n'este estudo a interessante mono- 
graphia publicada, ha annos, na Revue de Ethnographie acerca das su- 
perstições sobre as conchas marinhas. O snr. Paul Sébillot teve a gen- 
tileza de fazer amáveis referencias ás minhas Notas sobre a malacologia 
popular, publicadas no n ° 2 do I voi. d'esta Revista, traduzindo uma 
grande parte da memoria e fazendo-a publicar, antes, na sua excellente 
Revue cies traditions populaires. O meu trabalho, o Folk-lore dei mar 
de Braulio Vigon e algumas observações originaes do auetor fazem 
d'est'arte um complemento aos trabalhos precedentes do illustre ethno- 
grapho francez. Mais uma vez lhe agradeço a sua obsequiosa amabi- 
lidade. 

R. P. 



13^ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Paul Choffat — passeio geológico de lisboa a leiria, 

8.°, 51 pag., Lisboa, 1 89 1 - 

Este opúsculo abrange uma serie de artigos publicados r^uma re- 
vista pedagógica de Lisboa. E' uma descripção pittoresca de parte da 
Extremadura atravessada pela via férrea Lisboa-Figueira, feita com o 
tempo que comporta uma viagem geológica em caminho de ferro e des- 
tinada principalmente aos que, não se occupando especialmente de taes 
estudos, desejam todavia conhecer os factos geraes. A serie de trabalhos 
em que se decalca a interessante noticia é, na máxima parte, obra do 
illustre geólogo suisso, já de sobejo conhecida para que nos demoremos 
com mais dilatada referencia. 

R. P. 



G. de Saporta. — sur les plus anciennes dicotylées euro- 

PÉENNES OBSERVÉES DANS LE G1SEMENT DE CERCAL, EN 
PORTUGAL — 4-° peq-, 4 pag. Paris, 1891. 

Noticia acerca do interessante grupo das dicotyleas cujo estudo 
está sendo um dos mais notáveis e delicados da paleobotanica. Com- 
porta a monographia do eminente paleophytologista francez referencias 
á flora de Cercal, jazigo intercalado no cenomaniano fossilifero e no 
neo-jurassico. As espécies recolhidas e que servem de base para a noti- 
cia foram em numero de trinta e cinco, pouco mais ou menos; o sr. G. 
de Saporta resume os caracteres mais salientes de todos os typos por- 
tuguezes e encontra varias espécies novas, duas das quaes constituem 
um typo a que dá o nome genérico de Delgadoa, sympathica e mere- 
cida homenagem ao sábio director da nossa Commissão Geológica. 

R. P. 



P. de Loriol. — description de la faune jurassique du 
portugal. Embranchement des échinodermes — 4-"> '79 

pag. e XXIX pi. Lisbonne, 1890-1891. 

O sr. P. de Loriol, a quem havia sido confiado o estudo dos échi- 
nodermes do cretacico portuguez, publicou ha tempos a sua monogra- 
phia da fauna echinitica jurássica de Portugal, egualmente incumbência 
da nossa Commissão Geológica. E' outro trabalho que denuncia a com- 
petência do notável echinodermista suisso e que vem occupar na nossa 
litteratura scientifica um logar de assignalada evidencia. A lista das es- 
pécies descriptas abrange 95 espécies de echinides endocyclicos, 16 de 
echinides exocyclicos, 1 asteria e 34 crinoides; d'estas 146 espécies, 69 
são novas para a sciencia. Postoque bastante restricta, a fauna echino- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIDEIRO 



137 



dérmica portugueza é notável principalmente pela grande percentagem 
de espécies até ao presente desconhecidas ; e é provável que o seu nu- 
mero ainda augmente depois de colheitas ulteriores que se proseguirão 
á medida que os trabalhos, estratigraphicos correlativos se forem execu- 
tando. Nas XXIX planchas que terminam a memoria são figuradas to- 
das as espécies inéditas. 

R. P. 



\ 



NOTICIAS 



O MUSEU AGRÍCOLA E FLORESTAL DE LISBOA 



Foi nos primeiros dias do armo passado que se inaugurou a nova 
ínstallação d'este museu, no antigo palácio do conde de Almada, ao 
Rocio. 

Eram espaços vagos de solidão essas longas salas do velho solar 
de aristocratas, em que se diluíam, como as sonoridades apagadas de um 
echo, recordações nebulosas do passado, repercutindo surdamente, aos 
quatro cantos, lamentos infinitos de saudade — d'esse vasto passado em 
que havia crenças e felicidades, a existência viva e independente de 
ideaes aventurados. Sahiu d'ahi, cellula escondida de revolta, o movi- 
mento de protesto e restauração, caso archaico da historia pátria, onde 
se firmava a superior envergadura de um caracter, acorrentado pela 
grilheta da fatalidade histórica, mas luctando superiormente contra a 
humildade sofTredora de longos periodos esgotados. 

O palácio foi permanecendo, erecto na sua rigidez antiga de inva- 
lido, no meio d'este esborcinar de monumentos e glorias. Veio depois 
o decreto official, com honrarias de funccionario publico, dar utilisação 
moderna ao velho paradeiro, que agora tem numero na lista civil, com 
taboleta de estanco na portada nobre. 

É ahi que se installa o nosso museu de agricultura, as suas sete 
salas etiquetadas com designações de zonas agronómicas e exemplares 
em ordem de productos cultivados 

Materialmente, eis um benéfico avanço nas questões agricolas e 
um impulso proteccionista a favor da archeologia nacional, tão desvia- 
da das responsabilidades officiaes, impostas geralmente pelos monumen- 
tos históricos dos factos e civilisações quê se justapõem no relato bio- 
graphico dos povos. 

Ha satisfação em ver interesse pelo caminhar progressivo do paiz; 
e o solo, onde se accumulam elementos mórbidos de vida, a germina- 
ção latente de forças conservadoras e impulsivas, tem sido julgado en- 
tre nós a summula de recursos que despertarão a nossa actividade 
adormecida, no meio da concorrência atropelante e esmagadora dos 
outros povos. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I39 



Está pois ahi a nova restauração., e esta coincidência interessante 
valorisa o acaso da installação actual do museu, por si altamente valio- 
so, desde que manifesta a uniformidade de um methodo ou sciencia, 
acceite praticamente nas suas leis poderosamente utilisaveis. Desculpa- 
se, por isso, a interferência de aspectos incompatíveis, no empastamen- 
to da ornamentação moderna, com objectos industriaes da actualidade, 
no fundo amarellado e poeirento d'aquellas velhas reliquias, irritável, 
como o polido novo em um bric-à-brac artistico, ou a pintura espessa 
sobre a patine corroida dos tempos. 

Admittido então o Museu Agrícola na sua nova installação, ao 
Rocio, resta agora dir-lhe a largueza que compete ao desenvolvimento 
actual das sciencias agrícolas. 

Nasceram modernamente sciencias de applicação geral á cultura 
do solo, ramos de sciencias technicas, separados pelas necessidades que 
foram apparecendo na larga expansão dos conhecimentos. 

Havendo um instituto de agronomia, em que se cursam, melhor 
ou peior, essas leis que regulam a productividade das terras, necessário 
é pois dar-lhes o máximo desenvolvimento com a organisação concor- 
dante de museus, em que se aproveite proficuamente o seu duplo valor 
de series documentadas de elementos de estudo, e de exposição emula- 
tiva dos productos regionaes. Pela comparação dos espécimens conclue- 
se a caracterisação completa de uma forma melhor, faz se artificialmente 
uma selecção cuidadosa de variedades pelas suas alterações úteis, e 
apprendem-se novas .receitas ou processos novos do mechanismo indus- 
trial e agrícola. 

Teem também estes museus valor ethnographico, e esse está prin- 
cipalmente na apresentação de typos indígenas, espécimens de costumes 
populares, completos com exemplares ou modelos das alfaias agrícolas 
e pequenos objectos Íntimos de lareira. 

Este aspecto não foi esquecido na disposição do Museu Agrícola 
de Lisboa, que lhe prepara a impressão agradável de uma obra, d'onde 
resalta a preoccupação artística da forma, na sua harmonia esthetica, 
ao mesmo tempo que evidenceia flagrantemente uma utilidade univer- 
sal, profícuo ensinamento á multidão que passa n'estas galerias com- 
memorativas do trabalho. 

R. S. 



O MUSEU DE MINERALOGIA, GEOLOGIA E PALEONTOLOGIA 
DA ACADEMIA POLYTECHNICA DO PORTO 



Publicou-se no Annuario de 1890-91 o catalogo d'este gabinete, 
e esse documento é bastante para confirmar o desenvolvimento ultimo 
d'esta secção em instituto scientiflco que, desde algum tempo, se pro- 
punha formar engenheiros de minas. 

Existia para a regularisação geral d'este curso um programma 
exacto; ahi attendia-se ao ensino theorico da mineralogia, geologia e 
paleontologia, com o preciso desenvolvimento para as subsequentes ge- 
neralisações technicas da sciencia applicada. O modo, porém, como 
eram cumpridas as disposições normaes d'esse programma, não é desço- 



I40 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



nhecido de quem tivesse observado a falta habitual de probidade na des- 
connexão final, entre o systema que regularisava a prática escolar da 
sciencia, e o modo imperfeito como eram realisadas essas disposições, 
no que diz respeito á eschola e seus cursos. 

Ainda hoje se estuda n'este estabelecimento polytechnico segundo 
o regimen didatico da exposição dos grandes cursos, feitos em estabe- 
lecimentos similares, mas completos, do estrangeiro; segue-se a feição 
dogmática dos velhos typos universitários, quando o processo intimo da 
analyse é a formula constitutiva das sciencias experimenlaes, em que a 
deducção final dos princípios fundamentaes se concretisa no estudo em- 
pírico dos próprios factos. 

D'ahi veio a expressão ultima dos methodos educativos, falsamente 
comprehendidos, quando se presuppõe um resultado completo com a 
accumulação erudita de conhecimentos sobre phenomenos, que não se 
sentiram, a lição de caracteres, que é difficil abstrahir do próprio obje- 
cto, pelo processo incompleto das formas descriptivas. Assim se fazia 
antigamente nas nossas escholas, e ainda hoje se faz de um modo geral, 
havendo a registrar, como manifestação moderna de progresso, um ou 
outro pequeno melhoramento, devido á iniciativa e esforço dos profes- 
sores, no sentido de organisar um material mais ou menos completo de 
estudo. 

N'este trabalho continuado de propaganda em favor da sciencia 
nacional, habituados a encontrar, como obstáculo insuperável, um meio 
inexpressivo na sua única manifestação de insufficiencia orgânica, é agra- 
dável encontrar d'estes factos, outros tantos documentos para a medida 
estatistica da cerebração nacional. 

Havia, pois, na Academia Polytechnica, um curso de mineralogia, 
geologia e paleontologia, sem collecções de estudo. Tal designação não 
mereciam, decerto, alguns poucos exemplares desordenados de prove- 
niência estrangeira e problemática, accumulados em vitrines multifor- 
mes, como os grupos exóticos de antigas anatomias, em uma floresta de 
algas e polypos, onde passeiam, de mistura, insectos de cores vivas e 
aves pintalgadas dos paizes afastados. 

Gerações de alumnos passaram, sem quasi distinguirem os ele- 
mentos de um granito vulgar, e havia sobretudo ignorância da incom- 
petência fundamental para estudos subsequentes de qualquer outra scien- 
cia. No entanto, formavam- se engenheiros, e as cartas attestavam co- 
nhecimentos amplamente comprovados das matérias do programma, 
aliás bastante completo na sua constituição apparatosa. 

Hoje apparece-nos tudo exposto segundo uma disposição scienti- 
fica e moderna; adquiriram- se especimens-typos de estudo, exemplifi- 
cados em collecções portuguezas, e começou-se um pequeno atelier 
para o estudo da micrographia, elemento poderoso na determinação 
das rochas e estudo geométrico dos elementos crystallisados — as suas 
propriedades e a sua genése. 

Isto deve-sé em parte, assim como um já extincto gabinete de 
microscopia vegetal, ao subsidio e especiaes esforços do professor, 
sr. dr. Amândio Gonçalves, cuja dedicação pelo desenvolvimento dos 
seus gabinetes merece justamente todo o elogio, uma excepção a regis- 
trar entre o funccionalismo das nossas escholas, geralmente caracteri- 
sado pela falta de pessoalidade e interesse, manifestada em absoluta in- 
difFerença pelos methodos e resultados, 

O nosso distincto collega Rocha Peixoto, que tem desempenhado 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I /| 



o trabalho de naturalista adjuncto, veio trazer á iniciativa do sr. Gon- 
çalves o auxilio forte de todo o seu enthusiasmo, a nota flagrante e 
profícua de um novo, intimamente dedicado a todos os methodos actuaes 
da sciencia moderna. E assim foram dispostas as collecções segundo 
uma classificação rigorosamente scicntifica, muitos outros espécimens 
vieram, e tudo se refundiu em um aspecto completamente novo, appa- 
recendo pela primeira vez um gabinete tal como elle basta ás exigências 
de uma sciencia de applicação em eschola technica. 

Imperfeições ha, devidas especialmente á ausência de largos*sub- 
sidios que auctorisem a formação de maiores collecções ; isto, porém, 
nada modifica o valor que merece o trabalho dosjque directamente 
actuaram n'este melhoramento, que é de justiça se faça sobresahir entre 
as deficiências geraes dos nossos estabelecimentos de instrucção. 

E' especialmente interessante n'este pequeno museu uma collec- 
ção portugueza de paleontologia, que Rocha Peixoto formou com exem- 
plares escolhidos nos duplicados das collecções da Commissão dos Tra- 
balhos Geológicos, em Lisboa. O valor d'estas series regionaes em mu- 
seus de estudo é indiscutivel; não se comprehende mesmo como se pos- 
sam concretisar formulas especiaes de applicação, sem a noção distincta 
do fácies regional. Supposto o caracter technico d'esta Academia, e que 
ella se propõe scientificar entre nós algumas profissões immediatamente 
úteis, demonstra falta absoluta de todo o critério educativo esta antiga 
carência de modelos nacionaes de estudo, com a exemplificação docu- 
mentada de phenomenos produzidos no paiz. 

Ha typos clássicos, assim como modelos universaes, que são ele- 
mentos-base da sciencia geral, completamente alheia ao nosso paiz, 
largamente affastado de todo esse colossal movimento de revelação 
scientifica, onde ha sobretudo muito talento e muito trabalho. Mas, 
apparece, parallelamente a este curso geral, a necessidade de, pelo 
menos, nacionalisar na sua applicação methodos e processos, que utili- 
sarão directa e especialmente o paiz, nos ramos diversos da mesquinha 
actividade nacional. 

E' um minimo tolerado de bom-senso, que nem sempre se encon- 
tra nos nossos institutos e academias, razão de mais para se julgar 
realmente valioso e expressivo este pequeno exemplo, que me alegro 
em registrar, prestando-lhe simplesmente a justiça que merece. 

R. S. 



OS MORTOS 



IGNACIO DE VILHENA BARBOZA 

1811-1890 

Deixou um numero grande de trabalhos sobre os nossos monu- 
mentos históricos e archeologicos. Encontram-se espalhados em publi- 
cações diversas ; e, se não constituem uma serie ordenada de monogra- 
phias com o caracter de estudos especiaes e Íntimos de cada monumento, 
formam no entanto um conjuncto interessante de documentos, uma 
obra valiosa de vulgarisação, com o fim de «recomendar taes monumentos 
á attenção e apreço dos portuguezes, e á desvelada vigilância dos pode- 
res públicos» (Mon. de Port.). 

Alguns artigos, modificados e ampliados, compozeram os volumes 
que nos deixou : As cidades e villas da monarchia -portugueza que teem 
brazão d' armas (1860-62), Exemplo de virtudes cívicas (1872), Estudos 
históricos e archeologicos (1874-75), Monumentos de Portugal (1886). 

Foi membro da commissão nomeada em 1881 para adquirir obje- 
ctos artisticos e archeologicos para a exposição do museu britannico de 
South Kensington, que depois pretextaram a exposição ornamental de 
Lisboa no anno de 1882. 

Não era um observador, com o critério de analyse, hoje elemento 
fundamental nos estudos scientificos d'esta especialidade ; mas nem por 
isso deixa de ter merecimento o seu trabalho, que difricilmente esque- 
cerá, com a memoria do bondoso velho, honrado patriota cheio de 
crenças e dedicação. 

R. 5, 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I43 

A. C. BORGES DE FIGUEIREDO 

1851-1890 

Houve epocha, depois do centenário, em que o poema de Ca- 
mões foi miudamente analysado, á lupa, em todos os seus elementos— 
dissecados e metricamente classificados os materiaes que se juxtapõem 
no arcabouço complexo de uma civilisação ; havia ahi a impressão firme 
de uma nacionalidade, diluída no seu meio próprio, superiormente com- 
prehendido, flagrante em todas as manifestações minimas, intimamente 
sentidas e caracterisadas. 

Applicaram-lhe então os processos experimentaes das sciencias 
d'hoje, zoologia, botânica, ethnographia, archeologia, linguistica, etc. 
o que produziu algumas monographias, de interesse, talvez, para o es- 
tudo profundo d'aquella grande epocha, ou para o inquérito curioso das 
quantidades elementares do poema. A Borges de Figueiredo coube des- 
trinçar-lhe as designações geographicas, que compilou e dispoz em um 
mappa especial — Carta da Geographia dos Lusíadas, A geographia dos 
Lusíadas, (i883); a carta foi submettida ao parecer da Academia e im- 
pressa depois sob a protecção oííicial. 

Foi este o começo dos seus trabalhos scientificos. Collaborou em 
seguida dedicadamente em assumptos de archeologia histórica, e espe- 
cialmente de epigraphia, onde seriam realmente preciosos os seus ser- 
viços, auxiliando parallelamente outros trabalhos na reconstituição da 
ethnica peninsular. 

Publicou dois livros de somenos valor scientifico, Coimbra Antiga 
e Moderna (1886), O Mosteiro de Odivellas (1889), onde no entanto 
transparece um grande trabalho de investigação histórica e erudição, 
a que se pretendeu dar uma forma litteraria, por vezes menos feliz. Ia 
em meio o quarto volume da sua interessante Revista zArcheologica ; 
e os que sabem dos esforços que exige no paiz a publicação d'um pe- 
riódico scientifico, podem bem medir o valor d'este grande esforço, sem- 
pre contrariado pelo desalento de uma parte e a indiíferença de todos. 

R. S. 



144 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



ESTACIO DA VEIGA 

Entrava no prelo esta ultima folha da nossa Revista, quando nos 
veio a noticia da morte do archeologo Estacio da Veiga. Vae longa esta 
serie de necrológios, como um symptoma triste de fatalidade, n'este 
esboroar colossal de tudo o que possuiamos em elementos superiores de 
actividade e trabalho. 

Falta-nos agora o espaço para apresentar a obra interessante de 
Estacio da Veiga e a sua alta valoria como estudo detalhado de casos 
archeologicos. 

No próximo numero procuraremos desempenhar esta fúnebre mis- 
são de chronistas. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

(Propaganda das sciencias nâturaes c sociaeè cm Portugal) 



A Sociedade Carlos Ribeiro tem recebido as seg-uin-. 
tes publicações, d'algumâs das quaes se oceupará na sec- 
ção 'bibliographica da sua Revista: 

Santos Rocha — ^Antiguidades prehistoricas do Concelho da Figuei- 
ra. (Segunda parte), 4. , 90 pag., V pi. Coimbra, 1891. 

G. de S aporta — Sur les plus anciennes c Dicotylées enropéennes obscr- 
vées dans le gisement de Cercal, en '"Portugal, 4. , 4 pag. 
Paris, 1891. 

A. Locard — Les coqailles marines des cotes de France, 8.° gr., 383 
pag.e 348 grav. no texto. Paris, 1891. 

Th. Huxley — Les sciences naturelles et l ' éducation, in-16, 36o pag: 
Paris, 1891. 

— La place de V homme dans la natitre, in-16, 358 pag, e 84 fig. 

Paris, 1891. 
Ramalho Ortigão — cA fabrica das Caldas da Cainha, 8.°. 22 pag. 

Porto. 1891. 
Paul Choffat — [J\^ote sur le crétacique des environs de Torres "Ue- 

dras, de ^Peniche et de Cercal. 8.°, 43 pag. Lisbonne, 1891. 

— Espagne et "'Portugal (extrait de YzAnnuaire Géologique universel, 

tem VI), 8 o , 18 pag. iaris, 1891. 
Proença Vieika — Exemplo frisanie da importância da uiilisação dos 

dados geológicos na escolha dos traçados dos caminhos de ferro. 

8 ", 9 pag. e í cart. Lisboa, 1891. 
Nerv Delgado — o4 s cavernas em geral e especialmente as de Santo 

cAdiião em T rar } -os-S\íonies (extracto da "Prevista de Portugal), 

8.°, 16 pag. Porto, 1892. 



"Boletim da Sociedade Broleriana, tom. VIII, fase. 3~4, tom. IX. fase. 
1. Coimbra-, 1890-91. 

'Boletim do zAlhcncu Commercial do Porto. vol. I, n. ós 3-6. Porto, 1891. 

Prevista de Guimarães, tom. VIII, n.° 4. Guimarães, 1891. 

■pevista do Minho, vol. VIÍ, n. os 10-14 e 18-19. Espozende, 1891. 

"pevista dos lycevs, vol. I, n. os 2-3. Porto, 1891. 

Instituto, vol" XXXIX. n. os i-5 Coimbra, 1891. 

"pevista de obras publicas e minas. tom. XXII, n. os 262-264 Lis- 
boa, iíhji. 

■pevue mcnsuclle de IFcole d'c/\nthrohologie. tom. I, n. os 9-11 Paris, 
1 89 1 . 

perue scienti fique. tom. 48, n cS 9-26 e tom. 49, n. os 1-5. Paris. 1891. 

-Annales de la Société d ' Archéologie de "Pruxclles, tom. V, fase. 1-4. 
Bruxclles. 1891 . 

~()erliandlungen der Berliner Gesselschaft fnr Anthrofologie. Ethno- 
logieund Upgèschichíe, n. os de maio-junho. Berlim/iSgi. 

Polletino dei Real (Jomitato geológico d' Itália, vol. II, n. os 2-3. Ro- 
ma, 1R91. 

■Ihilletins de la Société d' Anthropologie de Paris, tom. II, fase. 1-2. 
Paris, 1891. 



iht.ietin de la Social c d es scienccs hisloriques et naturelles de Semur, 

n.° 5. Semur, 1891. 
'Bulletin de la Societé vaudoise de scienccs naturelles, vol. XXVII, 

n.° 104. Lausanne, 1891. 
'Ihilletin de la Sociètè belge de microscopie, tom. XVII, n.° 10 e tom. 

XVIII, n. os i-a. Bruxelles, 1891. 
Feuille des jeunes naturalistes, n. os 25i-255. Paris, 1890. 
•Mèlusiné, tom. V, n. lS 11-12, Paris, 1891. 
■J^ecords of the Geological Survey o/V^ezu South Wales, vol. II, part. 

I-IIl. Sydney, 1890-91. 
The Journal of the Anthropological institute of Great Britain and 

Ireland. vol. XXXI, n.° 2. Londres, 1 89 1 . 
oAbstracts of the proceedings of the Geological Society of hondon, 

n. os 578-581. Londres, 1891. 
X)erhandlungen der haiserlich-kòniglichen zoologisch-botanischen 

Gesellschaft in Wien, n. os setembro-dezembró. Vienna, 1891. 



AVISO 



A correspondência, publicações e communicações 
destinadas á Sociedade Carlos Ribeiro ou á Revista de 
Sciencias Naturaes e Sociaes, deverão ser endereçadas 
d'ora avante á Livraria Lugan & Genelioux, rua dos Clé- 
rigos, 96 e 98 — Porto. 



ULTIMAS PUBLICAÇÕES 

DA 

LIVRARIA J. B. BAILLIÈRE & FILS 

iq, rue Hautefeuille — 'Paris 

Th. Huxley — Les sciences naturelles et Véducation. — Um vol. in-16 

com 35o pag. . 3 fr. 5o 

— La place de Vhomme dans la nature. — Um vol. in-16 

com 358 pag. e 84 fig 3 fr. 5o 

Arnould Locard — Les coquilles marines des cotes de France. —Um 

vol. in-8.° gr. com 384 pag. e 348 grav. 18 fr. 

REYHE MEHSDELLE DE I/ÉCOLE D1NTHR0P0L0GIE DE PARIS 

Prix d'a]Donnement 

Un an, pour tous pays • 10 fr. 

Likairie FÉLIX ALCAN, 108, boalevard Saint-Germain. — PARIS 







REVISTA 



DE 



Sciencias Naturaes e Sociaes 



ORGAO DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Publicação trimestral 



"Directores — RICARDO SEVERO e "ROCHA PEIXOTO 



Yolume Segundo — B.° 8 




PORTO 

TYPOGRAPHIA OCCIDENTAL 
8o, Rua da Fabrica, 8o 

1893 



SUMMARIO 



MEMORIAS ORIGINAES 

zÁ tatuagem em Portugal, por Rocha Peixoto. . . . pag. 145 

VARIA 

O diamante, por Alfredo Bensaude . . . . . . . pag. i5o/ 

BIBLIOGRAPHIA 

Crime et criminei, de F. Ferraz de Macedo, por Júlio de 

Mattos . . ' 1 ... pag. i85 

OS MORTOS 

Estado da Veiga, por Fonseca Cardoso pag. 190 

PLANCHAS 

Tatuagens -portuguesas (viu pi.) pag. 1 58 



A TATUAGEM EM PORTUGAL 



(Conclusão) 



i.* Emblemas profissionaes 

Raros os que se referem a officios ; communs, as an- 
coras nos marinheiros, simples ou ornadas. Instrumentos 
de musica — violas, guitarras (fíg. i, pi. I), etc. — nos toca- 
dores. Lacassagne dá uma lista extensa das tatuagens ado- 
ptadas por membros de grande numero de profissões — 
esquadro e fio de prumo, nos pedreiros ; parafusos, nos ser- 
ralheiros ; pincéis, nos pintores; violino e arco, nos mú- 
sicos; compasso, nos carpinteiros; cabeças de boi, nos 
magarefes; pistolas, nos armeiros ; ancoras, nos marinhei- 
ros; botas, nos sapateiros, etc. — accusando a sua impor- 
tância como signal de identidade, que realmente é valiosa. 

Os emblemas militares são pouco communs, mas em 
maior numero do que os precedentes : datas da inscripção 
nas fileiras ; números de matricula, de companhia, de 
bateria e de regimento ; um tambor e duas baquetas cru- 
zadas ; espadas, peças de artilheria. Estes signaes appa- 
recem em soldados dos exércitos italiano e francez e ha-os 
mesmo especiaes para distinguir os membros de diversas 
armas : cavallos e clarins, na cavallaria ; espingardas, na 
infanteria ; canhões e granadas, na artilheria, etc. Tanto 

VOL. II jO 



I46 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



basta para incluir os emblemas militares na cathegoria 
dos proíissionaes. 

2. a Emblemas amorosos e eróticos 

Os emblemas amorosos e eróticos são dos que mais 
predominam nos nossos tatuados. Umas vezes apenas as 
iniciaes da mulher estimada; outras, seguidas das iniciaes 
dos operados ; outras ainda, fundidas, ex. : A. J. N. (Anna 
e José das Neves, mulher e marido); frequentemente a 
data da iniciação no amor. Corações simples encimados 
por uma cruz (fig. 2, pi. I), um triangulo (fíg. 3, pi. I), um 
signo-saimão, uma coroa real, um desenho ornamental 
(fig. 4, pi. í) ; corações inflammaclos, trespassados por 
settas (fig. 5, pi. í), ou com as cinco chagas no interior 
do contorno; corações duplos (fíg. 6, pi. I e fig. 7, pi. Ií), 
unidos, com ou sem iniciaes. Estas lettras, mscripções ou 
symbolos são precisamente análogos aos clescriptos por 
Lombroso e, nomeadamente, aos das populações da Lom- 
bardia e do Piemonte. 

As tatuagens que se referem ao amor filial ou a 
amizade são mais raras: lettras, nomes e datas. Entre as 
primeiras exemplificarei com a seguinte, levantada no 
ante-braço esquerdo d'um soldado: A. M. L. , iniciaes do 
nome do tatuado; em seguida .M. C, iniciaes do nome 
da mãe; depois a palavra AMOR que o tatuado dizia re- 
ferir-se ao profundo sentimento maternal ; por ultimo, duas 
mãos entrelaçadas, a da mãe e a do rapaz (fig. 8, pi. II). Das 
segundas é curiosa a seguinte, relatada pelo snr. Castello 
Branco: num delinquente de existência desregradíssima, 
viciosa e turbulenta deparou-sc-lhe o desenho dum tu- 
mulo como recordação do seu único amigo, lastimando o 
tatuado não poder ter-lhe erguido um mausoléu de már- 
more. Convém approximar d'este caso o figurado no Atlas 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l/\J 



de Lombroso em que um tatuado fez desenhar no braço 
esquerdo o tumulo do pae. 

As eróticas são numerosas e encontram-se quasi 
exclusivamente nos que habitam assiduamente as prisões; 
algumas não poderiam ser descriptas, como diz Lacas- 
sagne algures, nem em latim. As mais vulgares são os 
phallus, ornamentados por vezes, outras pretendendo 
accusar uma erecção burlescamente exaggerada. As ta- 
tuagens d'alguns encarcerados da Penitenciaria de Lisboa 
— um homem nú com um erotismo de satyro na perna 
esquefda e uma mulher nua na direita — são communs 
n'estas ou em outras regiões do corpo. As mulheres são 
ordinariamente desenhadas sob formas rotundas ; num 
tatuado que examinei recentemente havia no ante-braço 
esquerdo a figura d'uma mulher em que a preoccupação 
dominante fora a amplitude dos seios, do ventre e das 
nádegas ; no ante-braço direito um homem egualmente 
nú com o órgão sexual caracteristico de dimensões quasi 
eguaes ás de todo o desenho. O distincto medico-alienista 
dr. Júlio de Mattos iníormou-me que tivera noticia dum 
tatuado que fizera desenhar no braço um Christo com 
um phallus em erecção de dimensões desproporcionadas. 

Um tatuado, autochtone de Lisboa, tinha no lado 
direito do peito duas figuras em attitude e nudez que fa- 
ziam lembrar os, conhecidos vicios de Sodoma ; referencias 
a esta depravação do instincto genésico apparecem mais, 
embora com pequena percentagem. Das d'esta natureza 
enumeradas por Lombroso bastará referir a de um cão 
sodomisando um gendarme, conforme as palavras do pró- 
prio tatuado : un chien qui emmanche un gendarme. 

De saphistas e pederastes, nos quaes allusões litteraes 
ou symbolicas a essas preversões torpes são vulgares, nada 
observei nem sequer recebi noticia. As mãos entrelaçadas 
em que Lacassagne julga ver a marca denunciativa dos 
pederastes, significam, nos desenhos que examinei, o u 



1^8 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIUEIRO 



amizade, ou amor absolutamente naturaes. E' presumível 
todavia que, dada a analogia das tatuagens portuguezas 
com as das populações que nos servem de comparação, se 
encontrem desenhos ou inscripções com os intuitos das 
seguintes: mãos entrelaçadas e a phrase — L'amitiê unit 
les cceurs; a simples inscnpção flagrantemente significa- 
tiva — Ami du contraire, etc. 

A existência de tatuagens nos logares mais sensiveis 
da pelle e sobre a qual Berchon, Lacassagne e Lombroso 
accummularam excellentes materiaes, foi verificada tam 
pouco entre alguns tatuados portuguezes. O eminente 
anthropologista francez refere, entre muitas que é desne- 
cessário ennumerar, as inscripções desenhadas logo acima 
do púbis : ^Plazsir des dames, Venez, mesdames, an robinet 
d'amour, etc; ou numa nádega: um zuavo com a bayo- 
neta cruzada e sustentando uma bandeira onde se lê — 
On ri entre fias. Lombroso narra, entre outros, o facto 
dum tatuado que fizera desenhar na glande a cara d'uma 
mulher e, de modo tal, que a bocca correspondia ao meato 
urinário; ainda outro tinha escripto ao longo da verga: 
Entra tutto. 

Trez tatuados portuguezes tinham no penis : um, o 
numero da companhia a que pertencera quando era mili- 
tar; outro, um phallus grosseiramente desenhado; o ter- 
ceiro, as iniciaes do nome da amante. 



3. a Emblemas religiosos 

Os symbolos de religião, especialmente nos indivíduos 
não criminosos, são os mais vulgares e variadíssimos na 
forma, na extensão e na sede. Já se alludiu á antiguidade 
d'esta forma da tatuagem em grande numero de povos e 
principalmente entre os chnstãos, os quaes viram tal prá- 
tica condemnada desde Moysés até ás affastadas delibe- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIHEIRO I49 



rações prohíbitivas dos concílios ; a despeito de tudo, o 
emblema religioso persistiu nas populações profunda- 
mente devotas, como diz o anthropologista de Turim 
quando se refere ao povo de Itália e todos nós relativa- 
mente aos portuguezes, uma vez conhecida a proporção 
avultada dos symbolos catholicos. Essa persistência 
que é explicada satisfactoriamente e a um tempo pelo 
atavismo e, mais ainda, pela vitalidade que a religião 
conserva nas tradições, teve períodos, certo, de desegual 
generalisação. Por tempos do 'Desejado, antes de Alcácer 
Quibir, raro era o popular que não marcasse no peito o 
Christo ou as inscripções e emblemas figurativos da sua 
tragedia n'este mundo ; e mesmo porque a guerra vinha 
próxima, se ficassem em terras de moiros, restasse ao 
menos o vestígio de que haviam morrido abraçados na 
inabalável fé do seu Deus. E' este sentimento ainda o que 
domina em alguns tatuados francezes fazendo desenhar 
Christos, anjos e santos da sua devoção ; certos marinhei- 
ros de Itália, afim de que os reconheçam se morrerem no 
mar alto ; os peregrinos de Lorette, para que lhes fique 
inolvidável a data de sua piedosa romagem; os visitantes 
dos Logares Santos ; muito portuguez que emigra antes 
ou durante a primeira viagem aos paizes longínquos ; e 
até varias tribus- barbaras tatuando-se com ferro em braza 
para que, antes de entrarem no paraizo, tenham soffrido 
a purificação do fogo que limpa todas as impurezas ter- 
renas. 

A percentagem da figura religiosa é, pois, a mais ele- 
vada. Os dois traços da cruz ou cinco pontos represen- 
tando as cinco chagas de Christo, as lettras I. N. R. I. 
sobpostas aos dois cravos cruzados com que pregaram 
as mãos do Senhor no madeiro, são as mais simples e 
ingénuas. Vêem seguidamente as cruzes ornamentadas, 
com a coroa de espinhos ao través, a legenda que diz de 
que povo Jesus era rei, pedestaes onde o craneo e dois 



50 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



fémures significam a ineluctavel certeza do fim derradeiro 
(fig. 9, pi. II). Os Christos, numerosissimos, são de ordiná- 
rio acompanhados dos emblemas que contam pittoresca- 
mente toda essa adorável historia de resignação no marty- 
rio: o cálix com que lhe appareceu o anjo no monte Oli- 
vete ; os cilícios com que lhe applicaram os açoites; os 
dados com que lhe jogaram a túnica : a lança com que Lon- 
guinhos o varou ; a esponja que lhe chegaram á bocca 
para beber o fel amargoso ; a escada a que subiram para 
o desligarem da cruz; as tenazes com que lhe arrancaram 
os cravos ; o Sol e a Lua, emfim, que representam a passa- 
gem da claridade para as trevas, logo que Jesus expirou, 
e as pedras se partiram e o mundo tremeu (fig. 10, pi. III). 

Outras vezes ainda tem o Christo desenhado lateral- 
mente as imagens de S. João e de Nossa Senhora, ou, 
em vezd'estes, as figuras de pessoas de família do tatuado 
em postura de oração; os sudários ou o rosto de Jesus 
inscnpto na coroa de espinhos e com algum dos emble- 
mas referidos, embora mais ou menos modificados, são 
egualmente communs (fig. ir, pi. IVj, Outros desenhos al- 
lusivos a fastos da egreja apresentam-se com uma fre- 
quência e variedade dependente da vontade do tatuado ou 
do seu operador: santos de particular devoção (fig. 12, 
pi. V), os braços de S. Francisco na attitude tradíccional 
(fig. 13, pi. IV), o anjo da guarda dominando Satanaz 
sob os pés e numa das mãos a balança que peza as cul- 
pas e as boas acções (úg. 14, pi. VI). 

Contrapõe-se a esta multiplicidade de desenhos com 
o caracter religioso a carência de figuras patrióticas, 
abundantes nos italianos, sobretudo nos militares que 
serviram na guerra contra a Áustria, e ainda entre os fran- 
cezes que, além de reproduzirem os retratos dos homens 
mais proeminentes do seu paíz, imprimem na pelle bus- 
tos da Republica, imagens de alsacianos, as armas de 
Strasbourg, cabeças de prussianos, etc. Este facto expli- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 151 



ca-se talvez pela falta de acontecimentos de vulto que, 
até ha pouco, tenham sobresaltado deveras o paiz e ainda 
pela noção de amor pátrio, tam geralmente obliterado. 



4. a Emblemas metaphoras e phantasistas 

De todos os signaes encontrados entre os nossos ta- 
tuados o mais espalhado é o signo-samão, saimão ou sanse- 
limão (fig. 15, pi. IV) destinado, na crença popular, a de- 
fender dos maus olhados ou a afugentar as coisas ruins. 
Esta marca, cuja interpretação ethnographica está por fa- 
zer (*), apparece em todos os objectos da arte e da indus- 
tria populares : na cerâmica, na ourivesaria, nos utensílios 
de pesca, nas cangas dos bois. As formas são modificadas 
como se vê na fig. 16, da pi. VII por exemplo, e, por ven- 
tura, formas estranhas identifica-as o povo com o seu amu- 
leto. A alliança da cruz com a marca clássica merece re- 
paro visto ser desnecessária a figuração de dois symbolos 
destinados provavelmente aos mesmos efíeitos, facto já ob- 
servado por Leite de Vasconcellos no seu estudo sobre a 
ornamentação dos jugos. Esta é, de resto, a nossa tatua- 
gem clássica que convém portanto assignalar e tanto 
mais quanto nos trabalhos que nos teem servido de com- 
paração não é accusada uma só vez. 

Em todos os povos que se tatuam a adopção dum 
determinado desenho representativo duma ideia mais 



(1) O meu amigo e illustre ethnographo J. Leite de Vasconcellos 
mostrou-me um trabalho em preparação destinado á Revista da Socie- 
dade Carlos Ribeiro e relativo ao famoso signal, o qual, sem duvida, 
reunirá a maior somma de documentos sobre o assumpto e me dispensa, 
consequentemente, de alguma consideração insignificante que poderia 
aqui apresentar a tal respeito. 



1^2 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

geralmente dominante é um facto verificado ; no francez 
o amor perfeito, «flor da recordação e da esperança», apre- 
senta-se com uma singular profusão acompanhado de le- 
gendas que dizem bem o intuito do tatuado — d elle, d 
Rosalie, d Constance — ou até o retrato da amante tra- 
çado numa das pétalas. Os emblemas dos camorristas, 
dos franc-maçons, de outras sociedades secretas, de seitas 
e de castas, restringem o sentido quasi universal que se 
observa no grande numero de tatuagens já descriptas e 
comparadas aos grupos que as adoptam ; e quando, como 
no nosso caso, o signal é, a bem dizer, privativo d'um 
povo, existe algum facto de ordem social, psychologica 
ou ethnographica a concluir. Feita a interpretação do 
signo estará tam pouco explicada a razão da sua abun- 
dância e persistência. 

Na cathegoria dos emblemas-metaphoras ha motivos 
para incluir os corações trespassados simples ou unidos 
(fig. 17, pi. VII), cominiciaes ou datas, alguns desenhos obs- 
cenos mesmo, visto alludirem a aspectos vários da paixão 
amorosa; estão ainda n'este caso as mãos que se apertam. 

A tatuagem exclusivamente phantasista é entre nós 
o peixe, o lagarto, a serpente e a ave (figs. 18 e 19, pi. VII); 
os vasos de flores (fig. 20, pi. VIII) e o sol (fig. 21, pi. VIII); 
o annel ; todos os desenhos, emfim, modificados na sim- 
plicidade primitiva pela preoccupação ornamental (fig. 22, 
pi. VIII) gracil ou de symetria. 

5. a Inscripções 

Este capitulo quasi poderia ser supprimido do quadro 
pois que as iniciaes e as datas já enumeradas nas linhas 
que precedem constituem a grande parte das inscripções 
dos nossos tatuados. A existência, porém, duma certa, 
com que o nosso amigo e illustre archeologo, dr. Santos 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO I 5 3 



Rocha, deparou num tatuado da Figueira da Foz leva ru- 
me a abrir especialmente este paragrapho. Trata-seda for- 
mula magica da fig. 23 da pi. VIII, que aqui reproduzo 



--S A T O R 
A R E P O 
TENE T 
OPERA 
ROTAS- 



a qual, como se vê, poderá ser egualmente lida nas qua- 
tro direcções indicadas pelos traços. Da sua interpretação 
oceuparam-se Reinhold Koehler, que fez sobre ella uma 
communicação á Sociedade anthropologica de Berlim, e 
Webster, que a comentou e ampliou no jornal inglez The 
cAcademy; este ultimo trabalho foi trasladado para por- 
tuguez na Revista do Minho, pelo snr. J. Leite de Vas- 
concellos. E', conforme a affirmação dos dois sábios es- 
trangeiros referidos, um remédio magico contra a febre 
dos homens e dos animaes e a sua antiguidade vae até á 
epocha romana, existindo ainda hoje em vários paizes da 
Europa e no Brazil. A origem remonta provavelmente a 
algum estribilho de ritual da Roma paga, apropriada mais 
tarde, como muitas superstições antigas, pelo christia- 
nismo. As antigas nominas e ainda as orações impressas 
sob uma imagem gravada e cuja leitura e posse livra de 
epidemias e febres, approximam-se, no intuito, da for- 
mula transcripta. A possibilidade de ser lida horisontal e 
perpendicularmente da direita para a esquerda ou vice- 
versa é caracteristica n'esta espécie de amuletos ; se se lê 
num sentido satisfaz e torna propícios os bons deuses, 
attrahindo-os para a cura ; contrario o resultado se é lida 
ás vessas. 



154 ' REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Infelizmente quem apresentava esta singular tatuagem 
não deu o motivo que levou o operador a imprimir-lh'a ; 
seria interessante conhecer a intenção e explicação popu- 
lar da sua presença. 



IV 



ESTUDO ANTHROPOLOGICO DA TATUAGEM 



Similitude da mutilação, no processo e na índole, entre povos sem laço algum etbnogeni- 
co ; sua explicação pelas viagens, emigrações, imposição pela conquista e analogia do 
espirito humano (Darwin). Factores: a religião, a imitação, a ociosidade, a paixão 
amorosa e o instincto erótico; a necessidade de exprimir ideias por symbolos, nos 
analphabetos (Lacassagne); a vitalidade da tradição (Lombroso). 



A diflusão da tatuagem executada por um mesmo 
processo e sob moldes inteiramente similares, em popula- 
ções cujos laços ethnogemcos são nullos ou por emquanto 
desconhecidos, põe de parte, consequentemente e desde o 
principio, a ideia dum parentesco estreito entre muitos 
dos povos que a adoptam. Em paizes verdadeiramente 
distmctos sob o ponto de vista anthropologico ha prati- 
cas communs cuja explicação está nas viagens dos mem- 
bros de familias tam diversas, nas emigrações, na impo- 
sição pelas conquistas e ainda mais na similitude do ins- 
tincto do homem. Não se comprehende d'outro modo a 
coexistência duma mesma mutilação cephalica entre cer- 
tos povos europeus e os habitantes da Patagonia, uma 
dada amputação digital em tribus das costas da Africa 
occidental e do Paraguay, a tatuagem por picadas, em- 
flm, em povos sem relação alguma conhecida nos tempos 
históricos. A hypothese da juncção, em períodos geológi- 
cos anteriores, de continentes actualmente separados, seria 
ainda precoce e, em muitos casos, improvável. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l$$ 



A prática da tatuagem, pelo modo como está quasi 
universalisada e por certas leis geraes a que se subordina 
em todos os tempos e em todos os logares, cxplica-se sa- 
tisfatoriamente para todos os povos que a usam com de- 
terminantes absolutamente as mesmas. As causas apre- 
sentadas pelo eminente anthropologista de Turim e que 
explicam a persistência e a índole dos desenhos são, na 
quasi totalidade, as mesmas que satisfazem aos que estu- 
dam a tatuagem em Portugal. Ora é de ver — principal- 
mente se estendermos a pesquiza a todas as cathegorias 
da mutilação — que entre povos de origens diversíssimas 
a interpretação do costume tem egualmente o mesmo ca- 
bimento. Tal facto demonstra que, n'este como em outros 
hábitos, o homem procede por um instincto commum, 
sem intervenção, muitas vezes, de presuppostas relações 
de qualquer ordem. 

Seguindo as causas que Lombroso refere para ex- 
plicar a perpetuidade da mutilação temos, em primeiro 
logar, a religião. E manifesta, entre nós, a importância 
deste motivo; a existência e a multiplicidade de qualquer 
symbolo religioso é, no grande numero de casos, justi- 
ficada pelos operados como signaes evidentes da sua fé 
christã, uma marca que os denuncie catholicos se morre- 
rem no mar ou nos logares distantes. O Christo é, de ordi- 
nário, a imagem preferida ; mas o santo de particular 
sympathia, mais que qualquer outro, demonstra a preoc- 
cupação religiosa do intento. Do mesmo modo justificam 
a natureza d'estas tatuagens não só as populações a que 
precedentemente nos referimos, mas ainda povos como 
os birmans e os zelandezes, entre os quaes os próprios 
sacerdotes exercem a arte. 

A imitação tem egualmente valor como causa de pro- 
pagação da tatuagem. Um tatuado de Cascaes que, nas 
suas viagens pela costa, continuava a espalhar o costume, 
dizia que, em rapaz, era moda semelhante uso. E interes- 



1^6 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



sante approximar desta explicação a que foi dada a La- 
cassagne por um dos vários encarcerados de certa prisão, 
tatuados todos no braço com a phrase Pas de chance: 
adoptava-a tam pouco ftarceque tons les prisonniers étaient 
ainsi. 

A permanência nas prisões, nos navios e nos quar- 
téis, dando logar a períodos de grande ociosidade, origi- 
na tam pouco a persistência fecunda do costume. Um 
pescador de Cezimbra, operador emérito, nos intervallos 
dos trabalhos marítimos desenhava os braços dos compa- 
nheiros sem propósito de lucro mas apenas para matar o 
tempo. O snr. Queiroz Velloso relata o facto observado 
numa clinica, d'uma mulher tatuada pelo marido nas ho- 
ras vagas e por não ter que fazer. Um outro operado affir- 
mava-me que se sujeitava á prática por brincadeira ; al- 
guns frequentadores da Relação do Porto não explicavam 
de modo nenhum a existência do desenho nem a sua si- 
gnificação. 

As paixões humanas mais elevadas explicam ainda 
entre nós algumas tatuagens representativas da amizade 
filial, de varias recordações gratas, de amor, até, em al- 
guns casos; certos operados em que se encontram sim- 
ples corações escolhiam este desenho com um sentido 
oceulto e honesto dirigido á mulher estimada. Mas geral- 
mente o instincto erótico é o motivo fundamental das fi- 
guras amorosas e, naturalmente, das pornographicas. 

Acima, porém, de todas estas causas é necessário re- 
conhecer, com Lacassagne, a necessidade das pessoas anal- 
phabetas em exprimirem por figuras ou symbolos as ideias 
que não podiam representar d'outr'arte, facto tam remoto 
que, como geralmente se sabe, antes da invenção da es- 
cripta já o pensamento era transmittido pelo hieroglypho. 
Na presença d'uma tatuagem representativa do martyro- 
logio de Christo o operado conta uma historia que nunca 
saberia reproduzir litteralmente; as figuras amorosas ou 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIIIKIRO I$7 



obscenas envolvem muitas vezes pensamentos relativa- 
mente complexos ; os astros, as flores, os animaes, a an- 
cora, o navio, o tambor e todas as marcas profissionaes 
emfim são representações objectivas de ideias cuja trans- 
missão mal fariam por outro modo. Em appoio d'esta hy- 
pothesc, cuja verosimilhança é attestada por muitos fa- 
ctos anteriormente indicados, o distincto medico francez 
assignala outros por ventura mais decisivos. Interessa so- 
bremodo attender ás tatuagens simultaneamente figurati- 
vas e phoneticas quasi exclusivas dos indivíduos cuja cul- 
tura é demasiadamente rudimentar ; um coração em cham- 
mas acima do qual estava escripta a palavra mon e sob- 
posta a phrase à toi significava, no dizer do tatuado, mon 
coeur brúle ftour toi ; as iniciaes V. L. E. B. V. juntas a dois 
copos e uma garrafa queriam dizer vive Vamonr et le bon 
vin; o numero 20 (vingt), um coração (coeur) e a inscri- 
pção d belles, traduzir-se-hia pelas palavras vainqiieur des 
belles. 

Por ultimo — e esta c a determinante principal para 
Lombroso — a tradição mflue poderosamente na perpetui- 
dade do costume, causa deveras importante e que não ca- 
rece de justificação depois de, conhecido o esboço histó- 
rico já exposto, considerarmos que muitas superstições 
dos povos primitivos se vêem transmittindo até hoje, com 
tanta mais- tenacidade e semelhança com os typos primor- 
diaes, quanto os povos que a conservam estão mais atra- 
zados em cultura. 

Porto, maio, 1891. 

Rocha Peixoto. 



I58 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



BIBLIOGRAPHIA 



A. A. Castello Branco. — Estudos penitenciários e criminaes, Lis- 
boa, 1888. 
A. Lacassagne. — Les tatouages (Etude anthropologique et médico- 

legale), Paris, i 881. 
Charles Darwin. — La descendance de Vhomme, Paris, 188 1. 
Césare Lombroso. — L ' homme criminei , Paris, 1887. 
E. Magitot. — Essais sur les mutilations ethniques, in Compte-rendu 

du Congrès International .d'anthropologie et d' archéologie pré- 

historiqaes (g èmc session), Lisbonne, 1884. 
Ernest Berchon. — Histoire médicale du tatouage, Paris, 1869. 
Gabriel de Mortillet. — Le prêhistorique, Paris, 1885. 
Leite de Vasconcellos. — Formulas magicas, in Revista do Minho, 

I vol., Barcellos, 1886. 
Nery Delgado. — La grotte de Furninha à Peniche, in Compte-rendu 

do congresso de Lisboa, Lisbonne, 1884. 
Queiroz Velloso. — A tatuagem nos delinquentes, in Revista do foro 

portugue^, vol. IV, Porto, 1889. 



VARIA 



O diamante (i) 

O estudo profícuo dos mineraes começou apenas no fim do século 
passado, na época em que se principiou a estabelecer pela experiência 
os princípios fundamentaes da chimica moderna, sem os quaes não po- 
dia existir a mineralogia. Até então poucos auctores se occuparam de 
mineraes; e o pouco que escreveram é mais ou menos eivado dos erros 
provenientes da antiga e vaidosa pretensão philosophica de descobrir os 
segredos da natureza simplesmente com o auxilio do raciocinio e da 
phantasia. 

As seguintes citações provam-n'o de sobejo : 

Trinta annos antes de J. G. sustentava Diodorus Siculus que o 
crystal de rocha era formado da mais pura agua congelada, não pelo 
frio, mas pela força d'um fogo divino. 

Séneca julga o crystal de rocha egualmente agua congelada, mas 
por um frio prolongado em virtude do qual o gelo adquiriu tal densi- 
dade que o que era anteriormente humidade se transformou em pedra 
dura. 

Plinio, o naturalista, expende também a opinião de Séneca na sua 
historia natural. 

O próprio Linneo (1707 a 1778) a quem a botânica moderna tanto 
deve, tem as idéas mais phantasticas no que respeita aos mineraes, com- 
quanto se lhe devam observações de algum rigor relativamente ás suas 
formas crystallinas. Tinha elle percebido que substancias muito diversas 

(1) Este artigo era destinado a outra Revista de cuja redacção um dos directores 
d'csta publicação fazia parte. Devidamente auetorisados pelo auetor inserimol-o n'esta sec- 
ção, principalmente pelo interesse das informações relativas ao Iam celebrado diamante 
"Bragança. 

K- da % 



IÓO REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



podem mostrar formas crystallographicas idênticas; e esta semelhança 
de forma levou-o á convicção de que os saes deviam ser considerados 
como geradores da crystallisação e que a união de um determinado sal 
com uma dada espécie de pedra produzia a fecundação pela qual se 
communica a essa pedra a faculdade de crystallisar em forma idêntica 
á do sal. O diamante, por exemplo, era comprehendido como uma es- 
pécie de alúmen, porque mostra as mesmas formas de crystallisação que 
este sal tem; por isso lhe deu o nome de alúmen adamas, ou alúmen 
diamante. 

Desconheciam-se pois até quasi ao fim do século passado todos os 
princípios da morphologia e da composição dos mineraes, cuja desco- 
berta gradual veio constituir a mineralogia moderna. 

É por isso que as litteraturas antigas, nas quaes ás vezes as scien- 
cias contemporâneas vão encontrar os germens das suas concepções fun- 
damentaes, se acham quasi por completo destituidas de indicações apro- 
veitáveis acerca dos mineraes. São tão deficientes as descripções que a 
antiguidade nos legou e tão entremeadas de crenças phantasticas, que 
raras vezes se pôde reconhecer a substancia descripta. Verdade é que 
alguns nomes antigos de mineraes se encontram mais ou menos moder- 
nisados na actual nomenclatura mineralógica; mas é muito duvidoso 
que correspondam á sua significação primitiva. 

Uma classe de mineraes faz porém, até certo ponto, excepção a 
esta regra, e o seu conhecimento e apreço perdeu-se na noite dos tem- 
pos. É a dos mineraes que, em virtude da sua côr agradável, viveza de 
brilho e grande dureza, estavam naturalmente indicados pelo seu aspe- 
cto esthetico para objectos de adorno, que foram usados desde as epo- 
chas prehistoricas (i). São os que denominámos pedras preciosas, as 
quaes foram desde a antiguidade muitas vezes descriptas em tratados 
especiaes cujas definições são ás vezes bastante precisas para que as re- 
conheçamos, comquanto seja corrente attribuirem-se-lhes propriedades 
chimericas e absurdas, que no emtanto ha certo interesse em conhecer, 
ao menos como subsidio para a historia do desenvolvimento das conce- 
pções humanas. 

Os primeiros diamantes que se conheceram na Europa provieram 
da índia, onde eram reservados desde os tempos mais remotos para 
adorno dos Ídolos e dos monarchas. Segundo uma antiga lenda um dos 
mais notáveis diamantes conhecidos (o Kohinur) pertenceu ao heroe Kar- 
na, filho do Sol, que viveu, segundo a mythologia indica, milhares d'an- 



(i) Os povos prehistoricos de Portugal usaram para o fabrico de contas uma va- 
riedade de turqueza a que dei o nome de Ribeirite. (Vide Congrès intem.itional d'anthro- 
pologie et d\irchéclogie préhistoriques, 1880, pag. 693. Lisbonne, 1884). 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l6í 



nos A. C. Nos livros sagrados dos hindus ha varias passagens cm que se 
allude a pedras preciosas e se lhes attribuem propriedades maravilho- 
sas. Os antigos poemas épicos Ramayana e Mahabhárata referem-se a 
ellas. 

O seguinte aphorismo sanscrito : « o diamante não é cortado por 
nenhuma pedra, mas corta todas as outras»; e ainda este outro: ao dia- 
mante d cortado pelo diamante» provam que a sua grande dureza era 
conhecida dos antigos Índios, e tam pouco conhecido o segredo sobre 
que se baseia a arte de o lapidar. 

No Egypto não é certo que houvesse conhecimento do diamante, 
comquanto se saiba que a arte de lapidar e gravar outras pedras attin- 
giu n'aquelle paiz um desenvolvimento notável, como de resto todas as 
artes. 

Na Bíblia também se fazem referencias ao diamante, sobretudo 
no Êxodo, quando se prescrevem as vestes do grão sacerdote; o seu nome 
hebraico (iáhlóm) não é, porém, só tradusivel por diamante: segundo 
alguns críticos pôde corresponder também a ortyx ou ágata negra. 

E sobretudo na índia que o conhecimento do diamante na anti- 
guidade se torna incontestável. A grande riqueza da península hindus- 
tanica attrahiu desde remota antiguidade os commerciantes de diversos 
povos áquellas paragens, de modo que nos tempos de Roma (século de 
Augusto) existiam communicaçÕes com aquelle paiz, para onde eram 
levadas annualmente quantiosas sommas de dinheiro em troca das suas 
especiarias, sedas, marfins, pedras preciosas, etc. A opulência dos seus 
monarchas despertou a cubica dos conquistadores. 

No começo do século XI os musulmanos da Pérsia, condusidos 
por um chefe turco, Mahamud-el-Gaznevide, levaram áquelles inofFen- 
sivos povos a sua cubica e o seu culto, que se tornou depois o culto de 
muitos hindus. 

Aos musulmanos seguiram-se os Mogols, cujos chefes reinaram em 
Dehli até ao século passado sob o nome de Grão-Mogols. O saque dos 
antigos templos, assim como a presa dos thesouros dos vencidos monar- 
chas indígenas, accumularam nas mãos dos Mogols tal quantidade de 
diamantes e pedras preciosas, que o celebre viajante Tavernier avaliava 
(i665) em 160 milhões de francos (2^:800 contos de reis) o mais rico dos 
sete thronos do Grão-Mogoi Aurcng Zeb. A rápida decadência dos Mo- 
gols explica a diffusão de grande parte d'estas preciosidades pelos povos 
do occidente. 



VOL. TI 



11 



IÓ2 RVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Os nomes que o diamante recebeu em quasi todas as linguas da 
moderna Europa, derivam-se do grego aclamas, indomável, comqunnto 
não haja certeza que os antigos gregos empregassem este termo para de- 
signar aquella pedra ; primeiramente foi usado para designar a matéria 
de que os deuses fabricam as suas armas invulneráveis. (1) 

Theophrasto (371-264 annos antes de J. C.) menciona o aclamas 
incidentemente no seu tratado de pedras preciosas, sem que seja incon- 
testável que por tal expressão comprehcndesse o diamante. Entre as 
múltiplas propriedades phantasticas que attribue ás pedras, é curiosa e 
notável a do sexo, cujo ultimo vestígio se encontra ainda, como vimos, 
nos escriptos mineralógicos de Linneu. E provavelmente na epocha que 
medeia entre 1 heophrasto e Plinio o naturalista, que o diamante foi co- 
nhecido na Europa, mas não é possivel fixar-se essa epocha de uma ma- 
neira precisa. 

Plinio o naturalista (victimado no anno 79 da era christã pela pri- 
meira erupção histórica do Vesúvio) reunia sem critério, na sua celebre 
Historia natural, o que em seu tempo se conhecia e dizia do dia- 



(1) Camões emprega algumas vezes nos Lusíadas a palavra diamante no primitivo 
sentido hellcnico de adamas. 

No Canto I, est. XXXVII, [aliando de Marte diz: 

A viseira do elmo de diamante 
Alcvantando um pouco, mui seguro, 



No Canto IV, est. LVI, referindo_se a praças fortes: 

Porem elias emfim por força entradas 
Os muros abaixaram de diamante 
As Portuguczas forças, 

N'estes dois exemplos, assim como cm algumas outras passagens, não se pode admit- 
tir que o poeta quizesse fallar da pedra preciosa quando emprega a paiavra diamante, mas 
sim de substancia muito resistente, sendo expressões synonimas no poema : muro ds dia- 
mante, muro adamantino c muro d'aço. 

A maior parte das vezes, porém, emprega a palavra diamante na accepção commum, 
como quando escreve no Canto I, est. XXII : 

Com uma coroa e sceptro rutilante 

De outra pedra, mais clara que diamante. 



e ainda no Canto II, est. IV, 



Ou se queres luzente pedraria, 
O rubi fino, o rigido diamante 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l6'j 



mantc. Na dcscripção que d'este fez, d'envolta com algumas das proprie- 
dades verdadeiras que se lhe attribue, menciona outras que a observa- 
ção directa, para não dizer o simples bom senso, deviam repudiar. O 
diamante, diz elle, tem o maior valor entre as cousas humanas e foi 
por longo tempo conhecido apenas de poucos reis. É de uma dureza in- 
disivel. Malhado sobre uma bigorna repercute de tal modo a pancada, 
que parte o malho e a bigorna ; e é também indestructivel pelo fogo 
porque nunca pôde aquecer-se. Esta resistência ao ferro e ao fogo é 
apenas vencida pelo sangue de bode, mas somente quando actua sobre 
o diamante, ainda fresco e quente; e antes de se partir pôde quebrar 
ainda malhos e bigornas. Quando por fim se fracciona reduz-se a tão pe- 
quenas partículas que apenas se podem ver. Os gravadores procuram 
avidamente os seus fragmentos para com elles gravarem nas mais du- 
ras pedras. O diamante tem tal antipathia pelo iman que este não atrahe 
o ferro na sua presença, etc. 

A edade média acceitou na melhor fé estas phantasias do escriptor 
romano mais litterato do que homem de sciencia (Littré). 

Albertus Magnus (1193-1280), o grande mestre de S. Thomaz 
óVAquino, não só as acceita, mas acerescenta, á descripção de Plinio, 
que o sangue de bode é mais efficaz para domar o diamante quando, 
antes de ser morto, se lhe dá vinho a beber ou salsa a comer! 

Na nossa península existiam opiniões semelhantes segundo o «La- 
pidado» dei Rey D. Aífonso X do VIII século (de que existe um fac-simile 
na Bibliotheca publica de Lisboa). «O diamante encontra-se em umpaiz 
onde faz seis mezes dia e seis mezes noite e por onde corre um rio cha- 
mado Barabicen. Ninguém ainda poude chegar ás suas nascentes, por- 
que ha lá muitas serpentes e outros animaes peçonhentos e — víboras 
que matam solamente de la vista — ». 

A sua duresa é igualmente referida, assim como á supposta tena- 
cidade ; mas, para partil-o, recommenda-se um processo differente do 
de Plinio. Basta envolvel-o em estanho e bater-lhe com o martello, po- 
dendo depois reduzir-se os fragmentos a pó num almofariz do mesmo 
metal. Tem qualidades medicamentosas, mas é venenoso; e como pro- 
vém de regiões onde ha animaes peçonhentos, recebeu d'elles o veneno. 
Mettido na bocca por algum tempo faz cahir os dentes, e um drachma 
de pó em bebida mata um homem. 

Ajuda ainda a fazer «cosa que sea de atrevimiento e esfuerzo » — 
mas todas as suas virtudes são mais pronunciadas quando certos astros 
teem determinada posição no ceu. 

A crença errada na impossibilidade de partir o diamante batendo- 
lhe simplesmente, e que proveio da confusão da duresa com a tenacida- 



164 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



de, foi de certo a causa da destruição de muitas pedras preciosas sub. 
mettidas á prova do martello, como se vê do seguinte episodio histórico. 
Quando Carlos o Temerário, grande rival de Luiz XI rei de França, 
perdeu a batalha de Gerson (Suissa), trazia comsigo todo o seu thesouro 
para o pôr a salvo do paiz de Flandres, então revoltado. As suas tropas 
não puderam resistir ao embate das hostes suissas, que faziam retumbar 
as duas velhas trompas de ponta de Aurochs, ofTerecidas a seus antepas- 
sados pelo imperador Carlos Magno. Em consequência do estridente 
ruido do «Touro de Uri» e da « Vacca de Unterwald» (assim chamavam 
os suissos ás duas trompas) espantaram-se os cavallos do inimigo, e o 
exercito borgonhez foi dispersado, segundo diz a chronica, «comme fumée 
par vent de bise». O próprio duque de Borgonha foi forçado a fugir 
deixando atr?»z de si, em poder dos suissos, as suas jóias e até o seu 
chapéu ornado de pedras preciosas. Os vencedores não suspeitaram da 
riqueza das jóias do thesouro; e como, provavelmente no seu entender, 
verdadeiros diamantes resistiam á prova de martello, partiram-nos na 
maior parte cuidando que eram apenas pedaços de vidro. Um dos maiores 
diamantes que o duque costumava trazer ao pescoço (o Florentino, hoje 
da coroa d'Austria) escapou por milagre. Foi achado no caminho por 
um soldado dentro de um estojo adornado de pérolas, o qual lançou fora 
o diamante e guardou só a caixinha ; reconsiderando depois veio de 
novo encontral-o para o vender mais tarde a um cura dos arredores 
pela Ínfima quantia de um escudo (pouco mais ou menos 200 reis). 

A descoberta do caminho marítimo das índias (1438) pelos portu- 
guezes, veio contribuir consideravelmente para o conhecimento das pe- 
dras preciosas na Europa, que anteriormente vinham por permutação 
suecessiva até Beyruth e Alexandria, d'onde chegavam ao occidente por 
intervenção dos negociantes venezianos, genovezes e catalães que nes- 
tes mercados os iam comprar. (J. de Barros. Dec. I. a , ed. 1628, pag. 148). 

Os navegadores portuguezes transformaram Lisboa no deposito 
europeu dos ricos produetos da índia, e por isso são n'estes tempos os 
nossos escriptores quem, na Europa, têm mais claras noções das pedras 
preciosas. 

Duarte Barbosa (1) que muito singelamente nos relata tudo quanto 
viu nas suas longas viagens pelo oriente (no fim do século XV e prin- 
cipio do XVI) refere-se por diversas vezes ás pedrarias da índia ; e se a 
sua narrativa não vem ornada de citações dos livros de sciencia do seu 
tempo, tem sobre os seus antecessores a grande vantagem de ter conhe- 

(1) Noticias para a Historia e Geographia das Nações ultramarinas. Lisboa, 1812, 
Tom. II. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO l6$ 



eido de perto as pedras sobre que escreve e cujo commercio não lhe 
era estranho. 

Nada se encontra no seu curioso livro relativamente ás proprieda- 
des phantasticas das pedras, e a seguinte passagem prova quanto era mais 
perfeito o conhecimento que tinha d'ellas do que o dos escriptores e 
poetas europeus coevos. (1) 

«Os topasios, diz Duarte Barbosa, nascem na ilha de Ceilão (2). . . 
é pedra mui dura, e mui fina e do peso do Rubi e Saphira, porque to- 
dos trez são de uma espécie. . .» 

Só a mineralogia moderna poude comprovar o que este sagaz na- 
vegador jí adivinhara — que as três pedras apenas se differençam pela 
matéria corante. 

Sobre diamantes apenas nos diz que os ha no reino de Decan e no 
de Narsinga (Golconda), lapidando-se n'este ultimo paiz. 

Garcia d'Orta, um dos nossos sábios mais iilustres, é quem, no seu 
tempo, mais acertadamente escreveu sobre o diamante, que aprendeu a 
conhecer durante a sua longa permanência na índia. Por um dos inter- 
locutores dos seus Colóquios (Ruano) dá-nos uma ideia clara das opi- 



(1) Por esta epoeha (1528-1577) escrevia Remy Belleau as suas poesias (CEuvres 
poctiques de R. B. 2. a ed. Rouen ( 1 6ojj ) sobre as pedras preciosas. Citaremos apenas al- 
gumas passagens da poesia Le "Diamant: 

«Sus donc avant que Ion me taille 
Un diamant que le marteau 
Sur 1'enclume ne sauroit rompre 
Ni 1'acier ni le fer corrempre 
Ni consommer dans le fourneau» 

Depois conta o poeta que o diamante 

«Se ramollist et se destrempe 

Au plonge dans le sang de Bouc» 

Mais adiante refere tambem a receita do Lapidario de Alfonso X (substituindo es 
tanho por chumbo): 

«N'est-ce chose encor plus coice... 



Ne pouvant estre combatue 
Que de soy, se voir abatuê 
Au fray d'unc lime de plom?> 



(2) Signifiea aqui saphiras amarcllas; ainda hoje os lapidarios as chamam topa- 
sios orientaes. Na mineralogia topasio tem outra significação. 



IÒ6 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



niões então correntes, as quaes elle se encarrega de refutar pela bocca 
de uma outra personagem (Orta), que expõe as opiniões do auctor (i). 

Eram-lhe conhecidos os diamantes do Bisnaguer (Golconda), do 
Decan e os do estreito de Tanjapura, nas visinhanças de Malaca. 

Em Goa, então importante mercado de pedras preciosas, preferiam 
os Canarás «os que chamam naifes, que são aquelles que a naturalezà. 
lavrou (diamantes crystallisados) e fez perfeitos sem hirem á mó» posto 
que os portuguezes preferissem os lapidados. Relativamente á supposta 
resistência ao choque do martello dá Orta ao seu interventor o seguinte 
conselho sensato: «se tiverdes algum diamam de preço não façais n'elle 
tal experiência, porque quantos tiverdes tantos fareis em pedaços com 
hum martello; e muyto facilmente se quebram com huma mão de almo- 
fariz, e asi os fazem em pó pêra lavrar os outros»... E n'outra parte 
«A maneira de conhecer os diamães se he diamam ou nam, he toqualo 
com outra ponta de diamam, ou com huma lasqua, e se nam fôr diamam, 
faz lhe risquo». . . «E de amoleçerse com sangue de bode foy huma fa- 
bula... mas já o experementei, e he tanto como se lhe não deitasse 
cousa alguma»... «E ao que me dizeis de ser vencido do chumbo por 
causa do azougue, não traz rezam, porque pois o diamam vence o ferro, 
e a todolos outros metaes e pedras, não he bem dizer, que he vencido 
do chumbo por causa do azougue; porque asi o corta o diamam, como 
uma faca corta um nabo.» 

Relativamente ás propriedades venenosas do diamante declara ser 
um engano «e cousa nam scripta por doutores autênticos», e sem appli- 
cação determinada na medecina. 

Merece menção uma observação geológica sua, ainda que mal in- 
terpretada. Referindo-se aos jazigos naturaes dos diamantes dtz:.. . «he 
de ver que cousa tam forte (o diamante) avia de estar metida muyto 
dentro na mineira, e aviase de criarse em muytos annos e vejo que se 
criam em dous ou três annos; porque cavam a mineira este anno altura 
de um covado de medir, e dahi a dous annos tornam a cavala, e tiram 
diamães como primeiro.» 

Este phenomeno, que tanta admiração lhe causava, é devido a que, 
durante as temporadas chuvosas, os sitios escavados foram de novo inva- 
didos por detritos alluviaes que continham diamantes, e não ao terem-se 
estes formado no próprio sitio á profundidade de um covado. Observa- 

(i) Colóquios dos Simplices e Drogas etc. Goa, 1563, Colóquio 43. ° A traducção 
latina de Carolus Clusius (1567) tem sido muito citada, mas desfigura um tanto o origi- 
nal. Extractamos aqui da edição portugueza. O Snr. Conde de Ficalho fez-nos o obsequio 
de emprestar para este fim as provas d'imprensa da edição que prepara dos Colóquios do 
nosso celebre medico. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 1<>J 



ções feitas nos jazigos alluviaes, são erradamente genera Usadas a todos 
os jazigos naturaes de diamantes. 

Garcia d'Orta substituía pois todas as crendices por observações 
próprias e notabilissimas para o seu tempo, em que o estado embryona- 
rio do estudo da natureza era justamente devido á falta de observadores 
de bom senso como elle. Mas nem o escripto de Garcia d'Orta, celebre 
no seu tempo, conseguiu fazer entrar no bom caminho os auetores que 
posteriormente escreveram sobre pedras preciosas. 

Um outro medico natural de Bruges, Boettius de Boot, na sua des- 
cripção do diamante (1609) refuta a supposta tenacidade com que esta 
pedra resiste ao fogo e ao ferro; mas confere-lhe propriedades medici- 
naes e magicas, como tinham já sido attribuidas por auetores mais anti- 
gos. Segundo elle o diamante era reputado medicamento contra vene- 
nos, livrava da peste, do feitiço e dos pesadelos, acalmava o mau génio, 
«et nourrit et fomente 1'amour des mariez.» (1) 

Não é. porém, a própria matéria do diamente que tem todas estas 
virtudes, mas sim a sua belleza, esplendor e dignidade, que (segundo os 
médicos e theologos do tempo) a tornavam própria a receber e conser- 
var em si os bons espiritos. São pois estes e não o diamante que actuam 
beneficamente. 

No decimo sétimo século são notáveis ainda as descripções de via- 
gem, na índia, de Tavernier, celebre viajante e opulento negociante de 
pedras preciosas, pelas quaes se teve noticia circumstanciada dos jazi- 
gos de diamantes na índia, dos methodos de exploração, do seu com- 
mercio e das pedras mais notáveis existentes no poder de monarchas 
orientaes. Os seus escriptos contribuíram muito para o conhecimento 
das pedras preciosas e para o desapparecimento de muitas lendas e cren- 
dices; no entanto ainda em 1738 escrevia o medico portuguez dr. J. Ro- 
drigues cTAbreu na sua « Historiologia Medica», a respeito das virtudes 
medicinaes das pedras preciosas em geral: «querem uns tenham virtude 
para curar o que negão outros. . . comtudo não se ignora que o Jacinto 
Oriental, e a Esmeralda apertão as tenríssimas membranas do corpo 
enfermo, por modo que as privão da sua força tónica subtil, o que nos 
está mostrando todos os dias, a experiência. . O certo é foy e será sem- 
pre droga e especearia de boa estimação e que não ha pessoa a quem 
não remedeem.» 



(1) E em virtude d'esta fabulosa qualidade do diamante que em diversos paizes é 
costume offerecerem os noivos a suas futuras esposas, ao menos, um annel com diamantes 
(bague de fiançailles). Segundo uma antiga lenda, pelo maior ou menor brilho das pedras 
se pode avaliar da fidelidade da esposa! 



l68 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Escrevia se isto quasi dois séculos depois de Garcia d'Orta ! 

No principio do século actual ainda eram imperfeitos os conheci- 
mentos que havia das pedras preciosas e vulgares as superstições que 
lhes attribuiam propriedades oceultas, como refere um notável physico 
francez, Babinet, nosso contemporâneo. Era então corrente mandar pe- 
dir emprestado ás famílias ricas, pedras montadas cm annel para as 
applicar sobre a parte doente. Quando a jóia devia ser introduzida na 
bocca como remédio contra dores de dentes, de garganta ou de ouvi- 
dos, amarrava- se com um cordel para evitar que o doente a pudesse 
engulir. 

Ainda hoje, na actual sociedade portugueza, ha restos de supersti- 
ção relativamente aos poderes oceultos das pedras. Pessoas, aliás illus- 
tradas, teem-me affirmado convictas, que a opala, por exemplo, é pedra 
de «mau agouro», e todos sabem que é vulgar entre o povo pôr um 
collar de contas de âmbar, a que chamam collar magnético, ao pescoço 
das crianças para lhes facilitar a dentição, (i) 

A persistência de todas estas e outras phantasias atravez de tantos 
séculos mostra-nos ao menos, com dolorosa evidencia, quanto é difficil 
ao espirito humano o emancipar-se de crenças ainda as mais absurdas, 
uma vezàque tenham a tradicção a amparál-as ; mas. o estudo d'essas tra- 
dicções facilita-nos a comprehensão de alguns hábitos e costumes da 
vida moderna, que se radicam muitas vezes em opiniões pueris dos 
nossos maiores. 



Os antigos não tinham noção alguma sobre a natureza da substan- 
cia do diamante. O inglez Boyle é o primeiro que fez a seguinte obser- 
vação importante relativamente ás suas propriedades chimicas, no meia- 
do do século XVÍI. Possuido da ideia errónea de que aquella pedra, 
quando aquecida, desenvolvia vapores acres muito abundantes, e que- 
rendo verifical-o pela experiência, observou que ella se consome pela 
acção do fogo intenso. 

Esta experiência capital foi repetida em 1694 e 1695, em Floren- 
ça, pelos então celebres académicos Averoni e Turgioni, de ordem e 

(1) É conhecida a crença do povo de que o machado de pedra da epocha neolithi- 
ca, a que chama pedra de raio, preserva a casa contra raios- Pelo distincto medico e meu 
amigo o snr. Virgílio Machado, sei que ha quem use uma gotta de mercúrio em um fras- 
quinho pendurado ao pescoço, como remédio contra erysipcla, ou um pouco de lacre no 
bolso, contra o rheumatismo, etc. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RI MS IRO I 69 



na presença do Grão Duque Cosme m de Medíeis, empregando para 
ellas ora uma fornalha, ora uma lente que concentrava os raios solares 
sobre os diamantes. Estes — e foram numerosos os exemplares sobre que 
operaram — redusiram-se pouco a pouco, sob a acção do calor, até des- 
apparecerem completamente passado certo tempo. Foram taes ensaios 
pouco tempo depois reproduzidos em Vienna, com idênticos resultados, 
em presença do Archiduque, que mais tarde foi Francisco I d'Austria. 

Quasi um século depois da experiência de Florença fizeram se ex- 
periências análogas cm França, sob a direcção de D'Arcet, Maequer, 
Lavoisier e outros. Maequer observou (1771) que o diamante arde com 
ligeiríssima chamma, formando em torno de si uma aureola perceptível. 
Estava, pois, demonstrado que elle se consome no fogo, a despeito da 
antiga lenda da sua indestruetibilidade. Um joalheiro, le Blanc, que 
duvidava ainda d'esta verdade, forneceu á experiência um novo exem- 
plar que foi egualmente consumido. 

Maillard, lapidario da epocha, sustentava ainda a indestruetibili- 
dade contra Lavoisier, Maequer e outros, e propoz fornecer três pedras 
para se proceder a novo ensaio, que ficou celebre, se lhe permittissem 
acondicional-as no cadinho antes de aquecidas, o que também lhe foi 
admittido. 

Introduziu os três diamantes lapidados na bocca de um cachimbo 
de barro a que tinha partido o pipo, encheu o vasio em redor com pó 
de carvão bem calcado, tapou o cachimbo com uma coberta de ferro 
e metteu cachimbo e conteúdo n'um cadinho que acabou de encher 
com cré. Tapou finalmente o cadinho com a respectiva tampa, guarne- 
cendo o exteriormente de uma massa vitrificavel ; e assim o entregou 
aos experimentadores, que o expuzeram durante quatro horas a fogo 
tão violento, que a espécie de argamassa com que estava coberto se 
fundiu, gottejando lagrimas de vidro pelas grelhas da fornalha. Retirado 
do fogo para o abrir, foi necessário partir o cadinho porque a tampa 
lhe estava soldada: com surpresa de Maequer e satisfação do lapidario, 
encontraram-se não só os diamantes intactos, mas ainda com o mesmo 
peso que tinham antes da operação. Achavam-se muito ligeiramente tis 
nados com uma côr anegrada, mas só exteriormente, porque depois de 
limpos no torno do lapidario appareceram tão brilhantes e tão límpidos 
como antes. Por toda a Europa se repetiram então experiências análo- 
gas; e os diamantes ora se queimavam, ora se mostravam refractários a 
todo o calor. 

Em 1772 descreve Lavoisier uma serie de experiências, das quaes 
a mais conhecida é a da combustão de um diamante em um receptáculo 
de vidro cheio de oxygenio, fazendo actuar sobre elle o calor do sol 



IJO REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



concentrado por uma lente. Depois de terminada a experiência, reco- 
nheceu que os gazes de combustão se comportavam como o acido car- 
bónico, chegando por isso á seguinte importante conclusão : « Que o 
diamante, que se destroe em breve tempo ao ar livre com um calor in- 
ferior ao necessário para fundir a prata, é pelo contrario um corpo 
muito refractário quando garantido do contacto do ar.» 

Smithson Tennent e Morveau consideram-no como carbone, ba- 
seando este ultimo a sua opinião sobre uma interessante experiência* 
Sabendo que o aço é apenas uma mistura de ferro com carvão, substi- 
tuiu o carvão por pó de diamante e fabricou assim um pouco de aço 
susceptível de adquirir, pelos processos usuaes, poios magnéticos como 
o aço ordinário. 

Por outro lado Humphrey Davy, em Inglaterra (1816), fez uma se- 
rie de experiências e investigações, cujo resultado final foi reconhecer 
que a combustão do diamante no oxygenio puro somente fornece acido 
carbónico e nada mais; d'onde conclue com todo o rigor, pela medida 
do gaz de combustão, que o diamante é carbone puro, o qual, ligan- 
do-se na incandescência com o oxygenio, produz o acido carbónico. As 
ultimas duvidas foram removidas pelos trabalhos de Dumas em 1840, e 
depois d'isso chegou se ainda ao mesmo resultado a que chegara Davy 
pelas investigações de chimicos do nosso tempo, como Roscoe, Friedel 
e outros. 

Com razão exclama pois Haiiy: «Assim temos que o diamante, 
isto é, o mais puro e o mais brilhante de todos os mineraes e um dos 
mais límpidos, se identifica com o carvão, isto é, com um corpo brando, 
negro e opaco, no estado em que o obtemos, pela combustão (imper- 
feita) das matérias vegetaes. Nunca foi mais verdadeiro o provérbio, 
que quelques fois les extremes se touchent.» 

Antes de averiguada a natureza combustivel do diamante pela ex- 
periência, já Newton havia previsto até certo ponto este resultado (1675) 
mas a sua previsão passou despercebida dos experimentadores anterio- 
res a Lavoisier. 

Eis o methodo induetivo empregado pelo grande physico. Tendo 
emprehendido a comparação do coefficiente de refracção de diversos 
corpos diaphanos com os seus pesos especificos, achou que em geral to- 
dos os corpos estudados se podiam dividir em duas classes distinctas: 
uma comprehendia aquelles a que deu o nome de corpos fixos e a outra 
que denominou gordos, sulfurosos e unctuosos, termos que, segundo as 
ideias do seu tempo, eram synonymos de iníiammaveis. Em ambas as 
classes achou que a refracção varia approximadamente na razão das 
densidades; mas um corpo de segunda classe com densidade egual a um 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRQ I / I 



outro da primeira, tinha uma rcfracção muito mais considerável. O dia- 
mante, em virtude da sua grande rcfracção relativamente ao seu peso, 
estava collocado por Newton conjunctamente com o óleo de thereben- 
tina, com o âmbar, etc., isto é, com os intlammaveis, ou, como diría- 
mos hoje, com os compostos de carbone. Newton define ainda o dia- 
mante como uma substancia uncluosa coagulada. Esta inducção podia 
ter falhado, porque ha corpos em condições cguaes ao diamante, no 
que respeita á relação da rcfracção para o peso especifico, e que não 
são combustiveis. 

Todos os que teem algumas noções de chimica sabem que as ex- 
periências de combustão do diamante se podem fazer com grande faci- 
lidade com os mais simples apparelhos. Basta por exemplo mergulhar 
esta pedra em estado incandescente n'uma atmosphera de oxygenio, 
para a ver consumir-se lentamente emittindo uma luz fortíssima : e até 
podemos queimal-a facilmente numa lâmpada de espirito de vinho, de- 
pois de reduzida a pó, se a aquecermos até á incandescência sobre uma 
lamina delgada de platina. 

As investigações modernas permittem reconheeer que o diamante, 
como aliás todos os mineraes. contem muitas vezes impuresas visíveis 
ao microscópio, taes como pequenos crystaes de quartzo e outras subs- 
tancias, e que, quando queimado, essas impuresas formam um resíduo 
incombustível. Se estas inclusões teem dimensões apreciáveis á simples 
vista prejudicam o valor da pedra e são denominadas jacas pelos nos- 
sos joalheiros. Muitas vezes estas jacas, são apenas fendas interiores, 
que, em virtude da forte refracção do diamante, podem parecer opacas, 
ou produzir, ainda quando sejam estreitissimas, cores irisadas (anneis 
de Newton) pela interferência da luz reflectida simultaneamente nas 
duas superfícies que limitam cada fenda. 

As inclusões accidentaes não invalidam de modo algum o resul- 
tado das múltiplas analyses que provam ser o diamante uma modifica- 
ção do carbone. Este elemento, em virtude da mysteriosa propriedade 
a que se chama o polymorphismo, é susceptivel de se individualisar de 
Ires modos differentes, tendo, cada uma das modificações, propriedades 
physicas absolutamente diversas (dureza, peso, etc). Estas três modifi- 
cações são: a, carbone amorpho, anthracite, hulha, carvão de lenha, 
etc; b, graphite, o mineral brando e negro de que se faz uso para a 
fabricação do lápis de escrever ; c, o diamante. 



I72 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Todas as variadas pedras preciosas teem uma composição chimica 
mais ou menos complexa; o diamante é a única que é ao mesmo tempo 
um corpo simples. 

As formas polyedricas que apresentam os diamantes crystallisados, 
pertencem todas ao chamado systema cubico de crystallisação. O nu- 
mero de polyedros pertencentes a este systema, é indefinido. São, po- 
rém, vulgares sobretudo os diamantes crystallisados em forma de octae- 
dro, de dodecaedro e de hexakisoctaedro ou polyedro de 48 faces. As 
formas de crystallisação do diamante só mui raras vezes são limitadas 
por superfícies perfeitamente planas; geralmente são mais ou menos 
curvas. Esta particularidade torna se ás vezes tão saliente a ponto de 
dar ao diamante bruto uma forma quasi espheroida*. 

Mesmo quando as formas cryslallinas sejam por qualquer razão 
indistinctas, como acontece quasi sempre, pode-se, partindo o diamante 
com cuidado, obter d'elle um núcleo octaedrico limitado por 8 triân- 
gulos equiláteros. Esta propriedade de se dividir regularmente em la- 
minas segundo planos definidos, é commum aos corpos crystallisados 
e chama- se clivagem para a distinguir da fractura ou lascado dos cor- 
pos que não crystallisam, isto é, cuja estruetura molecular é irregular. 
O vidro commum, por exemplo, que não crystallisa, parte-se em todas 
as direcções com egual facilidade e por isso segundo superfícies irre- 
gulares que se não podem prever. 

A dureza do diamante é superior á de todos os outros corpos co- 
nhecidos, de modo que nenhum corpo o risca, mas sim elle a todos. 

O seu peso especifico regula por 3,52, isto é, pouco mais do que 
três vezes o peso de igual volume d'agua pura. 

O seu brilho é vivíssimo e assemelha-se ao do aço polido. A sua 
refracção (1) é muito considerável e diversa para cada cor, por isso a 
luz que o atravessa se decompõe muitas vezes, produzindo os effeitos 
chromaticos a que se chama o fogo do diamante. Mas tanto o brilho 
como o fogo somente se podem avaliar bem no diamante lapidado. 

Os diamantes encontram-se em quantidades industrialmente apro- 
veitáveis só em jazigos secundários, isto é, associados a rochas fragmen- 
tares, o que prova que se não formaram no próprio sitio onde se en- 
contram. 

Os principaes jazigos até hoje conhecidos são : na índia (Reino de 
Nisam, Golconda, Sambalpur, Budelkhand, etc); — no Brazil, (Minas Ge- 
raes, — Diamantinos, Grão Mogor— e na Bahia, etc); e no Cabo de Boa 



(1) Desvio que soffre a direcção de um raio de luz ao passar de um para outro 
meio de densidades differentes. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARDOS RIBEIRO 1J'$ 



Esperança (Griqualand West). Relativamente á sua distribuição geogra- 
phica poderia dizer- se que se encontram principalmente cm regiões tro- 
picaes ou subtropicaes. O mesmo se pôde avançar, e com mais rigor 
no que respeita ás outras pedras preciosas de i . a ordem, como rubis, 
saphiras e esmeraldas. Estas pertencem a duas espécies mineraes, vul- 
gares cm mui diversas latitudes; mas geralmente só as das regiões tro- 
picaes teem a côr agradável e a limpidez que as tornam verdadeira- 
mente pedras preciosas. Nada se conhece em geologia que possa expli- 
car este facto se elle não é apenas casual. 

A grandeza dos diamantes c muito variável. Os indivíduos perten- 
centes á natureza viva, como as plantas e os animaes, são quasi sempre 
caracterisados pelo seu tamanho. A palmeira adulta, por exemplo, não 
excede uma altura que lhe é característica, assim como a estatura do 
homem adulto é pouco mais ou menos a mesma em toda a parte para 
cada uma das suas raças. 

Não acontece assim no reino mineral onde as dimensões de indi- 
víduos (crystaes) da mesma espécie são susceptíveis de variar entre lar- 
gos limites. Esta inconstância de tamanho é um grande obstáculo á po- 
pularisação da mineralogia. No quartzo, por exemplo, são abundantes 
os individuos microscópicos, mas também se encontram outros com 
um metro e mais de comprimento. Pode, porém, estabelecer-se a este 
respeito uma regra de certo rigor, relativamente á grandeza dos indiví- 
duos do reino mineral, e formulai a do modo seguinte: quanto mais 
raro é um mineral, menores são as dimensões máximas dos seus indi- 
viduos. 

E por isto que, quando estes excedem um tamanho determina- 
do para cada substancia, representam verdadeiros colossos ou exce- 
pções. 

Os diamantes colossaes são pequenos, absolutamente fallando, pois 
que o (( Regente » da antiga coroa de França, um dos maiores conheci- 
dos (410 quilates antes de lapidado) se tivesse a forma regular de um 
octaedro, mediria 52 millimetros de comprimento em cada um dos três 
eixos que ligam os vértices oppostos. 

A bellesa do diamante, como objecto decorativo, só se manifesta 
depois de facetado e polido pelo lapidario. 

Quem inventou a arte de o lapidar ? Parece-nos que esta pergunta 
ficará eternamente sem resposta. O que é certo é que, na índia, ella 
existiu desde tempos muito remotos. Seria interessante averiguar ao 
menos quem a introduziu na Europa ; mas é por emquanto um proble- 
ma obscuro. Attribue-se geralmente esta introducção, em 1476, a Luiz 
de Berquem, natural de Bruges, mas esta opinião não é acceitavel, 



174 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



porque se conhecem, de data anterior, diamantes lapidados em jóias de 
fauríco europeu. 

Outro argumento, que destróe por completo essa supposta priori- 
dade, é o encontrar-se, em documentos anteriores a 1476, menção de 
artífices que poliam o diamante e lhe davam diversas formas. Comtudo 
se está provado que Bcrquem não pôde ter sido o introduetor, no Occi- 
dente, da arte de lapidar, não é menos certo que elle a desenvolveu 
muito, pois talhou para Carlos o Temerário os mais notáveis diamantes 
que por muitos annos foram conhecidos na Europa. 

No século XVI tinha-se já ella generalisado em diversas cidades eu- 
ropeias. No XVII o cardeal Mazarino, ministro durante a menoridade 
de Luiz XIV, patrocinou os lapidados em França; e é no seu tempo e 
por sua ordem, que se adoptou pela primeira vez a talha em forma de 
brilhante. A cidade, porém, onde tal industria se tornou uma importan- 
tíssima fonte de riqueza, foi Amsterdam, principalmente depois da des- 
coberta das minas do Brazil. Ainda hoje existem alli as mais celebres 
officinas, que, na sua maioria, pertencem aos descendentes dos judeus 
expulsos de Portugal, e que foram contribuir para o engrandecimento 
da Hollanda. 

O diamante bruto, destinado a transformar-se em brilhante, é suc- 
cessivamente submettido a três operações : clivagem, desbaste e lapi- 
dação. 

A clivagem tem por íirn eliminar quaesquer parcellas defeituosas, 
e dar-lhe a forma do octaedro regular, isto é, a de um solido consti- 
tuído por duas pyramides cujas faces são triângulos equiláteros e que se 
acham juntas por uma base quadrada commum. Para isso fixa-se o dia- 
mante cm uma massa composta de cera, mástique e areia fina, amolle- 
cida previamente ao calor; e, uma vez fixado, faz-se-lhe uma ranhura 
por meio de fricção com outro diamante agudo, igualmente fixado, com 
a mesma massa, em um cabo de madeira. Esta ranhura deve estar na 
direcção de um dos 8 planos de clivagem. Applica-se depois nella o 
gume duma faca e com uma pequena pancada nas costas d'esta se faz 
saltar uma lamina de clivagem do diamante. Repetindo esta operação 
suecessivamente para algumas ou para todas as oito direcções de cliva- 
gem consegue-se obter um núcleo da forma de um octaedro perfeito. 

O desbaste consiste em gastar pela fricção de dois diamantes mo- 
dificados pela operação anterior, dois vértices oppostos de cada um dos 
octaedros. Para melhor os manejar e se poder exercer toda a força que 
a operação exige, fixam-se ambos os octaedros nas extremidades de dois 
cabos de madeira. O operário tem na sua frente, preza á mesa de tra- 
balho, uma pequena caixa com dois fulcros de ferro nos bordos direito 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS HIHE1R0 lj$ 



c esquerdo contra os quaes apoia os cabos em que se acham collados os 
diamantes, e fricciona estes um contra o outro, dando aos cabos um mo- 
vimento um pouco semelhante ao dos remos de um barco. Vae-se as- 
sim gastando até pouco menos de metade da altura de cada uma das 
pyramidcs, isto é, trunca-se o octaedro em um dos ângulos sólidos por 
uma face áspera e irregular, mas na posição das do cubo; no angulo so- 
lido opposto também se esboça outra face da posição das do cubo, mas 
muito menor. O diamante assim truncado em duas extremidades oppos- 
tas por duas faces — uma grande (meza), outra menor (culatra) — conserva 
ainda intactas 4 arestas octaedricas que definem um quadrado (cintura). 

Na lapidação, não só se pullem as faces obtidas pela clivagem ou 
esboçadas pelo desbaste, mas substituem se ainda na maior parte as 4 
faces que limitam a meza por uma serie de facetas symetricamente dis- 
postas, quasi todas triangulares, que formam a coroa e dão á meza a 
forma de um octogono; e o mesmo acontece do lado da culatra que fica 
também rodeiada de facetas triangulares na sua maioria, formando o 
pavilhão. 

Obtem-se assim finalmente o brilhante trabalho, que se engasta 
pela cintura, deixando somente a descoberto a coroa e meza, e mais ou 
menos oceulto o pavilhão. 

Quasi toda a luz que penetra pelas faces da coroa ou pela meza 
é reflectida uma ou mais vezes pelas faces do pavilhão, o que faz que 
ellas appareçam como pequenos espelhos vivíssimos. Mas a luz que por 
reflexão volta quasi toda a sahir do brilhante pela meza e pela coroa, 
decompõe-se nas suas cores elementares em virtude da diversidade da 
refracção para as diversas cores; por isso se observam reflexos diversa- 
mente corados, sobretudo se damos ao brilhante, suecessivamente, posi- 
ções differentes. Se attendermos ainda a que uma grande parte da luz 
que incide sobre o brilhante não o penetra e é reflectida immediatamen- 
te como em aço polido, podemos dizer que nelle se combinam a re- 
flexão perfeitíssima dos espelhos metálicos, com a decomposição pris- 
mática de luz, commum aos corpos transparentes, mas que o diamante 
possue em mui alto grau. 

O polido das faces faz-se com os mais simples apparelhos. O prin- 
cipal instrumento é um disco de ferro fundido, em posição horizontal, 
girando com grande rapidez (milhares de voltas por minuto) em torno 
do seu eixo, no meio de uma meza e a pouca altura acima da sua su- 
perfície. 

Fixa-se o diamante na concavidade de uma pequena capsula de co- 
bre, que tem um prolongamento em forma de cabo; dentro da capsula 
funde-se uma mistura de chumbo com estanho, na qual se engasta a pe- 



ÍJÒ REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



dra a polir; depois prende se o cabo por meio de um parafuso a uma 
espécie de tripé que assenta com dois pés de chumbo pesados sobre a 
meza, servindo de terceiro pé o próprio diamante, que assenta sobre o 
disco untado com uma mistura de azeite e pó de diamante. Concluida 
uma face, dessolda-se o diamante, resolda se n'outra posição, e de 
novo se applica contra a mó, repetindo-sc esta operação tantas vezes 
quantas são as faces que devem dar-se á pedra. Só uma longa prática, 
alliada a muita habilidade, permittem ao artista assentar o diamante 
sobre a mó de tal modo que se produsam somente as faces na posição 
conveniente. Quem pela primeira vez observa um hábil artista lapidan- 
do 2, 3 e 4 diamantes ao mesmo tempo, não deixa de admirar que com 
tão simples meios se obtenham brilhantes de dimensões ás vezes extra- 
ordinariamente pequenas e de grande regularidade. 

Pela talha em brilhante sacrifica-se uma grande parte do diamante 
bruto (70 °/ ) e dois terços de altura da pedra fica escondida no en- 
gaste, mas tira-se das suas propriedades decorativas o máximo partido. 

Os fragmentos obtidos pela clivagem e pelo desbaste são cuidado- 
samente aproveitados: ou se reduzem a pó em almofariz de ferro, pó 
que serve de matéria prima para a lapidação, ou quando teem dimen- 
sões maiores são lavrados em forma de rosas. 

As rosas são pedras quasi sempre de pouca altura, terminadas na 
parte inferior por uma superfície de clivagem que é polida e na supe- 
rior por zonas de facetas triangulares. Esta forma foi muito usada na 
índia, mesmo para o> diamantes de maiores dimensões, pois diminue 
pouco o tamanho da pedra. 

A rosa dupla (talho Sancy) é uma forma um tanto achatada, limi- 
tada em ambos os lados por facetas triangulares ; foi usada por Luiz 
de Berquem. 

Além d'estas, ainda ha outras formas de talha cuja principal vir- 
tude é evitar a grande perda de material; são pouco usadas, porém, 
actualmente. 

A unidade que no commercio se adopta para o diamante é o qui- 
late, medida de peso equivalente a o ? '\2o5. 

No Cabo da Boa Esperança, onde existem actualmente as minas 
mais produetivas de que ha tradição, os diamantes variam entre 1 / 32 
de quilate e 409 quilates, mas, d'este ultimo peso, apenas se encontrou 
um único (mina de Kimberley). 

No Brazil uma pedra de 20 quilates só se encontra de dois em 
dois ou de três em três annos, emquanto que em Africa as de 80 a i5o 
quilates, que se teem encontrado nos últimos 20 annos, se contam já 
por milhares. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 177 



A mais antiga tabeliã de preços de diamantes é, sem contestação, 
a que nos fornece Duarte Barbosa relativamente aos mercados da índia; 
infelizmente o auetor não nos diz se se trata de diamantes em bruto ou 
lapidados. A titulo de curiosidade daremos aqui alguns preços extrahi- 
dos d'ella. A unidade de peso é o mangiar (1). 

1 diamante do peso de 1 mangiar (== 0^3455), 100 fanões (2) 

1 diamante do peso de 4 mangiares v '= i gr ,382o), 55o fanões 

1 diamante do peso de 8 mangiares (— 2^,7640), 1400 fanões. 

Tavernier estabeleceu no século XVII a seguinte regra, conhecida 
pela regra dos quadrados, para achar o valor de um diamante : ele- 
va-se ao quadrado o numero de quilates que pesa a pedra e multipli- 
ca-se esse quadrado pelo valor de um diamante de um quilate. Para as 
pedras muito grandes chega-se, por este meio, a preços tão fabulosos 
que, mesmo os auetores que procuraram dar á regra uma applicação 
corrente, não admittem o seu emprego para as superiores a 100 quila- 
tes. Actualmente, que os diamantes grandes não são já tão raros e que 
se é muito mais exigente do que n'outro tempo no que respeita a qua- 
lidade, a regra de Tavernier não tem valor algum. 

No actual commercio não existe regra mathematica de applicação 
corrente para avaliar qualquer diamante só pelo seu peso. Em geral o 
preço sobe em progressão geométrica com o tamanho, mas, também 
depende muito da limpidez, da cor, da perfeição, da forma que lhe deu 
o lapidario e do brilho e fogo que a pedra tem. 

Salvas raríssimas excepções, em que a côr é carregada e agradá- 
vel, os diamantes mais valiosos são os perfeitamente límpidos e incolo- 
res e dizem-se de primeira agua. Os azues de saphira, os verdes de 
esmeralda e os vermelhos de rubi, são apreciadíssimos pela sua grande 
raridade e belleza, mas- não ha para elles preço estabelecido no mer- 
cado. São menos raros e menos apreciados os de cores pallidas, sobre- 
tudo os amarellos, abundantes nas minas do Gabo da Boa Esperança. 

A excessiva producção das minas do Cabo tem feito baixar ultima- 
mente os preços alem d'uma outra circumstancia que influe também 
poderosamente para isso. Nos últimos annos diminuiu o consumo, por se 
considerar de mau gosto o uso de muitas jóias de preço; estas duas cau- 
sas reunidas — producção excessiva e capricho da moda — teem produ- 
zido uma crise no commercio, sendo hoje difficil fixar um preço exacto 
a uma pedra de certa importância. Pedras iguaes, em diversas mãos, 
teem differentes valores. 



(1) Mangiar = 2 laias c 2 /;> ; 2 taras = i quilate de bom peso, (0^,205)?) 

(2) A unidade de valor c o fanão igual a um real de prata. 

12 



I78 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Os actuaes preços cm Paris (março, 1892) para brilhantes de 1 qui- 
late, sáo : 

Branco azulado superior, 800 fr. (i6o$ooo reis). 

Branco do Cabo (levemente amarellado), 5oo fr. (ioo$ooo reis). 

Branco do Cabo com defeitos, 3oo fr. (6o$ooo reis). 

De cores claras (segundo a côr), 400 a i5o fr. (80 a 3o$ooo reis). 

O preço médio da melhor qualidade corrente no mercado (branco 
do Cabo) é de 5oo francos, emquanto no fim do século passado era de 
1:200 francos o quilate lapidado de qualidade corrente. Esta diminuição 
de preço não foi gradual, pois no meiado d'este século regulava o qui- 
late lapidado de 3oo a 320 francos. 

Se se trata de comprar o diamante em bruto já o preço díminue 
consideravelmente. Paga-se por uma pedra de 3 quilates (cryslal stone 
ou river stone) na razão de 75 a 100 francos por quilate, podendo ficar 
reduzida, depois de lapidada, a um brilhante de 1 quilate. 

Para as pedras grandes e collossaes não pôde estabelecer- se preço 
sem as submetter ao exame de peritos que conheçam não só o diamante, 
mas também o estado do mercado. 

As excepcionalmente grandes teem valores tão elevados que só 
são accessiveis ás maiores fortunas; eis porque se encontram quasi todas 
entre as jóias das coroas das nações ricas. 



No que segue damos uma descripção resumida de três dos mais 
notáveis diamantes existentes na Europa e reunimos alguns dados so- 
bre uma pedra que fez parte das jóias da coroa portugueza. 

Kohinúr. De todas as pedras preciosas da coroa de Inglaterra é 
este diamante a mais notável. O seu nome significa em lingua pérsica 
montanha de luz. E' proveniente da índia, e segundo a lenda, pertenceu 
ao heroe Karna da mythologia indiana. Passou ao poder da Companhia 
das índias pela conquista do reino de Lahore e foi offerecido em i85o 
á rainha d'ínglaterra pelas tropas inglezas que saquearam aquella capital. 

Quando trazido para Inglaterra pesava 186 1 / 6 quilates, mas como 
a sua forma era a de uma rosa muito irregular, foi de novo lapidado 
por um artista hollandez, ficando reduzido ao peso ainda considerável 
de io3 3 /á- quilates, com a forma de um brilhante elliptico. E s uma pe- 
dra de primeira agua, mas de pouco fogo, em consequência da sua 
pouca espessura. Foi avaliada em 600 contos antes de lapidado. 

O Reoente é um dos mais celebres diamantes. Pertencia á antiga 
coroa de França e ainda hoje é propriedade da nação franceza. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO lj<) 



Foi achado na índia, 40 léguas ao sul de Golconda. St. Simon 
que conheceu de perto as negociações da sua compra, conta nas suas 
memorias que um empregado do Grão Mogol conseguiu rouba 1-a, tendo 
então o prodigioso tamanho de 410 quilates, e veio á Europa vendei- a. 
Foi comprada pelo Duque de Orleans, regente de França na menoridade 
de Luiz XV, por 2 milhões de francos (36o contos) e d'ahi lhe ficou o 
nome. 

A lapidação levou dois annos. Foi talhado em brilhante, perdendo 
273 2 / iy quilates, o que o reduziu ao peso de 1 36 14 / 1G quilates, com 
forma de brilhante perfeitíssimo e com um brilho e um fogo absoluta- 
mente únicos. 

Quando mais tarde rebentou a revolução franceza, as jóias da co- 
roa de França foram depositadas em uma pequena sala onde qualquer 
cidadão ou cidadã tinha o direito de ir admirar e tocar com suas mãos 
no diamante nacional. Solidamente engastado n'um annel de ferro e 
preso a uma forte cadeia,, era passado por uma espécie de guichet á 
pessoa que reclamava a posse momentânea da maravilha de Golconda, 
avaliada então em 12 milhões de francos. 

Depois dos sangrentos dias do 10 de agosto e do 20 de setembro, 
julgou-se prudente arrecadar mais seguramente as jóias da coroa ; mas 
ainda assim os commissarios da communa, que tinham a seu cargo a 
guarda d'ellas, observaram que os armários tinham sido violados e o 
thesouro roubado, sendo baldadas todas as investigações policiaes para 
descobrir os criminosos. Mais tarde uma carta anonyma dirigida á com- 
muna denunciou que parte do thesouro se achava enterrado em certo 
ponto dos Campos Elysios, onde effectivamente se encontrou o Regente 
com outros objectos únicos cuja posse era demasiado compromettedora. 

Em 1804, um criminoso de nome Bourgeois, julgado nos tribu- 
naes por falsario, fez uma confissão completa, acerescentando que con- 
fiava na misericórdia do imperador, que sem elle não estaria no throno. 
«Eu fui um dos ladroes do guarda-joias, exclamou elle, é fui quem es- 
creveu a carta á communa indicando o sitio onde estava enterrado o 
Regente; nãq ignoraes, senhores, que o diamante foi empenhado pelo 
i.° cônsul (a um banqueiro de Berlin chamado Trescow) para obter os 
fundos necessários depois do 18 brumário. » 

Depois de desempenhado, trazia-o Napoleão I no punho da sua 
espada. 

Orloi). Outro diamante muito conhecido pelo seu tamanho e pu- 
reza, é o chamado Orlovv, que orna o sceptro do Imperador da Rússia : 
pesa 194 3 / 4 quilates. Está mal lapidado á maneira indiana, em forma 
de rosa alta irregular. Pela sua forma assemelha-se um pouco a um ovo 
de gallinha cortado pelo meio. E' originário da índia, e achava-se com 



[&8 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



outro semelhante ornando o throno do ShahNadír da Pérsia. Depois do 
seu assassinato, em 1747 e n'uma revolta militar, o diamante foi rouba- 
do, e passou por compra ao poder de um arménio chamado Schafrass, 
que, em 1772, o vendeu em Amsterdam a Catharina II, imperatriz da 
Rússia, pela somma de 45o:ooo rublos (approximadamente 4o5 contos 
de reis), recebendo o vendedor por esta occasião cartas de nobreza da 
Imperatriz. 

O ^Bragança, também conhecido pela designação de diamante do 
rei de Portugal, é o maior de todos sobre que se tem escripto. As indi- 
cações que acerca d'elle existem são muito deficientes, e não obstante as 
indagações que fiz, não me foi possivel ainda encontrar pessoa alguma, 
que me fornecesse noticias precisas a seu respeito ou sobre a sua his- 
toria; e é de certo entre nós que menos d'elle se sabe. O facto de ter 
esta pedra pertencido á coroa portugueza justíficar-me-ha de reunir 
aqui o mais importante do que nos livros ao meu alcance tenho encon- 
trado sobre ella. 

A primeira noticia impressa que conheço data de 1773 e encon- 
tra-se no livro de Urban Friedrich Benedict Briickmann, Abhandlung 
vou Edelsteinen, 2. a edição, Braunschweig. A pag. 88, diz-se : « Segundo 
consta, existe no thesouro do rei de Portugal um diamante, não talha- 
do, do Brazil, que pesa 1680 quilates. Talvez haja aqui confusão de qui- 
lates com grãos. » 

O celebre tratado de John Mawe, c/-i treatise 011 diamonds and 
precious stones, London, 1812, (1) também faz menção do Bragança, 
mas o auetor declara não o ter visto quando viajou no Brazil (1809-10), 
o que faz suppor que elle sabia da sua existência 11 aquelle paiz na 
época da sua viagem. E acerescenta que o não inclue na lista dos dia- 
mantes notáveis, porque tanto os mineralogistas como os joalheiros es- 
tão de accordo em o considerarem como um topázio branco achado nas 
minas de diamantes do Brazil. Pezava 1680 quilates. 

Charles Barbot no seu Trai té complet des ftierres précieuses, Pa- 
ris, i858, escreve: « O maior de todos (os diamantes) é sem contestação 
possivel o diamante chamado do rei de Portugal. . . Peza, segundo Fer- 
ry, 1730 quilates, e 1680 segundo Mawe; nós acceitamos este ultimo 
pezo, como o mais provável, visto que Ferry tomou, ao que parece, por 
unidade o quilate brazileiro, que é inferior de seis milhgrammas ao eu- 
ropeu : reduzidas as duas pesagens a esta ultima unidade, concordam 

(1) Não me foi possível consultar esla obra, nem a anteriormente citada: elevo ao 
meu illustre mestre o Dr. Emile Cohen, professor da Universidade de Greifswald, as tran- 
scripções que aqui traduzo. O snr. Cohen não poude consultar o original de Mawe, e por 
isso o excerpto íoi feito da traducção da mesma obra pelo Dr. Cari Gottlob Kiihn, Leip- 
zig :8i6. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO [8l 



absolutamente entre si, O diamante c de côr amarella, e tem a forma 
de um ovo de gallinha alongado : c concavo de um dos lados. Os dia- 
mantistas brazileiros avaliam-no, não obstante estes defeitos, em 7:5oo 
milhões de francos (i.35o:ooo contos!). 

N'esta narrativa ha pelo menos um erro. que é o de attribuir uma 
das pesagens a Mawe, que declara expressamente não ter visto o dia- 
mante. Mas, também a côr amarella que lhe attribue, não é a que indica 
Mawe, que escreveu no tempo em que diversos « mineralogistas e joa- 
lheiros » o tinham examinado. 

Esta discordância parece indicar que Barbot colheu estes dados de 
fonte diversa, que me é desconhecida, e que não copiou Mawe. 

Harry Emanuel, no seu livro Diamoncls and precious stones, Lon- 
don, i865, copiou provavelmente Mawe; mas indica um peso de 1880 
quilates em vez de 16^0, o que é talvez devido a erro typographico. 

Albrecht Schrauf no seu Handbuch der Edelsteinshunde, Wíen, 
1869, resume as indicações de Mawe. 

Edwin W. Streeter Precious Stones and Gems, London, 1879, 
repete o que escreveu Mawe ; mas indica uma avaliação do Bragança 
superior a 58 milhões esterlinos; acerescenta porém, que a avaliação 
seria illusoria se a pedra fosse, como elle julga, um topázio. 

Em outro livro do mesmo auetor, The Great Diamonds of lhe 
world, etc. London, 1882, encontra-se um capitulo intitulado The Br a- 
ganza. Citam-se n'elle passagens dos escriptos de Mawe (Traveis in 
c Brazil, London, i8i3) mas que se referem evidentemente a outra pe- 
dra achada ao norte do Rio da Prata. O auetor desconhece as referen- 
cias ao Bragança que se encontram no tratado de pedras preciosas de 
Mawe, e chega finalmente á conclusão de que esta pedra deve ter sido 
achada em 1794: data sem duvida errada, porque de contrario, não viria 
citado o Bragança na 2. a edição do livro de Briickmann, impressa 21 
annos antes do supposto achado. Acerescenta ainda, que, segundo recen- 
tes auetoridades, nunca esta pedra deixou de fazer parte do thesouro 
portuguez, onde é cautelosamente guardada das vistas de todos, por 
obvias razões financeiras, pois que seria inconveniente para o credito do 
paiz que viesse a saber-se que não é um diamante valioso. 

Com o extenso capitulo do livro de Streeter, que pretende ser rigo- 
roso, mas em que abundam as citações fora de propósito, nada se adianta 
no conhecimento da problemática jóia e antes se criam novas causas de 
confusão. 

O professor Cohen na sua memoria Ueber Sudafrihanische Dia- 
mantfelder, Metz, i8S3, attribue também ao Bragança um peso de 16S0 
quilates, acerescentando, todavia, que provavelmente é um topázio 
branco. Cita uma antiga avaliação em 1:200 milhões de marcos (270:000 



[82 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



contos), na hypothcse de que seja um diamante; c accresccnta «parece 
que até agora se não permittiu um exame scientiíico da dita pedra para 
não diminuir o credito do paiz». 

Diversas indicações se encontram ainda cm varias outras obras, 
mas que pouco ou nada adiantam, (i) 

Pelo curioso livro do snr. F. da Fonseca Benevides, intitulado As 
Rainhas de Portugal, vol. 2. , 1878, pag. 149, tivemos, porem, conhe- 
cimento de um documento manuscripto comprovativo da existência do 
Bragança, que por acaso lhe veio ás mãos quando procurava na biblio- 
theca do Museu Britannico documentos para a sua obra. O texto manu- 
scripto é destinado a servir de explicação a um desenho que representa 
o diamante, e (traduzido do inglez), diz o seguinte : (2) 

«O Diamante, actualmente em poder do Rei de Portugal, pesa 
6:400 grãos — Valor 36 milhões de libras esterlinas segundo o preço de 
venda do diamante do fallecido Governador Pitt, sendo aquelle 14 vezes 
mais pesado do que este. A figura supra dá a sua secção media, e foi 
copiada de um papel em que se tinha feito o desenho á vista da própria 
pedra. 

Foi achado por um camponez num rio do Brazil, na America, e 
levado ao Governador, o qual lhe oífereceu a recompensa ordinária de 
100 libras esterlinas, concedida pela lei (de 24 de dezembro de 1734, 
segundo o snr. Benevides); mas o camponez preferiu fazer presente 
d'clle ao Rei de Portugal.. . 1741. Julga-se que é uma saphira branca, 
á qual se assemelha na dureza e no peso. Tem a forma de um ovo de 
perua, mas é muito maior. Avaliado em 399:1,66 moedas (3) (Moydores) 
^= 538.874 libras e 2 sh. 

Champion, 2 de fevereiro, 1741. » 

Champion é evidentemente o jornal, ou revista, da qual o auetor 
do manuscripto extrahiu estes apontamentos, no próprio anno em que o 

(1) Prospcr Brard : Traité cies pierrôs préoieuses, 2 vol. Paris. 1S0S. Vol. I. pag. 48. 
Tschúdi I. I. von : Reisen durch Súdamerika, 5 vol. Leipzig, 1866. Vol. II, pag. 151. 

Diz que se sabe ao certo que o diamante de 1680 quilates é um topázio branco. 

Blum. R. Tãschenbuch der Edelsteuislcunde, Leipzig, 3.* ed. 1887, pag. 158, julga 
que será provavelmente um topázio esplendido 

Estas duas ultimas obras e muitas outras que não cito foram a meu pedido consul- 
tadas pelo Dr. A. Schrauf, professor da Universidade de Vienna, porque as não possuo. 
Seja-me permittido repetir aqui os meus agradecimentos ao notabilissimo mineralogista que 
tanto tem contribuído para o desenvolvimento da mineralogia e crystallographia modernas 
pelos seus escriptos monumentaes. 

(2) N.° 14:936 (addicionaes) foiio 77 b. Possuo duas copias d'este documento, uma 
que me foi fornecida pelo snr. Edvvard Scott, bibliothecario do Museu Britannico, outra ti- 
rada pelo snr. Walker, de Londres, conhecido em. Portugal pelo seu livro sobre o arehipe- 
]ago dos Açores. 

(3) De |$8oo reis. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO \o'j 



diamante foi offerecido a D. João V. Em seguida a esta passagem vem 
explicada a regra dos quadrados, para se achar o preço de diamantes, 
exemplificada com dois cálculos, (2) que são obra do copista. 

Este documento não é de rr.uito valor, e, na presença de melho- 
res, deveria mesmo desprezar-se. 

Na Bibliotheca Nacional, na bibliotheca< d'Ajuda e no archivo da 
Casa real nada pude obter para esclarecimento d'este obscuro assumpto. 

O enygma será provavelmente resolvido por pessoa que, por gosto 
ou por officio, folheie nos nossos archivos os documentos referentes aos 
reinados de D. João V a D. João VI, e ser-me-hia agradável se esta in- 
completa noticia despertasse o desejo de resolvel-o. Como conclusão das 
diversas citações anteriores pode deduzir-se com certa probabilidade que 
o Bragança existiu em Lisboa, «na posse» de D. João V, em 1741, e 
que existiu no Brazil em 1809-10, quando Mawe viajou n'aquelle paiz. 
Provavelmente foi levado para aquella nossa antiga colónia por D. João 
VI (quando ainda principe regente), por occasião da invasão franceza 
em 1807, junto com muitas outras preciosidades que lá ficaram ou se 
perderam. 

Qual a sua historia depois d'esta data? Não parece ter voltado do 
Brazil, visto que não encontrei menção d'esta pedra no inventario das 
jóias feito por morte de D. João VI e de que se acha o original na Torre 
do Tombo, mas também não consta que exista no Brazil. 

Fica igualmente por averiguar se o Bragança é ou era um dia- 
mante ou outra pedra o que só á vista se poderia verificar. 

Segundo communicação verbal do snr. Pereira da Costa, antigo 
lente da Escola Polytechnica, ha pouco fallecido, o barão d'Eschwege, 
dizia «muito em segredo», que o grande diamante era apenas um pe- 
daço de fluorite ! Esta versão não pôde referir-se ao Bragança, se atten- 
dermos a que Mawe falia de mineralogistas e joalheiros que examinaram 
uma pedra com o peso de 1680 quilates, que tomam por topázio, e que 
era evidentemente o Bragança. Talvez Eschwege se referisse a outra 
pedra, tanto mais que foram offerecidas no Brazil a D. João VI algumas 
ainda maiores do que aquella, julgadas diamantes pelos descobridores, 
e que vieram alvoroçar a corte, mas que eram simplesmente pedaços de 
crystal de rocha, como facilmente se reconheceu. Se fosse fluorite, que 
é mais fácil ainda de distinguir do diamante do que o crystal de rocha. 

(2) Um dos cálculos refere-se ao PUI (Regente), attribuindo-se-lhe um peso de 150 
quilates, o que não é exacto. No 2. calculo procura-se o valor de um diamante de 2:026 
quilates; não comprehendo que applicação el!e possa ter. Relativamente a preços ha n'estc 
documento diversas confusões. No principio, por exemplo, diz-se que a pedra vale 36 mi- 
lhões de libras, e no fim 538:874 libras. Do lado esquerdo do desenho está a indicação; 
1680 quilates. Este desenho foi reproduzido pelo snr. Benevides (1. c), 



lN| REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



não teria tido as honras de acompanhar o Principe Regente em 1807, 
pois provavelmente ter-se-hia desfeito o engano durnnte os 66 annos que 
medeiaram entre a offerta a D. João V e a partida de D. João VI para 
o Brazil. Se não era diamante, era mais que provável que fosse um to- 
pázio, pois que existe no Brazil a variedade a que chamam pingos 
d* agua por serem incolores, que se assemelham no aspecto aos dia- 
mantes e que por tal teem sido tomados, principalmente quando talha- 
dos em forma de brilhante. No que diz respeito ás fahulosas avaliações 
que mencionam alguns dos auetores citados, diremos apenas 'que seriam 
fabulosas, mesmo quando a pedra existisse e fosse um diamante. Esses 
enormes preços foram provavelmente calculados pela regra dos quadra- 
dos, que nunca teve applicação para diamantes tão volumosos, e as 
soturnas obtidas assim são naturalmente tanto mais exaggeradas quanto 
mais alto o preço admutido para o i.° quilate. 

Um diamante de 1680 quilates depois de lapidado, ficaria reduzido 
a um brilhante de uns 5oo quilates, portanto superior em tamanho a 
qualquer dos maiores diamantes lapidados conhecidos. Se o Bragança 
fosse realmente um brilhante de 5oo quilates de boa agua, valeria talvez 
alguns milhares de contos de reis; mas como topasio branco valeria, 
quando muito, algumas centenas de mil reis. 

A coroa portugueza possue, ao que se diz, diamantes menos pro- 
blemáticos; mas como nunca foram estudados nem é fácil vêl-os, nada 
podemos dizer a seu respeito, comquanto fosse trabalho muito interes- 
sante o fazer-se d'elles um estudo. 



Alfredo Bensaude. 



B1BLI0GRAPHIA 



F. Ferraz de Macedo — crime et crimjnel, . p ar js. 



Num paiz em que a sciencia se não cultiva pelo que é em si mes- 
ma, mas apenas pelo que pode praticamente representar — uma espécie 
de camiza de Vénus permittindo, ao abrigo de perigosas escoriações, en- 
trar nos fartos empregos, nas rendosas commissões officiaes ou na agio- 
tagem governativa — um homem trabalhando, como o snr. Ferraz de 
Macedo, com desinteresse e com amor, annos seguidos, n'um districto 
do saber, merece naturalmente o nosso respeito. A sua obra, grande 
ou pequena, trazendo a empreinte do génio ou somente a marca do ta- 
lento observador, rasgando horisontes novos ou apenas projectando al- 
guma luz nos caminhos entrevistos, reclama, indiscutivelmente, a nossa 
attenção. 

A nossa sympathia fixou-se ha muito sobre o snr. Macedo, inves- 
tigador despremiado que á probidade scientifica e á tenacidade no tra- 
balho allia o conhecimento e a posse integral dos processos necessários 
para realisar cóm precisão os mais delicados trabalhos da anthropome- 
tria. A offerta do seu novo livro, por mais de um titulo penhorante, 
dá-nos a consoladora opportunidade de publicamente affirmarmos os 
nossos sentimentos a seu respeito. 

Não temos nem espaço, nem tempo para uma critica detalhada 
do Crime et Criminei, porque á hora a que recebemos este livro ia 
adiantada a composição da nossa Revista. Isto nos força a somente 
lançar aqui fugidiamente algumas notas, visando sobretudo opiniões que 
são vulneráveis e que, por nossa parte, não cremos acceitaveis. 

Merecem desde todo o principio o nosso reparo a maneira por que 
o A. passa de leve sobre a noção de crime e a classificação que nos of- 
ferece dos criminosos. 

O crime, define o snr. Macedo, é uma infracção ás regras por que 
se' governa e rege a sociedade humana ; ora, como em cada colléctivi- 
dade e em cada epocha essas regras variam e differem, o crime é uma 
noção convencional, podendo o mermo acto merecer cu deixar de mc- 

13 



► 



l86 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



recer aquelle nome. E como, apressa-se a accrescentar o A., o crimi- 
noso não c senão o fautor d' esse neto de significação variável e ás vezes 
contradictoria, elle não pode existir como typo natural. 

Se tivesse completamente razão o snr. Macedo, a anthropologia 
criminal seria, no fundo, um verdadeiro não senso, porque seria uma 
sciencia sem base e sem objecto. Se o crime fosse, com effeito, como 
o A. pretende, uma pura noção convencional e o criminoso apenas o in- 
fractor de regras ou artigos vacillantes e mudáveis de um código, isto 
é, um typo artificial, proseguir o estudo de um e outro seria, anthropo- 
logicamente, uma chimera. 

E assim, ou o A. construiu sobre areia, fazendo com os seus es- 
tudos um esforço em pura perda, ou não viu nitidamente o assumpto, 
errando as definições fundamentaes. 

A nosso ver, este ultimo caso se deu. O crime, tomado como acto 
em si ou ainda em relação apenas á lei de que constitue uma violação, 
é, certamente, tudo quanto ha de variável : o que hontem e além foi 
uma virtude é hoje e aqui um delicto ; quem hontem, n'umas dadas 
condições sociaes, foi um sancto, seria hoje, porque mudaram essas 
condições, um delinquente. 

Mas o crime no ponto de vista da anthropologia é um facto diver- 
so : é, como Garofalo lucidamente mostrou, um acto humano que tem 
de julgar-se em face de certos sentimentos. Uma acção pode violar uma 
lei escripta e não ser para o anthropologista um crime, com quanto o 
seja para o magistrado: tal é, entre muitos outros, o caso dos delictos 
políticos e de imprensa. Para o anthropologo o crime só existe se foi 
violada uma forma rudimentar das emoções de piedade e de justiça, que 
são os núcleos formativos do altruísmo. Ora, precisamente porque es- 
tas emoções não são convencionaes, mas effeitos naturaes da evolução 
da nossa espécie, é que a violação d'ellas constitue um facto de caracter 
universal e fixo, essa violação é o crime natural, como lhe chama Ga- 
rofalo, o crime cujo auetor, por isso só que o é, revelia uma anomalia 
do senso moral. D'este ser que não acompanhou a evolução normal da 
humanidade ou d'ella se desviou, d'este ser inferior, antipathico e te- 
mido se oceupa a anthropologia criminal, estudando-o na sua psychici- 
dade, nos seus costumes, na sua litteratura, na sua arte, nos seus ante- 
cedentes, nas suas aggremiações, emfim nos seus caracteres somáticos. 

Não comprehendeu d'este modo o assumpto o snr. Macedo, que 
na primeira parte do seu livro se esforça por dar-nos uma classificação 
de crimes, bôa, talvez, para base de um código penal, mas inútil, por 
excessiva, para o anthropologista, que nada tem que ver com a grande 
maioria dos del ; ctos n'eila enumerados. 

Na classificação dos criminosos não nos parece o A. mais feliz. A 
seu ver, os criminosos procedem de quatro origens fundamentaes : i. a ) 
a loucura; 2. a ) a teratologia; 3. a ) a pathologia adquirida ou adventícia 
e 4. a ) a pathologia nativa por anomalias anatómicas, orgânicas ou hys- 
to-chimicas imperceptíveis. 

A confusão d'es?e quadro é evidente. Assim, a loucura apparece 
n'elle abusivamente difFerenciada das doenças adquiridas e nativas, quan- 
do ella não é realmente senão uma d'estas coisas: ou um estado mór- 
bido cerebral adventício e curavel (psycho-nevrose) ou congénito e cons- 
titucional (psychose degenerativa). Procurando illucidar o seu quadro, 
o A. não faz senão tornar mais evidente a confusão de espirito que a 
originou. Assim, diz-nos que o criminoso louco se reconhece pela per- 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIDEIUO 187 



versão de idcas e que o criminoso da 4. a cathegoria se caracterisa, como 
verdadeiro criminoso, pela constante revolta contra as leis. Mas o snr. 
Macedo esquece os loucos affectivos e os loucos moraes de que, na opi- 
nião de muitos psychiatras, os seus verdadeiros criminosos não são na 
realidade mais do que exemplares distrahidos dos manicomios para as 
penitenciarias. 

Este imperfeitíssimo agrupamento, feito depois das classificações 
de Lombroso e Ferri, não se justifica, parecendo que só uma excessiva 
preoceupação de originalidade o inspirou. 

A maneira por que o A. aborda o problema da frequência das ne- 
vroses e das psychopathias nos criminosos, não é, depois dos trabalhos 
existentes sobre o assumpto, de natureza a reclamar o nosso applauso. 
Quando criminologos e psychiatras distinctos, em numero considerável 
e trabalhando em paizes differentes, concordam em affirmar que nos 
delinquentes as doenças orgânicas e funecionaes dos centros nervosos 
são muito mais communs que na população não-criminosa, o A., sem 
fundamento estatístico, assevera que tal não é verdade, sob pretexto de 
que fora das prisões existe um importante numero de psychopathas que 
as familias escondem e de que só alguns médicos teem conhecimento. 

Nãa contradictaremos esta ultima observação do A., porque a cre- 
mos exacta; todavia, aííirmar-lhe-hemos com a auetoridade que resulta 
de uma longa clinica especial, que muitos d'esses nevro e psychopathas são 
realmente criminosos que só aos attentos cuidados da eutourage devem 
a não exteriorisação ruidosa das sua-; tendências aggressivas e antiso- 
ciaes, Estão n'este caso dezenas de epilépticos, por exemplo, cujos ac- 
cessos de furor extremo e cego se passam dentro das quatro paredes de 
uma sala desguarnecida e que, em liberdade, teriam incorrido nos mais 
graves crimes. Em idênticas circumstancias se encontram numerosas 
hystericas: impedidas pelas familias, ellas não logram exhibir as quali- 
dades criminaes que as caracterisam e que na vida livre fatalmente as 
conduziriam ás prisões. Accrescentemos ainda que um certo numero de 
psychopathas tendo praticado crimes entram nos manicomios sem pas- 
sarem pelas cadeias, graças aos recursos das respectivas familias que 
devidamente os fazem observar e os collocam ao abrigo de uma das 
causas derimentes da responsabilidade criminal. Todas estas considera- 
ções, cremos nós, são de pezo e deveriam ter bastado para impedir o 
A. de lançar-sede coração ligeiro cm opposição aos assertos dos que o 
precederam no assumpto. 

O capitulo consagrado á origem e formação da sociedade é dos 
que mais penosamente nos impressionou. Em primeiro logar, parece-nos 
elle mal cabido num trabalho que a si mesmo se dá como um simples 
ensaio synthetico de observações anatómicas, fthysiologicas. fatliolo- 
gicas e psychicas sobre os delinquentes e que deveria, porisso, des- 
viar-se das questões de sociologia que se não prendem de um modo im- 
mediato e directo com o problema criminal; em segundo logar, dado 
que o A. o considerasse necessário como meio de illucidar a questão 
geral da génese da criminalidade, a collocação d^Ue não poderia ser 
de modo nenhum no final do livro, mas no seu começo. Mas o que, so- 
bretudo, nos molesta é o espirito atrasado de todo esse capitulo em que 
as proposições mais innacceitaveis se ennunciam no tom de axiomas. 
Assim, por exemplo, segundo o A., as sciencias oceultas procederiam 
da «imbecilidade e da estupidez acerescentadas da cubica e do amor do 
dominio» ; o espiritismo seria «um invento da imaginação burlesca» ; 



[88 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



emfim, «a hypocrisia e a rapacidade dissimulada originaram as religiões 
e o despotismo». Puro século XVlil no fundo e na forma! . . . 

Vê-se, lendo esta ultima parte do livro do snr. Macedo, que elle 
não possue o espirito philosophico do nosso tempo, comquanto imagine 
o contrario e cite com abundância os trabalhos dos pensadores contem- 
porâneos. 

Excellente observador, solido e seguro de si no terreno dos factos, 
o A. desequilibra-se no dominio das especulações, onde a atmosphera é 
mais subtil e o voo exige mais larga envergadura. Isto se vê claramente 
na parte do livro em que combate a doutrina que faz do criminoso um 
ser atávico, uma sorte de anachronismo n'um meio civilisado. Se o A. 
conhecesse realmente todo o alcance d'esta concepção atavistica — tão 
larga como a do próprio evolucionismo de que procede — se soubesse 
que ella está dando em psychiatría a explicação de um considerável nu- 
mero de factos, certamente não teria passado ao lado d'ella desdenhosa- 
mente e, sobretudo, não lhe lançaria o argumento de que « ella contem o 
terrível paradoxo de basear as sociedades civiiisadas sobre criminosos». 
Este paradoxo é uma phantasia do A. : as sociedades civiiisadas nascem 
dos elementos perfectiveis e progressivamente adaptáveis da espécie 
e não dos seus elementos improgressivos, inferiores e anadaptaveis, que 
são os criminosos no sentido anthropologicodo termo, como atraz o de- 
finimos. Decerto, a humanidade atravessou um periodo premoral, sem 
noções e sem emoções de piedade e de justiça; essa epocha, porém, 
não é um periodo criminal, pois que a noção do crime é precisamente 
a da violação cTesses sentimentos que ainda então não existiam. Mas 
desde que essas noções e emoções surgiram (e a sua mesma eclosão de- 
monstra a perfectibilidade da espécie) immediatamente e naturalmente 
dois typos psychicos se differenciaram : os insusceptíveis de as compre- 
henderem e sentirem (criminosos) e os que as^ integraram na consciên- 
cia, transmittindo as por herança (normaes). E sobre estes e não sobre 
os primeiros que as sociedades civiiisadas se baseam. Como, porém, os 
criminosos são prolíficos, ao lado da descendência dos normaes e pela 
mistura com estes os typos imperfeitos se geram : d'aqui a persistência 
dos criminosos nos meios civilisados. A hereditariedade explica-os per- 
feitamente: existem como produetos saituarios, como regressões, como 
representantes, na dichotomia humana, do ramo imperfeito e inferior. 
Mas tanto as sociedades e as civilisações se não baseiam sobre elles que, 
por um lado, as degenerescências accumuladas acabam por extinguir- 
lhes as gerações e, por outro, a justiça — expressão da collectividade que 
se defende — procura segregal-os. 

Estas reflexões reduzem a coisa nenhuma o argumento ingénuo 
do snr. Macedo quando, fazendo a critica da doutrina que vê no crimi- 
noso a reapparição do selvagem, nos diz que ainda « nenhum viajante 
affirmou que todos os Australianos do centro e do littoral, que todos os 
indígenas da America, que todos os naturaes da Oceania sejam crimi- 
nosos». Mas, á doutrina não era precisa para nada uma tal afirmação. 
N'esses povos, como nos primitivos (e com mais rasão ainda, porque são 
muito ulteriores) deve haver elementos perfectiveis e outros que o não 
são. Os primeiros progredirão em contacto com as raças superiores, se 
este não for inteiramente absorvente, seguindo-as e evolucionando ; os 
outros persistirão como agora. E da mistura de uns e de outros sur- 
girão civilisações em que, como nas nossas actuaes e mais elevadas, ao 
lado dos normaes apparecerão excepcionalmente criminosos. 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO [89 



Mais feliz na maneira de considerar o problema da repressão 
criminal, o A. manifesta-se a lavor da pena de morte, no que segue, 
contra a corrente sentimentalista, o caminho dos que, como naturalis- 
tas, teem estudado o delinquente. Somente, ainda n'este ponto o A. 
manifesta um certo desequilíbrio de principies e pontos frouxos de ra- 
ciocínio. For um lado, com effeito, elle deixa perceber que um critério 
exclusivamente naturalista o conduz a acceitar a pena de morte como 
um processo necessário de que a sociedade se serve para defender-se 
dos que a perturbam; e tanto que não vacilla em affirmar que «um 
criminoso que premedita, com luneções physiologicas apparentemente 
perfeitas e fatalmente funestas aos indivíduos da mesma espécie, me- 
rece tanto a morte como o criminoso que é impellido por um symptoma 
pathologico ». Abaixo porém, falia da pena de morte como de um direito 
usado pela sociedade para expulsar de si aquelle que não «observa os 
artigos impostos pelo contracto ou convenção entre os homens», 
aquelle que, tendo-se tornad> incompatível com a collectividade ((-per- 
siste em querer fazer parte d'ella ». E 1 evidente que o critério do A. va- 
riou, desviando-se da orientação naturalista da necessidade social 
para a metaphysica do contracto voluntariamente violado. Ora, a pena 
de morte imposta ao criminoso doente é, n'este ultimo caso, um não- 
senso. 

Se não luetassemos com falta de espaço e de tempo, procuraría- 
mos mostrar ao A. que nenhum dos seus critérios extremos é hoje 
viável : o da violação voluntária do contracto sccial, porque a socieda- 
de é um organismo cuja evolução não depende de convenções, de con- 
tractos ou de artigos de códigos, que apenas e de um modo imperfeito 
reflectem o seu estado consciente ; o da exclusiva necessidade social, 
porque a lucla pela existência, de que elle procede, é dentro da nossa 
espécie uma lei cuja interpretação differe profundamente da que tem 
quando se trata de organismos inferiores. Depois, procuraríamos evi- 
denciar-lhe que a morte do criminoso-doente, sendo um não-senso na 
doutrina corrente dos juristas, é também, embora por motivos diver- 
sos, inacceitavel por parte dos que sustentam as theorias positivas 
da repressão. Onde nos levaria, porém, esta exposição de princípios r 

Temos necessidade de acabar. Não o faremos, todavia, sem uma 
referencia de vivo applauso para tudo o que no Crime et Criminei 
representa um trabalho positivo de observação. Ahi o A. dá quanto 
aos mais hábeis e conscienciosos se pode exigir ; e será por esse lado 
que o seu livro entrará na circulação scientifica internacional. Os seus 
processos são rigorosos, as suas séries longas, as suas observações de- 
talhadas, os seus graphicos de primeira ordem. Se o snr. Macedo se 
houvesse limitado a esta parte do seu trabalho nós não teríamos se- 
não a felicital-o. 

E 1 difficil possuir em doses iguaes e notáveis o espirito de analy- 
se, sem o qual a sciencia positiva não existiria, e o espirito de syn- 
these sem o qual a philosophia seria uma chimera. 

O snr. Macedo tem principalmente o primeiro; exercitando-o, 
enriquecerá a sciencia. 

20 de setembro de 1892. 

Júlio de Mattos 



OS MORTOS 



ESTAGIO DA VEIGA 



Vae rareando desanimadoramente o já pequeno grupo de ho- 
mens de sciencia que, como incentivo de Carlos Ribeiro, desentranha- 
ram os restos característicos das civilisações succedidas num passado 
remotíssimo n^ste pequeno farrapo do occidente da velha Europa. Fre- 
derico de Vasconcellos, Paula Oliveira, Pereira da Costa foram os 
que, apoz o insigne chefe da Commissão geológica, baquearam na lu- 
cta, deixando outras tantas lacunas irreparáveis no nosso meio scien- 
tifico. 

Agora temos a triste missão de dar outro traço negro e este no no- 
me de um dos mais ardentes e dedicados pesquisadores da archeolo- 
gia nacional — Estacio da Veiga. 

Único no Algarve, Estacio da Veiga esquadrinhou as antiguida- 
des d^sta bella provincia, determinando-lhe os monumentos das di- 
versas étapes civilisadoras, recolhendo um riquíssimo mobiliário e os 
restos archeologicos das populações d^ntão. 

Por occasião do Congresso d'antropologia e d'archeologia prehis- 
toricas, realisado em Lisboa, em 1880, essas antiguidades foram reu- 
nidas sob a denominação de — Museu do Algarve. Ahi estavam bsl- 
lamente representados os períodos neolithico, do cobre, do bronze e 
do ferro, mostrando quam rica era aquella região sob o ponto de vista 
paleoethnologico e quam incansável e methodico tinha sido o trabalho 
do seu dedicado explorador. 

Notemos no emtanto com profundo desgosto que esta magnifica 
collecção foi mais tarde mandada fechar ao publico e desterrada para 
os baixos do museu de bellas-artes, onde ella ainda hoje se empoeira e 
se desarranja no negrume d'um subterrâneo! Improfícuos foram os 



REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO IQI 



protestos de Estacio da Veiga que teve de amargurar ria alma este 
grande dissabor com que lhe pagaram as canceiras e as fadigas que te- 
ve na pesquiza desses pergaminhos da nossa nacionalidade. 

Em 188Ó começou elle a publicação da sua obra capital cAnti- 
entidades monamentaes do cAlgarve, onde o auctor tencionava conglo- 
bar tudo o que recolhera sobre a archeologia algarvia. A parte prehis- 
torica, formando quatro volumes, já é do domínio publico e, prepara- 
va Estacio de Veiga o quinto que ligava essa parte com a histórica, 
quando a morte o veio surprehender n'esse trabalho. 

Nos quatro volumes referidos admira-se a grande quantidade de ma- 
teriaes colligidos e dispostos segundo a chronologia paleoethnologica : 
Estacio da Veiga assignala-nos vinte e trec grutas que ficaram inex- 
ploradas ; enumera-nos as estações características do período neolithi- 
co. entre as quaes sobresahe a de Aljezur como typica, com todo um 
mobiliário robenhausiano e onde o auctor recolheu dezenove das pro- 
blemáticas placas ornadas, de schisto, e que dão um cunho tão espe- 
cial á ultima phase da edade da pedra no sul do nosso paiz ; e mos- 
tna-nos em Alcalá — uma verdadeira necropole dolmenica — a transi- 
ção d'essa phase industrial para uma outra nova, a do cobre, cujcs 
vestigios o illustre archeolrgo encontrou espalhados por toda a pro- 
víncia. 

As necropoles de Cácclla e Castro Marim representam no Algar- 
ve essa edade, cuja existência tanto foi contestada, mas que teve uma 
plena confirmação com estas descobertas de Estacio da Veiga e com 
as de Siret no sud-este da Hespanha. 

( >s característicos das edades do bronze e do ferro que se suece- 
deram a ess'outra, encontrou-os o infatigável pesquizador bem repre- 
sentados na sua província. Citemos a necropole da Donalda para a 
primeira c a de Bensaírim pira a segunda. 

Reunidos tod< I >- archeologicos, Estacio da Veiga ela- 

borou com elles a carta archeologica do Algarve, em 1^78, que mais 
1 ampliada cm virtude de novas descobertas e finalmente pu- 
biicada no primeiro volume das 'Antiguidades. Devc-se-lhe pois a 
elab da primeira carta archeologica que fez no nosso paiz, 

trabalho este muito importante na paleoethnologia para o conheci- 
mento da centrali c da dispersão, n'um dado território, dai 
popula ■-' pi í li ie n'elle ex istiram. 

e Iiiihn ul' l estudar a sua província s^b o 

to de vi lógico; fez também n'ella o estudo dos po- 

li oceuparam, romanos, os wisigodos e os 

do Al ■•• rvi Esta ío da Veiga, pesquizou as antiguidades de 



IQ2 REVISTA DA SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



Mafra, durante a sua permanência n^sta celebre villa extremenha, cm 
1779. 

Além da sua obra. Antiguidades monumentaes dozAlgarve, de que 
acabamos de fallar, Estacio da Veiga tinha já publicado os seguintes 
trabalhos : 

Vovós balsenses, folheio. Lisboa, 1866. 
'Romanceiro do «Algarve. Lisboa, 1870. 
(Antiguidades de [Mafra. Lisboa, 1879. 

Memoria das antiguidades de Mertola observadas e.n iSjy. Lisboa, 1880. 
*A Tabula, de bronze de Aljustrel, lida, deduzida c commentada cm i8~6, me- 
moria apresentada á Academia Real das Sciencias. Lisboa, 1880. 

Ainda existe d^lle um trabalho botânico sobre orchideas. 

Estacio da Veiga deve oceupar um lugar proeminente na Historia 
da archeologia portugueza, como um seu incansável obreiro e distin- 
cto pesquizador. 

Que ao menos em homenagem ao dedicado archeologo se lhe 
satisfaça emfim o seu maior desejo, expondo convenientemente o seu 
museu do Algarve, ha mais de nove annos fechado ao publico. 

E a revalidação da obra de Estacio da Veiga e um incentivo para 
os que vierem. 

F. C. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



M.. I 






Fig. 2 



F 'g 3 



Kg. i 





Fiç 6 



Fig. 4 



Kociia Pf.ixoto — A latiião-cm cm Portugal. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



1-1 





Fig. 8 



Vví- 1 




^ig. 9 



Rocha Peixoto — A tahtarrem em Portugal. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



N 



O 



r\z 



LB^i 






A 





c 



« 




Fig. io 



Rocha Peikoto — A tatuagem cm Portugal. 



SOCIEDADE CARLOS RlflElRO 



... [V 




& s & 




/8 88 



ig. M 





Fig. 13 



%. 15 



Roch^ Peixoto — A tatuagem em Portu&àL 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 



. V 




18 f 2/ 



Rocha Peixoto — A tatuagem cm Portugal. 



SOCIEDADE CARLOS R1HK1RO 



|'l 



V 




Rcciia Peixctc — A tatuagem em Portugal. 



sociedade: carlOs ribeiro 





Fig. 17 





Pi 8 19 



Fig. jS 



Rocha Peixoto — A laluxgcm em Portugal. 



SOCIEDADE CAKI.OS Kl m-ll Ut > 



IM.. \ II! 



\ I 




Fig. 20 




ISA To ã 
a/U 

o?tí\A 
Ho TAS 





Fig 2. 



Fig. 2 



Rocha Peixoto — A tatuagem em Portugal. 



SOCIEDADE CARLOS RIBEIRO 

jatinda das sciencius naturais c sociaes em Portugal) 



V Sociedade Carlos Çíbeiro tem recebido as seguin- 
;es publicações, (Nalgumas das quaes se oceupará na sec- 
:ão oibliographica da sua Revista: 

/eira da Silva — O reconhecimento analytico da cocaína e seus saes 
(Notas e documentos), 8 u , 42 pag. Porto, 1891. 

— O emprego do sulfo-selenito de ammonio para caracter isar os alca- 

lóides, 8.°, 3 pag. Lisboa, 1891. 

— O o.xydo amarcllo de mercúrio na analyse dos vinhos, 4. , 3 pag. 

Lisboa 1891. 

Arthur Malheiros -A lei do trabalho máximo (Estudo critico de me- 
chanica chimica), 8.°, i5o pag. Porto, 1891. 

E. Hamy — Vozuvre géographique des Reinei et la découverte des Mo- 
luques. 8.°, 35 pag. e II cart. Paris, 1891. 

R. Collignon— Projet d'entente internationale pour arréter un pro- 
gramme commun de recherches anthrtipologiques à faire aux 
conseils de révision, 8.°, 10 pag. Cherbourg, 1892. 

Th. Huxley — Les problèmes de la géologie et de la paléoniologie, in- 
16, 3i2 pag. e XXXIV fig. Paris, 1892. 

Henri Sicard — Wévolútion sexuelle dans Vespèce liumaine, in-16, 3i8 
pag. e 94 fig. Paris, 1892. 

Sociedad geográfica de Madrid — Congresso geográfico hispano-portu- 
gués-ámericano (Commemoracion dei cuarto centenário dél des- 
cubrimiento da America), in-18, 29 pag. Madrid, 1892. 

'Programma para a representação de Portugal na celebração do cen- 
tenário da descoberta da America, in-4.' J , 6 pag. Lisboa, 1891. 

Nery Delgado — -Fauna silurica de ''Portugal. Descripçã» d' uma forma 
nova de trilobite, Lichas Ribeiroi, in-4. , 16 pag e VI pi. Lisboa, 
1892. 

United -States Geological Survey—Ninth annual report (1887 88), in-4. , 
717 pag. e numerosas grav. e pi. Washington, 1889 

Florentina Atneghino— Contribucion ai conocimiento de los mamiferos 
Jbsiles de la Republica Argentina, 4. gr., 1027 pag. e Atlas 
com 9S planchas. Buenos-Ayres, 1889. 

Paul Chofíat — Esquisse de la marche de V ètude gèologique du 'Portu- 
gal, in-8.°, 20 pag. Porto, 1892. 

— Espagne & Portugal ( Extrai t de V Annuaire gèologique univer sei), 

in 8.°, u pag Paris, 1&92. 
Société d'Anthropologie de Paris— Catalo gue de ia IBibliothèque, 2 voL 

in 8 n . Paris, 1891. 
Prince de Mónaco —'Projet d? observatoires météorologiques sur VOcéan 

dK ti anti que, in-4. , 3 pag. Paris, 1893. 
J. Pilling — Bibliography of the zAlgonquian languages, in-8.°, 614 

pag. e numerosas grav. Washington, 1891. 
J. Dorsey — Omaha and ponha letters, in-8.°, 123 pag. Washington, 1891. 

— The cegiha language, in-4. , 794 P a g« Washington, 1890 

C. Thomas — Catalogue of pre historie vjorks, in-8.°, 246 pag. Washin- 
gton, 1891. 






( mtimni capões da Commissàp dos 1 rabalhos Geologicb\ ton 

II. Lisboa, 189a. 

Revista de obras publicas e vikias, tom. XXIII, n. ,,s 265 a 27: 

1.89-2., 
Revista do fMinho. vol. VII n os 19 a 22 c 24; vol. VIII, n. ,,s 

pozende, 1^91 o3. 
Revista Jurídica, vol. I, h. os 1-14 e vol. II, n. ,lS 3-6. Porto 1892 <)3. 
Boletim da Sociedade dirolei iana. vol. IX, fase. 2-4 e vol X, fase. I 2. 

Coimbra, 1S92. 
Revista dos lyceus, tom. I. n. 0, 11. Porto. 1892. 
Boletim da Sociedade de Geogt&phtq de Lisboa, io. a ser. n. * 4 c 12 e 

11. a ser. n. ,s i-5. Lisboa, 1892. 
Revista de Guimarães, vol. X, n.° 1. Guimarães, 1893. 
Boletim do Atheneu Commercial do Porto, vol. II. n. os 1-12 e vol. III, 

n ° 8 i-3. Porto, 1893. 
Instituto, vol. XXXIX, n. os 4 a 12; vol. XL, n. os 1 8. Coimbra, 1892-93. 
Jornal da Sociedade pharmaceutica lusitana, tom III, n. os 1-32; tom. 

IV. n.° 1. Lisboa, 1893. 
Revue scientijique, tom. 49. n.° s 5 a 26; tom. 5o, n. os ) a 27 ; tom. 5i, 

n. os 1-6. Paris. 1892-93. 
Revu.e mensuelle de 1'École d : Anthropologie de Paris, vol. II, n. os 1 a 

12; vol. III. n.° 1. Paris, 1893. 
Bollettino dei c Real Comitato geológico d' Itália, vol. II, n.° 4 : vol. 

III, n. os i-3 Roma. 1892. 

Bollettino delia Societá geológica italiana, vol. X, fase. 2. Roma, 1891, 

Bollettino di paletnologia italiana, toms. V, VI e VII ; tom. VIII, n." s 
1-12. Parma, 1892. 

Bulletins du Comité géologique de St. Pétersbourg, vol. IX, n. os 9-io; 
vol. X, n. (s 1-9; vol. XI, n. 08 1-4. S. Petersburgo, 1891-93. 

Siipplément an tom. X des c Bullelins du Comité' géologique de St. Pé- 
tersbourg. S. Petersburgo, 1S91. 

Bulletin de la Société ^oologique de l rance, tom. XVII, n. 08 :-8. Pa- 
ris, 1893 

Bnlletin de la Société belge de microscopie, tom. XVIIJ, n. os 3-9; tom. 
XIX, n. os i-3. Bruxelles, 1^93. 

Bnlletin de la Société vaudoise des seienets natitrelles, n os 106-109. 
Lausanne, 1892. 

Mémoires du Comité géologique de St. 'Pétersbourg, vol. IX, n.° 2 ; 
vol. XIII, n.° 1. S. Petersburgo, 189L 

Mémoires de la Société des natura listes de Kievj, tom X, n os 3~4 ; tom. 
XI. n. os i-2. Kiew, 1891 1892. 

The american anthropologist, vol. IV, n. os 2-4 e vol. V, n. cs 1-2. Was- 
hington, 1892. 

Annuaire de la Société d'cArchéologie de 'Bruxelles, loms III c IV. 
Bruxcllas, 1890. 

Feuille des jeunes'naluralistes. tom. XXII, n. os 257 a 264 e tom. XXIII, 
n os 265 a 269 Paris, 1893. 

Mélusine. tom VI, n. s i-5.. Paris, 1S93. 

Verhandlungen der 'Berliner gesellschaft fúr anthropologie, et h no lo- 
gie vnd urgeschichle, n. os de julho-dezembro de 1891 e janeiro- 
julho de 1892. Berlim. 1892 

The Journal of the anthropological instilut.e of Creat c Brilain and Ire- 
land, vol. XXI, n os 3-4; vol. XXII, n.°s i T 3. Londres. 1892-93. 

Abstracts of the procedings of the (ieological Su.ciety of London, n. os 
583 -60 1. Londres, 1893 

Bulletin de V institui Egvptien, 3 a ser. n. os i 3. Cairo. 1^92. 

Bulletin de la Société d'' Anthropologie de Paris. tom. II (ser. II) fase 
3."; tom. Ill, fase. I-III ; tom. IV, fase. I. Paris, iRq3. 

((Jôntinugj. 





DIGEST OF THE 

LIBRARY REGULATIONS. 



No book shall be taken from the Library without the 
record of the Librarian. 

No person shall be allowed to retain more than five vol- 
umes at any one time, nnless by special vote of the 
Council. 

Books may be kept out one calendar month; no longer 
without renewal, and renewal may not be granted more than 
twice. 

A fine of five cents per day incurred for every volume not 
returned within the time specified by the rules. 

The Librarian may demand the return of a book after 
the expiration of ten days from the date of borrowing. 

Certain books, so designated, cannot be taken from the 
Library without special percnission. 

Ali books must be returned at least two weeks previous 
to the Annual Meeting. 

Persons are responsible for ali injury or loss of books 
cbarged to their name.